Projeto de Lúcio Costa para o Plano Piloto de Brasília

Disambig grey.svg Nota: Este artigo é sobre o projeto submetido no Concurso Nacional do Plano Piloto. Para o projeto que foi executado, veja Plano Piloto de Brasília.

O Projeto de Lúcio Costa para o Plano Piloto de Brasília foi o projeto 22 do Concurso Nacional do Plano Piloto da Nova Capital do Brasil, tendo vencido o mesmo e sido executado, se tornando o Plano Piloto de Brasília. O arquiteto e urbanista Lúcio Costa foi o autor do projeto, que ainda era apenas um anteprojeto e um relatório mínimo quando foi entregue.

O projeto 22, de Lúcio Costa, foi o vencedor do Concurso Nacional do Plano Piloto da Nova Capital do Brasil.

A proposta de Lúcio, com dois eixos formando as zonas residencial e institucional, tinha fortes aspectos relacionados a arquitetura moderna, e sua execução tornaram Brasília uma das principais representantes do urbanismo moderno no mundo.[1][2][3]

AntecedentesEditar

A transferência da capital federal do Rio de Janeiro para uma nova cidade no Planalto Central havia se tornado a meta-síntese do governo do presidente Juscelino Kubitschek. Tendo vencido as resistências políticas e as burocracias, o presidente pediu a Oscar Niemeyer, seu arquiteto de confiança, que projetasse a nova capital. Entretanto, Niemeyer não quis fazer o projeto urbanístico, ficando apenas com os edifícios. Para projetar a cidade, ele sugere a criação de um concurso nacional com a participação do Instituto de Arquitetos do Brasil, o que é aceito por Juscelino.[3]

Assim, em 1956 foi criada a Comissão de Planejamento da Construção e da Mudança da Nova Capital Federal, que anunciou o Concurso Nacional do Plano Piloto da Nova Capital do Brasil, com o edital da Companhia Urbanizadora da Nova Capital (Novacap) estabelecendo as regras que incluíam, por exemplo, que a cidade fosse projetada para 500 mil habitantes e a localização da área de cinco mil quilômetros quadrados. Apesar de ser associado devido ao formato final de seu projeto, o termo Plano Piloto não foi criação de Lúcio Costa: o termo foi citado por Le Corbusier numa carta ao Marechal José Pessoa sobre um possível projeto para a capital brasileira em 1955. Ele passa a ser oficial a partir desse edital.[3]

62 concorrentes participaram do concurso, com 26 propostas apresentadas. Em um telegrama, a Novacap marcou a entrega dos projetos para as 18 horas. Lúcio Costa foi o último a entregar o projeto, perto das 23 horas, após ter, por muito tempo, se recusado a participar ou se juntar a equipes. Ele concorreu sozinho, com a sua proposta recebendo o número 22.[2][3]

PropostaEditar

Nasceu do gesto primário de quem assinala um lugar ou dele toma posse: dois eixos cruzando-se em ângulo reto, ou seja, o próprio sinal da cruz.

—O formato dos eixos, explicado por Lúcio Costa no relatório justificativo entregue ao concurso.[4]

A proposta 22 continha um único plano piloto desenhado à mão e um relatório justificativo de 24 páginas, pouco perto de outros que tinha mais de duzentas páginas, mas o suficiente para ser aceito pela comissão do concurso. O documento começa com um pedido de desculpas de Lúcio "pela apresentação sumária", apresentava 22 pontos de soluções urbanísticas, além de esboços de vias urbanas (das tradicionais tesourinhas) e do cruzamento dos eixos rodoviários, apresentados como propostas de solução para o trânsito, esboço para os setores de comércio, diversões, setor residencial o eixo ministerial e até a torre de TV[5].

A capacidade de persuasão do projeto de Lúcio Costa e seu relatório justificativo foram fundamentais para a vitória, com a retórica chamando a atenção do júri ao colar os valores éticos, estéticos e históricos da criação da nova capital a nova arquitetura vigente e a sua proposta. Segundo o historiador Elias Manoel da Silva, o projeto "tinha como preocupação vender uma 'ideia de cidade' em folhas de A4" em contraste com o farto material dos concorrentes.[6][2]

 
A W3 Sul. Grandes eixos rodoviários foram planejados para ligar as partes da cidade na proposta de Lúcio Costa.

Apesar da crença popular que a cidade tenha sido inspirada em um avião, uma borboleta ou uma libélula, a organização dos dois eixos principais foi pensada para formar uma cruz - um deles, porém, entortado se adaptar a região e ao relevo, formando o desenho que foi executado, conforme explicado na diretriz nº1 do relatório.[7] Nesse eixo entortado, que ele chama de Eixo Rodoviário, se concentraria a região residencial, ligada por estradas de alta velocidade e outras para o tráfego local. No eixo reto, chamado de Eixo Monumental, ficariam os setores do governo, com destaque formal a uma praça triângular em uma das pontas, destinadas aos edifícios dos três poderes supremos - o Palácio do Congresso, no vértice, e o Palácio do Supremo Tribunal Federal e o Palácio do Planalto na base do triângulo - que ele chamou de Praça dos Três Poderes.

Como em outras propostas, a tendência da arquitetura moderna de setorizar e separar parte da cidade para atividades específicas - comercio, serviços, lazer, institucional - também se faz presente na proposta e foi executada. As diretrizes do relatório explica como cada setor vai funcionar. A de número 16, por exemplo, explica o funcionamento do setor residencial, onde ficam descritas as "super-quadras" e a de número 21, a sua numeração em código, dividida em norte e sul em relação ao eixo monumental.[8]

As principais preocupações de Lúcio em sua proposta era as habitações e a monumentalidade.[6] O plano previa a conclusão da execução do Plano Piloto em dez anos, e um limite para o tamanho da cidade, que após vinte anos, deveria ser através das penínsulas e nas cidades-satélites.[8]

O resultado do concursoEditar

 
Setores comercial e de diversões, com a Rodoviária do Plano Piloto. A setorização, típica do modernismo, fazia parte da proposta de Lúcio e da maioria dos concorrentes.

Em 16 de março de 1957, a banca da Comissão de Planejamento da Construção e da Mudança da Nova Capital Federal anunciou a vitória de Lúcio Costa, com outras seis equipes dividindo o segundo e o terceiro lugar. No dia 25 do mesmo mês, o resultado foi oficializado no Diário Oficial da União.

O júri se dividiu entre o presidente do Instituto de Arquitetos do Brasil, Paulo Antunes Ribeiro, e os membros estrangeiros, William Holford e André Sive, que eram amigos de Niemeyer. Após alguns dias de discussão, uma pré-seleção foi feita sem Paulo, o que leva ele a não assinar o relatório final e se retirar, dando um voto em separado.[9] O júri então decide pelo projeto de Lúcio Costa, e um dos membros chegou a dizer que “a obra de Lúcio Costa é a maior contribuição urbanística do século XX”. A composição do júri claramente dava vantagem aos arquitetos do modernismo, e Lúcio Costa foi, pessoalmente, um dos responsáveis pela difusão do estilo no Brasil.[6][10]

Ernesto Silva[11]justifica que o projeto do plano piloto de Lúcio Costa atendeu a todos os requisitos do concurso previstos no edital, como o "traçado básico da cidade" e um "relatório justificativo" e que o relatório de Costa contemplou esses itens "como convém às grandes obras e às grandes idéias."

Críticas ao resultadoEditar

O resultado foi criticado por vários fatores, desde a rapidez na escolha dos finalistas e no processo de seleção até o fato de que a proposta vencedora tinha bem menos conteúdo físico que outras - apenas um anteprojeto e um relatório justificativo mínimo.

Além do presidente do IAB, outro membro do júri, Marcos Konder, se recusou a participar, considerando os prazos curtos demais e o edital com uma regulamentação irregular.[12] Outros, participantes ou não do concurso, também criticaram o resultado. Carmen Portinho, por exemplo, disse que o concurso era "um jogo de cartas marcadas".[13][14][2]

ExecuçãoEditar

 Ver artigo principal: Plano Piloto de Brasília
 
O projeto de Lúcio Costa foi executado e Brasília foi inaugurada em 1960.

As primeiras obras do Plano Piloto de Lúcio Costa começaram em 1956. Alguns prédios, como o Palácio da Alvorada, já estavam sendo construídos antes mesmo da definição do projeto urbano. Apesar do plano principal ter sido aplicado, muitas coisas acabaram saindo o planejamento original, como a previsão de não ocupação do entorno do Lago Paranoá, que, segundo o relatório, deveria ser "tratada com bosques e campos de feição naturalista e rústica para os passeios e amenidades bucólicas de toda a população urbana". As áreas acabaram ocupadas e deram origem aos bairros Lago Norte e Lago Sul.[15][16]

Na divisão da cidade, a parte planejada faz parte da região administrativa do Plano Piloto. Enquanto a qualidade de vida no Plano Piloto é relativamente alta, o seu entorno não segue esse padrão, e a capital brasileira possui grandes desigualdades. A população da cidade, prevista em 500 mil no ano 2000 pelo edital e pelo projeto de Lúcio Costa, foi muito superada, e cidades-satélite cresceram com pouco ou nenhum controle no entorno do Plano Piloto.[17]

LegadoEditar

Lúcio Costa é considerado o "criador de Brasília", tendo sido esta a obra mais famosa do arquiteto e urbanista. A cidade é considerada uma das grandes obras de arquitetura moderna e do século XX,[18][19] tendo sido declarada Patrimônio Mundial pela UNESCO em 1987.[20]

Em 1992, em seu 90º aniversário, um museu projetado por Oscar Niemeyer foi construído na Praça dos Três Poderes com registros do projeto de Lúcio Costa, como cópias do relatório e do projeto e imagens da execução. Neste museu, chamado Espaço Lúcio Costa, os visitantes também podem ver uma maquete da cidade.[21]

Ver tambémEditar

ReferênciasEditar

  1. FERNANDES, LUIZ GUSTAVO SOBRAL. Diversidade de uma cultura urbanística nacional. Risco: Revista de Pesquisa em Arquitetura e Urbanismo (on line), v. 1, p. 139-141, 2016.
  2. a b c d Alencar Arrais, Cristiano. «arquitextos 098.07: Retórica e persuasão no concurso para o Plano Piloto de Brasília». vitruvius. Consultado em 22 de julho de 2020 
  3. a b c d Tavares, Jeferson (julho de 2007). «50 anos do concurso para Brasília – um breve histórico (1)». vitruvius. Consultado em 22 de julho de 2020 
  4. G1 https://g1.globo.com/df/distrito-federal/noticia/2019/06/04/aviao-ou-borboleta-entenda-as-inspiracoes-de-lucio-costa-para-o-projeto-de-brasilia.ghtml. Consultado em 21 de julho de 2020  Em falta ou vazio |título= (ajuda)
  5. Tamanini, L. Fernando (Lourenço Fernando), 1923- (2003). Brasília : memória da construção. v. 2 2 ed. Brasília, DF: Projecto Editorial. p. 191-206. 365 páginas. OCLC 61763212 
  6. a b c «Projeto arquitetônico de Lucio Costa para Brasília completa 60 anos». G1. 18 de março de 2017. Consultado em 22 de julho de 2020 
  7. «Avião ou borboleta? Entenda as inspirações de Lúcio Costa para o projeto de Brasília». G1. 4 de junho de 2019. Consultado em 22 de julho de 2020 
  8. a b «Brasília, 55 anos: conheça os projetos que pensaram a capital do país». EBC. 21 de abril de 2015. Consultado em 21 de julho de 2020 
  9. Couto, Ronaldo Costa. Brasília Kubitschek de Oliveira. Record, 2006. pp. 116-118
  10. Braga, Milton (2010). O Concurso de Brasília. Rio de Janeiro: Cosac e Naify. ISBN 978-8575038963 
  11. Silva, Ernesto. (2006). História de Brasília : um sonho, uma esperança, uma realidade. Brasília: Charbel. p. 155. 394 páginas. OCLC 1013366802 
  12. Campos, Maria Clara Redig de. Ecos do Modernismo: Guanabara e o Plano Doxiadis. IN Oliveira, Lúcia Pippi & Freire, Américo. Novas Memórias do Urbanismo Carioca. Fundação Getúlio Vargas, 2008. pp. 116-117
  13. Couto, pp. 118-119
  14. Couto, Ronaldo Costa. Brasília Kubitschek de Oliveira. Record, 2006. pp. 116-118
  15. A História de BRASÍLIA: Um pouco sobre Lucio Costa Arquivado em 8 de maio de 2009, no Wayback Machine.
  16. «Os primeiros passos da capital». Consultado em 27 de fevereiro de 2009. Arquivado do original em 27 de fevereiro de 2009  SECOM - Secretaria de Comunicação da Universidade de Brasília (UnB)[ligação inativa]
  17. Robert Hughes, The Shock of the New, Episode 4: Trouble in Utopia, (1980)
  18. El-Dahdah, Farès. Brasilia - The Project of Brasilia. IN El-Khoury, Rodolphe & Robbins, Edward. Shaping the city: studies in history, theory and urban design. Routledge, 2004. p. 45
  19. Holston, James. A cidade modernista: uma crítica de Brasília e sua utopia. Companhia das Letras, 1993. p. 37
  20. Clauset, p. 7
  21. «Espaço Lúcio Costa». Cadastro Nacional de Museus. Consultado em 27 de julho de 2020 
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