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Macúria
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século Vséculo XV/XVI 
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Segundo o Livro do Conhecimento
Segundo o Livro do Conhecimento
The Kingdom of Makuria at its peak-pt.svg
Macúria em seu zênite sob o rei Zacarias IV
Região África
Capitais
Países atuais

Línguas oficiais
Religião
Moeda

Forma de governo Monarquia
Rei
• fl. 651-652  Calidurute (primeiro conhecido)
• fl. 1463-1484  Joel (último conhecido)

Período histórico Antiguidade Tardia
Idade Média
• século V  Estabelecimento
• 1365  Fuga da corte para Gebel Ada
• século XV/XVI  Extinção

Macúria[1] (em núbio antigo: ⲇⲱⲧⲁⲩⲟ; transl.: Dotawo; em grego: Μακογρια, Makouria; em árabe: مقرة, al-Muqurra) foi um reino núbio localizado no norte do Sudão e sul do Egito. Originalmente cobriu a área junto ao rio Nilo da terceira catarata em algum lugar ao sul Abu Hamade, bem como partes do norte do Cordofão. Sua capital foi Dongola (em núbio antigo: Tungul) e às vezes o reino é conhecido pelo nome de sua capital.

Pelo fim do século VI, se converteu ao cristianismo, mas no século VII, o Egito foi conquistado pelos exércitos islâmicos. Em 651, um exército árabe invadiu Macúria, mas foi repelido e um tratado, conhecido como Bacte, foi assinado criando uma paz relativa que durou até o século XIII. Macúria se expandiu ao anexar seu vizinho setentrional Nobácia, processo iniciado em algum momento após a conquista sassânida do Egito e concluído no reinado do rei Mercúrio. Também manteve estreitos laços dinásticos com Alódia ao sul.

Entre os séculos IX e XI, vivenciou o zênite de seu desenvolvimento cultural: novos edifícios monumentais foram erguidos, a arte de pinturas murais e cerâmica ricamente manufaturada e decorada floresceu e o núbio se tornou língua escrita prevalente. Contudo, crescentes agressões vindas do Egito, disputas intestinas, incursões beduínas e possivelmente a praga e a mudança de rotas comerciais causo o declínio do Estado nos séculos XIII e XIV. Devido a guerra civil de 1365, que perdeu muito de seus territórios do sul, inclusive Dongola. Já não existia mais nos anos 1560, quando o Império Otomano ocupou a Baixa Núbia. Ela foi subsequentemente islamizada, enquanto os núbios vivendo rio acima de Adaba e no Cordofão foram arabizados.

Índice

FontesEditar

Macúria é muito melhor conhecido do que Alódia, mas ainda há lacunas. As fontes mais relevantes à história da área são viajantes e historiadores árabes que foram à Núbia. Os relatos são geralmente problemáticos, pois muitos estavam enviesados contra os cristãos e suas obras geralmente focam apenas nos conflitos militares entre Egito e Núbia.[2] Uma exceção é ibne Selim de Assuã, um diplomata egípcio que foi a Dongola quando Macúria estava no ápice de seu poder no século X e deixou um relato detalhado.[3]

Os núbios eram uma sociedade letrada, e grande número de escritos sobreviveram. Esses documentos foram escritos em núbio antigo numa variedade uncial do alfabeto grego com alguns símbolos coptas e alguns símbolos meroíticos. Escritos numa linguagem muito ligada ao moderno nobiin, esses documentos foram decifrados há muito tempo. A vasta maioria das obras liga com religião ou registros legais, mas na coleção de Forte Ibrim, há alguns valiosos registros governamentais.[4]

A construção da represa de Assuã em 1964 ameaçou inundar a metade norte de Macúria. Em 1960, a UNESCO lançou um grande esforço para fazer quanto trabalho arqueológico fosse possível antes da inundação e milhares de especialistas de várias partes do mundo foram chamados. Alguns dos sítios macúrios mais relevantes estudados foram a cidade de Faras e sua basílica, escavada por um time da Polônia; Forte Ibrim, escavada pelos britânicos; e Debeira Ocidental, estudada pela Universidade de Gana, que produziu importante informação sobre a vida cotidiana da Núbia medieval. Todos os sítios estão no que era a Nobácia; o único grande sítio arqueológico em Macúria é a parcialmente explorada Dongola.[5]

HistóriaEditar

Período inicial século V-VIIIEditar

 
Sepultamento pós-meroítico de um túmulo perto da quarta catarata do Nilo

A primeira metade do século IV viu o colapso gradual do Reino de Cuxe. Napata, situada perto da quarta catarata e antes um dos locais políticos e sagrados mais relevantes de Cuxe, continuou em uso. Nos séculos IV e V, serviu como centro para uma nova elite religiosa, sepultada num grande túmulo como aqueles em Zama ou Tancaci. As transformações sociais ocorreram,[6] resultando na absorvição dos cuxitas pelos núbios e a ascensão da língua núbia[7] em favor da meroítica.[8] Assim, uma nova sociedade e Estado macúrio emergiu.[9] No fim do século V, o ainda desenvolvente reino moveu seu centro de poder de Napata para o sul, onde a fortaleza de Dongola, a nova sede da corte real, foi fundada,[10] e que logo se desenvolveu num vasto distrito urbano.[11] Muitas fortalezas foram construídas junto as margens do Nilo, provavelmente não servindo um propósito militar, mas para promover a urbanização.[10]

Já à época da fundação de Dongola, contatos foram nutridos com o Império Bizantino.[12] Nos anos 530, o imperador Justiniano (r. 527–565) encabeçou uma política de expansão. Os núbios eram parte do plano para ter aliados contra o Império Sassânida da Pérsia ao convertê-los à religião cristã. A corte imperial estava dividida em dois grupo, que acreditavam em duas naturezas diferentes de Cristo: Justiniano pertencia aos calcedônios, a denominação oficial do império, enquanto sua esposa Teodora aos miafisistas, que eram fortes no Egito. João do Éfeso descreveu duas missões rivais despachadas à Núbia e a miafisista chegou antes e converteu o Reino de Nobácia, ao norte, em 543. O rei nobácio não permitiu que a missão de Justiniano viajasse mais ao sul,[13] mas o registro arqueológico sugere que Macúria se converteu ainda na primeira metade do século VI.[14] O cronista João de Biclar registrou que em cerca de 568, Macúria tinha "recebido a fé de Cristo". Em 573, uma delegação macúria chegou em Constantinopla, oferecendo marfim e uma girafa e declarando suas boas relações com os bizantinos. Diferente de Nobácia ao norte (com a qual Macúria pareceu ter tido inimizade)[15] e o Alódia no sul, Macúria abraçou a fé calcedônia.[16] A arquitetura eclesiástica precoce em Dongola confirma a íntima relação mantida com o império,[15] com o comércio florescendo.[17]

Em algum ponto no século VII, Macúria absorveu a Nobácia. Embora existam várias teorias contraditórias,[a] parece provável que isso tenha ocorrido logo após a ocupação sassânida do Egito,[18] presumivelmente durante a década de 620,[19] mas antes de 642.[20] Antes da invasão sassânida, Nobácia costumava ter fortes laços com o Egito[19] e, assim, foi duramente atingido por sua queda.[21] Talvez também tenha sido invadida pelos próprios sassânidas: algumas igrejas locais daquele período mostram traços de destruição e subsequente reconstrução.[22] Assim enfraquecida, Nobácia caiu perante Macúria, estendendo Macúria até Filas perto da primeira catarata.[23] Um novo bispado foi fundado em Faras cerca de 630[b] e catedrais foram estilizadas em Faras e Forte Ibrim em homenagem à Basílica de Dongola.[19] Não se sabe o que aconteceu com a família real nobácia depois da unificação,[24] mas está registrado que Nobácia permaneceu uma entidade separada dentro do reino unificado governado por um eparca.[25]

Entre 639 e 641, árabes muçulmanos invadiram o Egito bizantino. Um pedido bizantino de ajuda ficou sem resposta dos núbios devido a conflitos com os bejas. Em 641/642, os árabes enviaram a primeira invasão à Macúria.[26] Apesar de não ser claro até que ponto o sul penetrou,[c] acabou sendo derrotado. Uma segunda invasão liderada por Abdalá Abi Sar ocorreu em 651/652, quando os atacantes chegaram até Dongola,[27] que foi sitiada e bombardeada por catapultas. Ainda que danificaram partes da cidade, não podiam penetrar nas muralhas da cidadela.[28] Fontes muçulmanas destacam a habilidade dos arqueiros núbios em repelir a invasão.[29]

 
Arqueiro núbio segundo manuscrito português do século XVI
 
Reconstrução em 3D da Igreja Cruciforme de Dongola

Com ambos os lados sendo incapazes de decidir a batalha a seu favor, Abu Sar e o rei Calidurute posteriormente se encontraram e elaboraram um tratado chamado Bacte.[30] Inicialmente, era um cessar-fogo que também continha uma troca anual de bens (escravos macúrios pelo trigo egípcio, têxteis, etc.),[31] uma troca típica dos Estados do nordeste da África e talvez uma continuação dos termos já existentes entre os núbios e bizantinos.[32] Provavelmente, em tempos omíadas, o tratado foi ampliado, regulando a segurança dos núbios no Egito e dos muçulmanos em Macúria.[33] Enquanto alguns estudiosos modernos vêem o Bacte como submissão de Macúria aos muçulmanos, é claro que não era: os bens trocados eram de igual valor e Macúria era reconhecido como qualquer coisa além de um Estado independente,[34] sendo um dos poucos a derrotar os árabes na primeira expansão islâmica.[35] O Bacte permaneceria em uso por mais de seis séculos,[36] não obstante às vezes interceptado por invasões mútuas.[37]

O século VIII foi um período de consolidação. Sob Mercúrio, que viveu no final do século VII e início do VIII e a quem o relato copta de João, o Diácono se refere como “novo Constantino”, o Estado parece ter sido reorganizado e o cristianismo miafisita se tornou o credo oficial.[38] Ele provavelmente também fundou o monumental mosteiro de Gazali (cerca de 5 000 metros quadrados) em Uádi Abu Dom. [39] Zacarias, filho e sucessor de Mercúrio, renunciou à sua reivindicação ao trono e entrou num mosteiro, mas manteve seu direito de proclamar um sucessor. Houve três reis diferentes[40] e vários ataques muçulmanos[37] até antes de 747, quando o trono foi tomado por Ciríaco. Naquele ano, afirma João, o Diácono, o governador omíada do Egito aprisionou o patriarca copta, resultando numa invasão por Macúria e cerco de Fostate, a capital egípcia, após o qual o patriarca foi libertado.[41] O episódio tem sido referido como "propaganda egípcia cristã",[42] embora ainda seja provável que o Alto Egito estivesse sujeito a uma campanha macúria,[41] talvez uma invasão.[43] Três anos depois, em 750, os filhos de Maruane II, o último califa omíada, fugiram à Núbia e pediram asilo a Ciríaco,[44] posto que sem sucesso. Por volta de 760, a Macúria provavelmente foi visitado pelo viajante chinês Du Huã.[45]

Zênite (século IX-XI)Editar

O reino estava no auge entre os séculos IX e XI.[46] Durante o reinado de João no início do século IX, as relações com o Egito foram cortadas e o Bacte deixou de ser pago. Com a morte de João, em 835, um emissário abássida chegou, exigindo o pagamento macúrio dos 14 pagamentos anuais que faltavam e ameaçando com a guerra se as exigências não fossem atendidas.[47] Assim, confrontado com uma demanda de mais de 5 000 escravos,[37] Zacarias III "Augusto", o novo rei, teve seu filho Jorge I coroado rei, provavelmente para aumentar seu prestígio, e enviou-o ao califa em Bagdá para negociar.[d] Sua viagem causou muita atenção e poucos meses depois que chegou a Bagdá, Jorge, que era descrito como educado e bem-educado, conseguiu convencer o califa de remeter as dívidas núbias e reduzir os pagamentos do Bacte a uma cadência de três anos.[48] Em 836[49] ou no início de 837,[50] havia retornado à Núbia. Depois que retornou, uma nova igreja foi construída em Dongola, a Igreja Cruciforme, que tinha uma altura aproximada de 28 metros e se tornou o maior edifício de todo o reino.[51] Um novo palácio, o chamado Salão do Trono de Dongola, também foi construído,[52] mostrando fortes influências bizantinas.[53]

Em 831, uma campanha punitiva do califa abássida Almotácime derrotou os bejas a leste da Núbia. Como resultado, tiveram que se submeter ao califa, expandindo assim a autoridade nominal muçulmana sobre grande parte do Deserto Oriental do Sudão.[54] Em 834, Almotácime ordenou que os beduínos árabes egípcios, que estavam declinando como força militar desde a ascensão dos abássidas, não recebessem mais pagamentos. Descontentes e despossuídos, foram para o sul. A estrada à Núbia foi, no entanto, bloqueada por Macúria: enquanto existiam comunidades de colonos árabes na Baixa Núbia, a grande massa dos nômades árabes foi forçada a estabelecer-se entre os bejas,[55] impulsionada também pela motivação de explorar o ouro das minas locais.[56] Em meados do século IX, o aventureiro árabe Alumari contratou um exército particular e estabeleceu-se em uma mina perto de Abu Hamade, no leste de Macúria. Depois de um confronto entre as duas partes, Alumari ocupou territórios macúrios ao longo do Nilo.[57] O rei Jorge I enviou uma força de elite[58] comandada por seu genro, Niuti,[59] mas não conseguiu derrotar os árabes e se rebelou contra a coroa. Jorge então enviou seu filho mais velho, presumivelmente o posterior Jorge II, mas foi abandonado por seu exército e foi forçado a fugir para Alódia. O rei então enviou outro filho, Zacarias, que trabalhou junto com Alumari para matar Niuti antes de derrotar Alumari e empurrá-lo para o deserto.[58] Posteriormente Alumari tentou estabelecer-se na Baixa Núbia, mas logo foi expulso novamente antes de ser finalmente assassinado durante o reinado do emir tulúnida Amade ibne Tulune (r. 868–884).[60]

NotasEditar

[a] ^ Teoria I coloca esse evento no momento da invasão sassânida, a teoria II na época entre a primeira e a segunda invasão árabe, ou seja, 642 e 652, e a terceira na virada do século VII.[61]
[b] ^ Também tem sido argumentado que o bispado não foi fundado, mas meramente restabelecido.[62]
[c] ^ Recentemente tem sido sugerido que os árabes lutaram contra os núbios não na Núbia, mas no Alto Egito, que permaneceu uma zona de batalha disputada por ambas as partes até a conquista árabe de Assuã em 652.[63]
[d] ^ Zacarias, presumivelmente já bastante poderosa durante a vida de João, era o marido de uma irmã de João. A sucessão matrilinear núbia exigia que apenas o filho da irmã do rei pudesse ser o próximo rei, tornando Zacarias um rei ilegítimo em contraste com seu filho Jorge.[64]

Referências

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  2. Shinnie 1965, p. 266.
  3. Adams 1977, p. 257.
  4. Bowersock 2000, p. 614.
  5. Godlewski 1991, p. 253-256.
  6. Godlewski 2014, p. 161–162.
  7. Werner 2013, p. 39.
  8. Edwards 2004, p. 182.
  9. Godlewski 2014, p. 161.
  10. a b Godlewski 2013b, p. 17.
  11. Godlewski 2014, p. 10.
  12. Werner 2013, p. 43.
  13. Welsby 2002, p. 31-33.
  14. Werner 2013, p. 58.
  15. a b Welsby 2002, p. 33.
  16. Werner 2013, p. 58, 62-65.
  17. Wyzgol 2018, p. 785.
  18. Werner 2013, p. 73-77.
  19. a b c Godlewski 2013b, p. 90.
  20. Werner 2013, p. 77.
  21. Godlewski 2013b, p. 85.
  22. Werner 2013, p. 76, nota 84.
  23. Godlewski 2013c, p. 90.
  24. Welsby 2002, p. 88.
  25. Werner 2013, p. 254.
  26. Welsby 2002, p. 48-49.
  27. Werner 2013, p. 66-67.
  28. Godlewski 2013, p. 91.
  29. Welsby 2002, p. 69.
  30. Werner 2013, p. 68.
  31. Werner 2013, p. 70-72.
  32. Ruffini 2012, p. 7-8.
  33. Werner 2013, p. 73, 71.
  34. Ruffini 2012, p. 7.
  35. Welsby 2002, p. 68.
  36. Werner 2013, p. 70.
  37. a b c Welsby 2002, p. 73.
  38. Werner 2013, p. 82.
  39. Obłuski 2019, p. 310.
  40. Werner 2013, p. 83.
  41. a b Werner 2013, p. 84.
  42. Adams 1977, p. 454.
  43. Hasan 1967, p. 29.
  44. Werner 2013, p. 86, nota 37.
  45. Smidt 2005, p. 128.
  46. Godlewski 2002, p. 75.
  47. Werner 2013, p. 88.
  48. Werner 2013, p. 89–91.
  49. Godlewski 2013a, p. 11.
  50. Werner 2013, p. 91.
  51. Godlewski 2013b, p. 11.
  52. Obłuski 2013, Tabela 1.
  53. Godlewski 2013b, p. 12.
  54. Adams 1977, p. 553-554.
  55. Adams 1977, p. 552-553.
  56. Godlewski 2002, p. 84.
  57. Werner 2013, p. 94-95, nota 50.
  58. a b Godlewski 2002, p. 85.
  59. Werner 2013, p. 95.
  60. Werner 2013, p. 96.
  61. Werner 2013, p. 73-74.
  62. Werner 2013, p. 77-78.
  63. Bruning 2018, p. 94–96.
  64. Godlewski 2002, p. 76–77.

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