Di Melo

artista brasileiro
Disambig grey.svg Nota: Este artigo é sobre o artista. Para seu primeiro álbum, veja Di Melo (álbum).

Roberto de Melo Santos, mais conhecido como Di Melo (Recife, 22 de abril de 1949), é um músico, pintor, escultor, ator, escritor e poeta brasileiro que iniciou sua carreira em meados dos anos 1960, performando em diversos bares de sua cidade e mais tarde, viajando para São Paulo. No início dos anos 1970, foi apadrinhado por Roberto Colossi, que providenciou sua participação em caravanas de redes de lojas. Após a morte do empresário, conheceu Alaíde Costa e foi apresentado, pela cantora, ao diretor da EMI-Odeon, que contratou-o após ouvir algumas canções. Na gravadora, obteve bom desempenho radiofônico.

Di Melo
Di Melo em abril de 2006.
(foto de Dorival Elze)
Nome completo Roberto de Melo Santos
Pseudônimo(s) "Imorrível"[nota 1]
Nascimento 22 de abril de 1949 (71 anos)
Recife, Pernambuco, Brasil
Cônjuge Jô Abade (c. 2000)
Filho(s) Gabi di Abade
Ocupação
Carreira musical
Período musical 1965–presente
Instrumento(s)
Assinatura
Assinatura Di Melo Melhorada.svg
Página oficial
imorriveldimelo.wixsite.com

Teve canções gravadas por artistas como Wando e Jair Rodrigues, porém entrou em ostracismo após receber baixos royalties e conflitar com seu produtor. Após sofrer um grave acidente de moto na década de 1990, foi vítima de boatos sobre uma suposta morte. Durante a década de 2000, lançou uma série de discos independentes e voltou a fazer shows, sendo objeto de dois documentários e um curta-metragem ficcional. Ele também já atuou em uma peça teatral, escreveu dois livros, dedica-se a pinturas, esculturas e poemas e teve uma aparição no clipe do grupo The Black Eyed Peas, "Don't Stop The Party".

BiografiaEditar

Di Melo é filho de Artur Napoleão de Melo Carneiro Filho, violonista e taxista e de Gabriela Dativa dos Santos, cantora, que o inspirou fortemente em seu gosto musical.[2][1][3][4]

Primeiras experiências musicaisEditar

"Já nasci assim. Gostando, curtindo, vivenciando, me ramificando e bebendo na fonte das várias artes, ou seja: teatro, música, pintura, entalhe e, nos termos de composição, sempre gostei de violões e suas formas. Acho que nasci boêmio."

Di Melo[4]

Seu padrinho, nascido em Portugal, era dono de uma das maiores casas de ferragem de Pernambuco. Quando criança, cotado para trabalhar no local, permaneceu durante apenas oito dias, devido ao frequente contato com o violão.[3] Aos 13 anos de idade, compôs sua primeira canção.[5] Durante sua adolescência, seu ganha-pão esteve na guarda e lavagem de carros;[6] entalhe de madeira; pintura de quadros e em performances nos bares do Aroeira e Bumba Meu Bar.[3] Após missas, costumava organizar concertos improvisados com seus amigos.[5]

Em 1965,[5] o então organista de Roberto Carlos, Vanderlei, ouviu as canções do artista e sugeriu-o que fosse a São Paulo. Acompanhado pelo organista, Di Melo viajou à cidade, porém não se adaptou ao frio, logo voltando à terra-natal Recife[3][6] e atuando na peça teatral O Arame Farpado no Continente Perdido.[7] Atento às oportunidades, em 1968 apresentou algumas composições para Jorge Ben Jor, que lhe deu o cartão de Roberto Colossi. Partindo outra vez para São Paulo, foi apadrinhado pelo empresário.[1][5][8][9]

No começo da década de 1970, o artista era conhecido por pessoas mais íntimas como Boby d'Melo (ou ainda Bob di Melo),[10] chegando a assinar suas primeiras composições registradas com o apelido.[9] Colossi conduziu-o para a realização de shows na caravana da rede de lojas Ducal Roupas. Neste período era muito comum entre os músicos brasileiros a realização desse tipo de evento para gravadoras, rádios, teatros, etc.[3] Entre 1973 e 1974, viveu em Tóquio, no Japão, onde frequentava o bar Saci Pererê. Na cidade, compôs três canções: "Kilariô", "Minha Estrela" e "Se o Mundo Acabasse em Mel", que mais tarde seriam lançadas oficialmente.[9] Mais tarde, Di Melo ainda viajaria à França e à Alemanha.[11]

EMI-Odeon e primeiro álbumEditar

 
Di Melo em data desconhecida.

Em meados da década, Roberto Colossi adoeceu, deixando de empresariar diversos artistas e falecendo pouco tempo depois. Voltando ao Brasil, o artista começa a se apresentar na noite dos bares paulistanos, incluindo Lei Seca, Aleluia e Janela para o Mundo. Certa vez, a cantora Alaíde Costa organizou uma competição no bar Jogral, Rua Augusta, também frequentado por Di Melo.[12] Gostando de sua performance, a cantora decidiu apresentá-lo ao diretor da EMI-Odeon, Moacir Meneghini Machado, que o contratou após aprovar suas composições.[1][5]

Em oito dias, finalizou a gravação de seu primeiro álbum, que foi lançado em 1975 e conta com participações instrumentais de Hermeto Pascoal e Heraldo do Monte.[9][13] Foram feitas três mil cópias para divulgação nas rádios, que, durante algum período, reproduziram as canções do disco.[1] O álbum, esgotado em sua primeira tiragem, foi elogiado pelos críticos musicais da época.[14][15]

Os cantores Wando e Jair Rodrigues gravaram músicas suas ("Volta" e "Paspalho", respectivamente) e mesmo com as altas vendagens,[1] Di Melo recebeu no trimestre apenas 11 cruzeiros pelos royalties.[9] Sentiu-se ainda, contrariado por seu produtor, que, segundo ele, o impediu de fazer músicas politizadas.[16] Indignado, pediu rescisão da gravadora EMI-Odeon[9][17] e voltou a cantar em bares e cantinas, principalmente na Camorra, onde eram apresentadas músicas italianas.[9]

Na opinião do artista, o próprio foi vítima do sentimento de inveja por parte de outros artistas. Em suas palavras, começou na época "uma onda de despeito" para consigo. Em entrevistas, disse que, até os dias atuais, não recebe dinheiro com direitos autorais e muitas pessoas utilizam seu trabalho sem autorização.[1] Apesar dos diversos problemas pessoais, nunca parou de compor.[5] Durante a década de 1980, percorreu várias regiões da América do Sul com Geraldo Vandré.[11] A dupla possui doze canções em parceria.[18]

Acidente, retorno e casamentoEditar

Em alguma noite do início da década de 1990, Di Melo estava em Pinheiros, São Paulo, saindo do bar Avenida, quando dois caminhões foram em direção a sua motocicleta, que andava na contramão. Alcoolizado, o artista viu que não conseguiria atravessá-los pelo centro e pulou da ponte, caindo em cheio no rio. O acidente deixou-o com grandes dificuldades de locomoção durante seis meses, sendo necessária uma fisioterapia para sua recuperação.[19] Iniciaram-se, então, duradouros boatos envolvendo a suposta morte de Di Melo, surgindo daí o apelido "imorrível".[5][9][18][20]

Ele soube dos boatos quando, em 1999,[16] um jornalista de Londres e amigo íntimo ligou-o às oito horas da manhã perguntando se o havia despertado e informando-lhe de que havia sido feita uma pesquisa a nível mundial, indicando que sua voz era uma das dez maiores do planeta e que, em contrapartida, constava-se que ele havia morrido em um desastre de motocicleta. Espantado, o artista, que na época foi convidado a apresentar-se na Ásia, brincou que havia morrido e "esqueceram de [lhe] avisar".[12][18] Dois anos antes, as músicas de seu primeiro álbum haviam voltado a tocar nas pistas de dança. A redescoberta se deu através de DJs ingleses, quando a música "A Vida em Seus Métodos Diz Calma" apareceu na coletânea Blue Brazil 2.[2][5][9]

Na década de 1990, lançou o álbum Distando Estava, acompanhado pela banda do músico Belchior, pela extinta gravadora Camerati.[14][21] Em 2000,[22] o artista conheceu sua atual mulher, a baiana Juvenilza Abade dos Santos, apelidada como Jô, puxando o bloco carnavalesco do "Vai Quem Quer".[16][23] Hoje, ela é responsável pela agenda do marido.[2][9][22][23] Di Melo e Jô são pais da menina Gabriela, de nome artístico Gabi di Abade, que participa, cantando, em shows e discos do pai.[2][9][22][23] No decorrer da década, lançou mais oito discos independentes.[24] Em 2002, seu primeiro álbum foi relançado dentro da coleção Odeon 100 Anos, coordenada por Charles Gavin.[9][13]

Esse disco é realmente incrível. Ele tem uma coisa rara por aqui, que é o clavinete, instrumento usado por Stevie Wonder e outros astros do soul e funk dos anos 1970. Ele dá um balanço todo especial ao disco. E deve ser destacado o fato de ele ter sido muito bem gravado para a época. O som é ótimo.
— Charles Gavin[25]

Imorrível e parceria com CotoneteEditar

O artista também teve uma rápida aparição no videoclipe da canção "Don't Stop The Party" do grupo The Black Eyed Peas.[2][9] Em 2011, se apresentou na Virada Cultural,[26][27] em 2013, foi acompanhado pelo grupo Charlie e os Marretas[11] e em 2015, realizou um concerto na quadra da escola de samba Bambas da Orgia, em Porto Alegre, Rio Grande do Sul.[28] Em 2016, é lançado o álbum Imorrível pela Casona Produções, contando com o trabalho de 55 músicos profissionais e incluindo participações de BNegão, Larissa Luz e Olmir Stocker.[1][29] Participou duas vezes do festival Psicodália, em Rio Negrinho, Santa Catarina; em 2014 e em 2017, na segunda acompanhado pelo grupo Trombone de Frutas.[30][31][32]

 
Di Melo em março de 2016, em entrevista a Rádio Cidadã FM.

Em junho de 2018, foi lançado seu single "A.E.I.O.U." e em maio do ano seguinte, o álbum Atemporal, ambos gravados em São Paulo, em parceria com a banda parisiense Cotonete, pela gravadora Favorite Recordings. O álbum conta com a participação de sua filha, Gabi, nos vocais da canção "Canto da Yara".[22][33][34] Para a divulgação, foi feita uma turnê por vários países da Europa. A ideia do disco surgiu quando, desde 2017, os franceses procuravam um artista brasileiro que aceitasse gravar um álbum em colaboração.[22]

Em outubro de 2019, Di Melo apresentou-se no Circo Voador, Rio de Janeiro[35] e em janeiro do ano seguinte, no festival BR48 em Florianópolis, Santa Catarina com Otto, Criolo e MC Tha.[36] Em fevereiro, abriu o Festival Cachueirada, na Cachoeira Nascentes das Gerais, em Minas Gerais.[37] Em março, apresentou-se no Sesc Araraquara, convidado pela banda Aláfia[38] e no Porão Bar, em Maringá, Paraná, comemorando os 45 anos de seu primeiro álbum.[39]

Em abril, durante o período de quarentena devido a pandemia de COVID-19, Di Melo participou do festival virtual Fico em Casa, com Ira!, Marcos Valle, entre outros.[40] Ele já escreveu dois livros, que ainda não foram publicados: A Mini Crônica da Mulher Instrumento e O Bicho Voador (este último inspirado na paixão do artista por aviões)[1][4] e, além das pinturas, trabalha também com esculturas e poemas.[41]

LegadoEditar

Segundo Vinícius Feder, colunista do site Soul Art, Di Melo tem tudo para ser reconhecido como um músico de grande legado para a música brasileira, graças a sua trajetória artística.[42] Já segundo Luciano Matos, colunista do site El Cabong, o artista era "um pernambucano que quase ninguém havia ouvido falar" e tornou-se uma "lenda".[7] O livro Curtindo Música Brasileira (2013) de Alexandre Petillo, Eduardo Palandi, Erick Miranda e Zé Dassilva, credita Di Melo como um dos músicos "devidamente abençoados" que iniciaram sua carreira artística na metade da década de 1970, juntamente à Carlos Dafé, Robson Jorge, Miguel de Deus, Banda Black Rio e Gerson King Combo.[43] Marcos Sampaio, jornalista e um dos fundadores do blog Discografia, definiu-o como "síntese perfeita de Candeia, Tim Maia e James Brown".[44]

Um texto do site Itaú Cultural cita Di Melo como "um dos pais do funk e do soul nacionais", completando que o artista "foi um dos primeiros a trabalhar o suingue (...)" desses gêneros musicais.[45] Na opinião de Tiago Ferreira, editor do site Na Mira do Groove, o músico "escapa de qualquer catalogação", devido a variedade de estilos musicais presentes nas canções de Di Melo, que em sua carreira juntou diversos elementos da soul music com a psicodelia.[46] Em uma de suas entrevistas, Di Melo definiu seus gêneros musicais como soul, samba rock, black music, funk, jazz rock, balada romântica e bossa luxo.[21] Nomes como Luiz Gonzaga, Elza Soares, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Tim Maia, Jimi Hendrix, e grupos como The Beatles são alguns exemplos das diversas influências do artista.[21]

Seu primeiro álbum, em sua primeira edição, tornou-se uma raridade, com aumento constante de seu preço. Em 2015, o disco podia ser comprado por 200 reais. Em 2017, a média do preço já era de 600 reais, ou seja, o triplo do primeiro citado.[47] O artista descobriu sobre a raridade do disco quando certa vez encontrou, nos Países Baixos, o mesmo valendo 500 euros.[11] Em janeiro de 2020, foi lançado o álbum Acorda Amor, que contém uma regravação de "A Vida em Seus Métodos Diz Calma" em interpretação de Liniker.[48][49]

DiscografiaEditar

No período em que ficou sem gravar ou lançar álbuns, o artista compilou 400 novas canções. Destas, aproximadamente cem foram gravadas para seus álbuns independentes. Algumas outras canções também foram lançadas, nos álbuns Imorrível (2016) e Atemporal (2019), porém muitas ainda não foram registradas.[9][18][22]

A compilação 32 de Fevereiro é um apanhado de canções de Di Melo gravadas por outros artistas e canções de outros artistas gravadas por Di Melo.[18] O artista ainda gravou quatro videoclipes musicais: "Kilariô";[50] "Má-Lida";[51] "Papos Desconexos Part. 1"[22] e "Barulho de Fafá", este último para a MTV.[52]

FilmografiaEditar

  • Di Melo - O Imorrível (2011, documentário): O filme conta a trajetória do artista e a história de seu retorno após mais de 30 anos. Além do próprio, aparecem também no filme músicos como Charles Gavin e Léo Maia. Foi produzido por Stella Zimermann e dirigido por Alan Oliveira e Rubens Passaro.[56] Durante o ano seguinte, venceu sete prêmios, incluindo o de melhor montagem pelo Festival de Gramado.[56][57]
Ano Premiação Categoria Indicação Resultado
2012 Cine MuBE
Vitrine
Melhor curta (júri popular) Venceu
Menção especial do júri Venceu
Cine PE Prêmio aquisição
(Canal Brasil)
Venceu
Festival
Guarnicê
de Cinema
Melhor documentário Venceu
Melhor média-metragem Venceu
Troféu ABD (melhor roteiro)[58] Alan Oliveira e
Rubens Passaro
Venceu
Festival de
Gramado
Melhor montagem Gustavo Forti Leitão Venceu
  • Sou(l) Kilariô (2015, documentário): Registra a primeira visita do músico à Belém, Pará e exibe trechos de um show realizado na véspera do Círio de Nazaré. No filme, entre outras coisas, Di Melo fala sobre o próprio processo de composição e da gravação de seu primeiro álbum. Foi produzido pela Lamparina Filmes.[59][60]
  • Universos (2017, curta-metragem): O enredo do filme é baseado em seu primeiro álbum e reflete questões cotidianas da cidade de São Paulo. Foi produzido pela CXL Produções, dirigido por Henrique Antonio e protagonizado por Jorge Guerreiro e Viviane Santos.[61]

Notas

  1. Na norma culta da língua portuguesa, o termo correto é "imortal". O neologismo se trata de um trocadilho linguístico de Di Melo para retratar o fato de ter sobrevivido ao acidente. "Podível" e "impodível" são outros exemplos de palavras também criadas por ele.[1]

Referências

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BibliografiaEditar

Ligações externasEditar

 
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