Gênero não-binário

conjunto de identidades de gênero que não são exclusivamente masculinas ou femininas
(Redirecionado de Não binaridade)
contém cores roxa, branca, amarela e preta
Bandeira da visibilidade não-binária

Não-binariedade[nota 1][1] ou identidade não-binária é um "termo guarda-chuva" (que abarca várias identidades diferentes dentro de si) para identidades de gênero que não são masculinas ou femininas, estando portanto fora do binário de gênero e da cisnormatividade.[2][3][4][5] Academicamente, a não-binariedade pode ser frequentemente agrupada à inconformidade de gênero.[6] Pessoas não-binárias podem classificar a sua identidade de gênero de várias maneiras, entre as quais:

Diferença entre identidade de gênero, expressão de gênero e sexo biológicoEditar

 Ver artigo principal: Diferença entre sexo e gênero

Ao contrário do que se possa pensar, a identidade de gênero não-binária não tem qualquer correlação com alguém ser, ou não, intersexo.[17]

O sexo biológico refere-se às características sexuais, e é tipicamente identificado à nascença por médicos com base nos genitais independentemente da identidade de gênero que o bebê possa vir a ter. O sexo é classificado como masculino, feminino, intersexo ou altersexo.[18] Embora existam classificações mais atuais, que tentam se desvencilhar das terminologias tradicionais, levando em conta Ductos de Müller e de Wolff, pessoas ovarianas, espermatogênicas, oogénicas, estrogênicas, vulvarianas, testiculares, ovotesticulares (ou am/bigonadais), microgaméticas e megagaméticas (ou macrogaméticas), que podem, ou não, ser intersexo.[19][20]

A identidade de gênero é uma questão de autopercepção e não se prende com fatores externos. Uma pessoa pode ser cis ou transgênero. Sendo trans, pode identificar-se dentro do gênero binário (homenidade ou mulheridade) ou possuir uma identidade não-binária.[21][22]

Expressão de gênero resulta de uma combinação entre comportamento social e maneirismos, com aparência (penteado, roupas…) interior ou exterior, e é geralmente encarada como feminina ou masculina. Considera-se que quem não exibe um alinhamento entre o que se considera feminino ou masculino é andrógino ou não-conforme de gênero.[23]

TerminologiasEditar

Algumas pessoas não-binárias preferem utilizar pronomes neutros ou epicenos, em inglês são conhecidos a versão singular de "they/their/them", "one", neopronomes como "ze/hir" ou "ey", equivalentes a elu[24], éle[25] e ile/e propostos,[26][27][28] neolinguisticamente, em nosso idioma,[29] enquanto há quem prefira os pronomes pessoais convencionais "ela" ou "ele", vistos que podem ser usados seguindo concordância léxica. Muitos simpatizantes costumam usar terminações em "@" ou "x" (como el@s ou elxs), mas elas podem atrapalhar leitores de tela e outros tipos de software de acessibilidade.[30] Há ainda pessoas não-binárias que preferem que sejam referidas por pronomes alternados, variando por exemplo entre "ele" e "ela",[31] outras preferem não usar nenhum pronome.[32] Muitas pessoas não binárias podem preferir o uso de uma linguagem neutra adicional para tratamento, tal como os títulos em inglês "Mx." ou "Mt." em vez de "Mr." ou "Ms." (e Mrs.), equivalentes a senhoria, "sre." e "srte." (senhore/senhorite), versões neutras advindas de "sr(a)." e "srt(a)." (ou v/s.a. de «vossa» senhoria), semelhantes também a dame e done, vindos de dama/damo e dom/dona.[33][34]

BigeneridadeEditar

 Ver artigo principal: Bigênero

Identificação dupla, podendo ela ser estável ou fluída. Alguns indivíduos bigêneros expressam duas identidades de gênero, distintas ou simultâneas.[35]

Gênero fluidoEditar

 Ver artigo principal: Gênero-fluido

O gênero com que a pessoa gênero-fluída se identifica varia através do tempo: às vezes sente-se cis, outras vezes trans binária, outras vezes trans não-binária, noutras identifica-se com vários gêneros, parcialmente, indefinidos ou com nenhum. A velocidade com que o gênero muda varia de pessoa para pessoa, pode ser gradual, súbita, constantes, inconstantes, mensais, anuais ou diárias, podendo ser entre gêneros totalmente opostos. Além disso, gênero fluido não é uma mistura de identidades — é uma identidade própria, e as fluências de gênero não precisam necessariamente abranger todo o espectro de gênero.[36]

Ageneridade e neutralidade de gêneroEditar

 Ver artigos principais: Ageneridade, Neutrois e Neutralidade de gênero

Apesar de tenderem a confundir-se, e de várias pessoas aplicarem a si mesmas ambos os termos, implicam coisas diferentes: o primeiro associa-se à negação de uma identificação, enquanto que o segundo é uma identificação-própria, relativamente aos gêneros binários.

  • Neutrois: identifica-se como sendo gênero neutro. É diferente de não ter gênero. Pode ser estático ou fluído.
  • Agênero: significa "sem gênero" ou gênero nulo, a pessoa não se identifica com nenhum gênero.[37] Não confundir com agênere.

Demigeneridade ou semigeneridadeEditar

Demigênero ou semigênero implica uma conexão parcial em relação a um certo gênero, sendo um termo guarda-chuva que engloba, por exemplo, demiboy (semigaroto, semimenino, semiguri, demiguri, demimoço, semimoço, demihomem, semihomem, demimenino ou demigaroto, alguém que se identifica parcialmente com o gênero masculino) ou demigirl (semigarota, semimoça, demimoça, demimulher, semimulher, semiguria, demiguria, semimenina, demimenina ou demigarota, alguém que se identifica parcialmente com o gênero feminino).[38][39]

Poligeneridade ou pangeneridadeEditar

 Ver artigo principal: Pangênero

Identificação com vários gêneros ou todos os gêneros, dentro de sua cultura, experiência de vida, condição natural ou biopsicossocial e variação de neurotipo (simultaneamente e/ou fluindo, podendo haver um fluxo na intensidade ou não).[40]

HistóriaEditar

A palavra genderqueer tem origem nos anos 1990, e começou por ser chamada "Gender Queer" antes que se tornasse uma única palavra. O significado original era literalmente "queer gender", traduzido para português como "género estranho". Explicações apontam que genderqueer é usada como termo guarda-chuva para pessoas não-cisgêneras, sendo ainda mais abrangente que não-binárie.[41][42]

O uso mais antigo da palavra é atribuído a Riki Anne Wilchins, ativista dos direitos LGBT+, que utilizou o conceito na primavera de 1995 na newsletter In Your Face.

Genderqueer foi uma das 56 opções de identidade de gênero adicionadas ao Facebook em Fevereiro de 2014.[43]

Em agosto de 1999, Monica Helms cria a bandeira do orgulho transgênero, nela ela inclui pessoas de gênero neutro ou indefinido, através da listra branca, representando também intersexuais e aqueles que estão transicionando.[44]

Muitas culturas e grupos étnicos adotaram conceitos de papéis tradicionais de gênero-variante, como os cinco gêneros na sociedade Bugis,[45][46] por volta do século XVIII. Hijra e dois-espíritos, por exemplo. Estas identidades eram comumente análogas a não-binariedade, como se não se classificassem na ideia ocidental de papéis binários de gênero.[47]

Na tradição judaica, há identidades como androgynos (em hebraico: אנדרוגינוס , "andrógino") e tumtum (em hebraico: טומטום , "escondido"), que respectivamente, representam pessoas que naturalmente possuam ambas as características femininas e masculinas, ou a ausência delas.[48][49][50]

BandeiraEditar

 
A bandeira genderqueer.
 Ver artigo principal: Simbologia LGBT

Criada por Marilyn Roxie em 2011, a bandeira de orgulho gênero-queer consiste em três riscas horizontais e foi criada para complementar as atuais bandeiras de identidade de gênero e orientação sexual.[51]

A risca roxa, mistura de azul e rosa (cores tradicionalmente associadas com homens e mulheres, respectivamente), representa a androginia e "queerness" (cuirdade, cuiridade, kuirdade, kuiridade, queeridade ou queerdade, em tradução livre). O branco simboliza agênero, refletindo o uso de branco na bandeira trans para a identidade de gênero neutra, e o verde representa todos cuja identidade está fora do gênero binário.[52]

Em 2013, Roxie clarificou que a semelhança entre as cores desta bandeira e a da Women's Social and Political Union, uma organização de sufrágio baseada no Reino Unido, não era intencional.[53]

Em 2014, Kye Rowan criou a bandeira do orgulho não-binário, com quatro listras nas cores amarelo, branco, roxo e preto-cinza. O amarelo representando gêneros totalmente fora da binariedade, branco, como cor fotológica, pessoas com vários ou todos os gêneros, roxo a multiplicidade e flexibilidade de gêneros, preto indivíduos com nenhum de gênero.[54]

Pessoas notáveisEditar

  • Angel Haze, rapper de origem norte-americana, identifica-se como indivíduo agênero, tendo revelado a sua identidade de gênero publicamente em Fevereiro de 2015. O seu pronome pessoal de escolha é o singular they.[55]
  • Ruby Rose, atriz, modelo e DJ australiana, identifica-se como gênero fluido. O seu pronome pessoal de escolha é "ela".
  • Nico Tortorella, ator e modelo estadunidense, identifica-se como gênero fluido, tendo vindo a público como tal em 2016.
  • Linn da Quebrada, atriz, cantora, compositora, travesti e ativista social brasileira. Ela se define como terrorista de gênero.[56]
  • Lázare Heliodoro, pessoa cantora, compositora e multi-instrumentista, ativista LGBTQIAP+ e proponente da ideia legislativa sobre inclusão não-binária nos documentos oficiais de identificação.[57][58]
  • Matheusa Passareli, pessoa não-binária, estudante e assassinada aos 21 anos no Rio de Janeiro.[59][60]
  • Autumn Burchett, pessoa não-binária transfeminina, jogadora profissional de Magic: The Gathering, primeira a não ser um homem a vencer e ser campeã de um Pro Tour.[61][62]
  • Jonathan Van Ness, pessoa não-binária, cabeleireira e personalidade de TV conhecido por seu papel na série Queer Eye, o seu pronome de escolha é "ele".
  • Sam Smith, pessoa cantora-compositora britânica e não-binária, que venceu quatro Grammy Awards e usa o pronome singular they.[63]
  • Janelle Monáe, pessoa cantora-compositora, bailarina e atriz norte-americana, se revelou não-binária em janeiro de 2020.[64][65]

Discriminação e estado legalEditar

 
Reconhecimento de identidades não binárias no mundo

BrasilEditar

No passaporte brasileiro, há a identificação de sexo em três categorias: "M", "F" e "X". Para conseguir emitir um passaporte com o sexo "X", é preciso selecionar a opção "não especificado" ao solicitar novo passaporte no site da Divisão do Passaporte da Polícia Federal. A lei reconhece a identidade de gênero, sendo possível retificar os registros, como a certidão de nascimento, alterando nome e sexo, sem a precisar de laudos médicos ou procedimentos cirúrgicos, porém as categorias continuam sendo "masculino" e "feminino",[66] havendo propostas legislativas para o reconhecimento do gênero neutro.[67][68][69][70]

Estados UnidosEditar

A maioria dos interrogados no questionário "National Transgender Discrimination Survey" escolheu a opção "Um gênero não listado aqui" (em inglês: Question 3 Gender Not Listed Here, Q3GNLH). Destes, 90% reportaram testemunhar preconceitos anti-trans no local de trabalho e 43% reportaram ter tentado cometer suicídio.[71]

AustráliaEditar

Desde 2003 os cidadãos australianos podem escolher "X" como opção para marcar o seu gênero no passaporte.[72] Em 2014, uma terceira categoria "não especificada" foi denominada pela Suprem Corte.[73][74]

JapãoEditar

No Japão, o "X-gênero" ou gênero-X é um terceiro género e identidade não binária conhecida como Xジェンダー, como alternativa ao "M" de masculino e "F" de feminino.[75]

AlemanhaEditar

Nas certidões de nascimento e noutros registros legais, alemães têm a opção "diverso" como categoria de gênero, após a corte decidir que as designações binárias são discriminatórias e violam as garantias de liberdade individual.[76][77][78]

ÁustriaEditar

Desde 2018, as pessoas intersexo têm o direito de se registrar civilmente como pessoas não-binárias. Decisão baseada na Convenção Européia de Direitos Humanos pelo Tribunal Constitucional da Áustria.[79][80]

Ver tambémEditar

Notas

Referências

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