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Não-ser[nota 1] é um dos maiores problemas da filosofia. Todas as categorias humanas, toda linguagem humana está voltada para o ser, e por isso chegamos a problemas quando tentamos compreender ou falar do não-ser.

O que é o não-ser? Aparentemente não há como responder à pergunta, pois a mesma parece não ter sentido. "Não-ser" é sinônimo de "o que não é", assim como ser, no sentido de ente, é sinônimo de "o que é". Assim, a pergunta pode ser entendida como "O que é o que não é?" Parece que não podemos tratar diretamente do não-ser, pois não podemos dizer que ele é coisa alguma, nem que ele é o não-ser.

Apesar desses problemas, o silêncio sobre o não-ser não é uma boa opção, pois tratamos do não-ser costumeiramente, e nos entendemos quando fazemos isso. Quando lemos em um quadro "Isto não é um cachimbo" recebemos uma mensagem significativa.

Esse problema foi inicialmente levantado por Parmênides em seu poema sobre o ser e não-ser.[1] Uma solução para o problema do não-ser foi apresentada por Platão. Para ele, nosso discurso sobre o não-ser não é o discurso sobre o nada, sobre o que não é, mas sim o discurso sobre a alteridade. Dizer "A não é B" não é dizer que A não é nada, mas sim dizer que A é uma outra coisa, um outro ser. Em uma descrição de sua Teoria das Formas no diálogo Timeu, Platão dá o nome de khôra a um "receptáculo" sem ser ou forma que poderia receber todas as Formas, copiadas do mundo inteligível e participantes nas manifestações transitórias do mundo sensível.[2]

Esse milenar problema repercute em outros domínios filosóficos, em particular, quando tratamos da referência a objetos inexistentes — algo que inquietou filósofos pelo menos desde Platão, passando por Bertrand Russell, Alexius Meinong e, mais recentemente, Terence Parsons. Consideremos, por exemplo, uma frase como a seguinte:

  1. "O Saci-Pererê é risonho."
    em que "Saci-Pererê" supostamente refere a um inexistente; ou uma frase como a seguinte:
  2. "Unicórnios são brancos."
    em que "unicórnios" tem como extensão um conjunto supostamente vazio. Uma questão a respeito de ambas é saber como é possível que algo que não existe tenha propriedades. Contudo, talvez a questão mais intrigante a respeito de expressões como "Saci-Pererê" e "unicórnios" é saber como é possível que ocorram em frases, pelo menos aparentemente, verdadeiras, por exemplo, quando negamos que o que elas supostamente representam não existe, por exemplo, quando afirmamos que
  3. "Unicórnios não existem."
    Somos, então, levados a perguntar pelo estatuto ontológico dos supostos inexistentes: objetos inexistentes são, em algum sentido?

Referências

  1. ALMEIDA, Nazareno. A Oposição entre Heráclito e Parmênides e sua "Resolução" em Empédocles, Anaxágoras e Demócrito: suas tentativas de resolução e como ela é fundamental para compreender o pensamento de Platão e Aristóteles.
  2. «Plato, Timaeus, section 51a». www.perseus.tufts.edu. Consultado em 16 de outubro de 2019 

Notas

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