Movimento Popular de Libertação de Angola

partido político angolano

O Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA) é um partido político Angolano, que governa o país desde sua independência de Portugal em 1975. Foi, inicialmente, um movimento de luta pela independência de Angola, transformando-se num partido político após a Guerra de Independência de 1961-74. Conquistou o poder em 1974/75, durante o processo de descolonização e saiu vencedor da Guerra Civil Angolana de 1975-2002, contra dois movimentos/partidos rivais, a UNITA e a FNLA.

Movimento Popular de Libertação de Angola
(MPLA)
Paz, Trabalho e Liberdade
Líder João Lourenço
Presidente João Lourenço
Fundação 10 de dezembro de 1956 (65 anos)
Sede Av. Ho Chi Minh, nº 34, Luanda, Angola
Ideologia Actualmente:
Social democracia
Socialismo[1]
Socialismo Democrático Anteriormente:
Comunismo
Marxismo-Leninismo.
Religião Secularismo
Anteriormente:
Ateísmo[2]
Publicação ÉME
Membros (2008) 2 700 000[3]
Afiliação internacional Internacional Socialista
Assembleia Nacional de Angola
150 / 220
Espectro político Centro-esquerda a Esquerda [4]
Ala jovem JMPLA
Ala feminina OMA
Cores Vermelho
Página oficial
http://mpla.ao/

HistóriaEditar

Fundação, guerra anti-colonial e descolonizaçãoEditar

O MPLA surgiu em 1956[nota 1] da fusão de vários grupos anticoloniais, incluíndo o Partido da Luta Unida dos Africanos de Angola (PLUA; fundado em 1953) e o Partido Comunista Angolano (PCA; fundado em 1955) — este uma célula de Luanda do Partido Comunista Português, iniciando a sua acção em 1961[nota 2] agrupando destacadas figuras do nacionalismo angolano, entre estudantes no exterior, sobretudo em Portugal. Em 1960 já tinham unido-se ao MPLA o Movimento para a Independência Nacional de Angola (MINA; fundado em 1958), a Frente Democrática de Libertação de Angola (FDLA) e o Movimento para a Independência de Angola (MIA), além de diversos ativistas anticoloniais que fugiam do interior de Angola. Tais grupos unidos formavam correntes distintas dentro do movimento, que lutavam pela predominância, que acabou ficando com a corrente do PCA, liderada por Lúcio Lara.[5]

Um outro movimento, a Frente Nacional de Libertação de Angola (FNLA), havia começado acções de luta pouco antes. Apesar das tentativas, não foi viável o entendimento entre os dois movimentos.[6] Nos anos 1960 constituiu-se um terceiro movimento, a UNITA (União Nacional para a Independência Total de Angola).

O primeiro congresso do partido elegeu a Ilídio Tomé Alves Machado como seu primeiro presidente, permanecendo em funções até ser preso, em 1959. Foi substituído pelo secretário-geral Mário Pinto de Andrade, que exerceu o cargo entre 1959 e 1960.[7]

Em 1959/1960 António Agostinho Neto assume como presidente do partido, tendo como secretário geral Viriato da Cruz.[7] Com a prisão de Neto ainda em 1960, Cruz comanda o partido até 1962, quando Neto retorna e o substituiu. Andrade torna-se novamente secretário-geral do MPLA entre 1962 e 1972.[7]

A partir de 1961 a ala comunista do MPLA, sob supervisão do Governo de Resistência de Angola no Exílio (GRAE), começou a organizar a luta armada contra a dominação colonial de Angola por Portugal, tendo como marco os ataques de 4 e 9 de fevereiro daquele ano à Casa de Reclusão Militar, em Luanda, a Cadeia da 7ª Esquadra da polícia, a sede dos CTT e a Emissora Nacional de Angola, organizados operacionalmente pelo cônego Manuel Joaquim Mendes das Neves.[8] Em 1961, Lúcio Lara torna-se o seu secretário geral e o pivô da actividade organizacional e militar.[nota 3]

Durante o seu combate anti-colonial, o MPLA conheceu várias dissidências importantes e até existenciais, a começar com a saída de Viriato de Cruz já em 1963. A crise mais grave deu-se em 1972, quando o MPLA se dividiu em três "alas" praticamente autónomas — a "Revolta Activa", liderada por Mário de Andrade, e a "Revolta do Leste", liderada por Daniel Chipenda, ambas opostas a Agostinho Neto, e a "Ala Presidencial", fiel a Agostinho Neto. Esta tripla cisão foi superada em 1974, por uma conferência de unificação realizada na Zâmbia, mas levou à expulsão ou saída espontânea de uma série de elementos, e deixou profundas marcas.

Terminada a luta de libertação, na sequência do 25 de Abril em Portugal, os três movimentos, (MPLA, FNLA e UNITA) iniciaram de imediato entre eles uma luta armada pelo poder, com a ajuda dos países que os apoiavam. Proclamaram separadamente a independência do país, sem que tivesse acontecido a pacificação interna. Deste conflito, o MPLA saiu como vencedor imediato.[9]

É frequente, numa leitura etno-linguística e racial da política angolana ligar-se o MPLA à região dos ambundos, chócues e hererós e ao segmento populacional dos mestiços. Esta leitura corresponde a uma realidade inicial que, no entanto, foi superada numa medida considerável, pela inclusão de elementos de outras proveniências étnicas e políticas tanto nos quadros como na base social de apoio.[nota 4]

O MPLA como força dominante da Angola independenteEditar

Em 1977, o MPLA sofreu um sério abalo com uma nova dissidência, liderada por Nito Alves que tentou um golpe de estado contra a direcção do partido. Esta tentativa, oficialmente designada por Fraccionismo, falhou de imediato graças à intervenção de tropas cubanas presentes no país, levando posteriormente a uma purga sangrenta que custou a vida a milhares de pessoas.[10][11]

Sob o impacto destes acontecimentos, o MPLA adoptou durante o seu primeiro congresso, realizado em 1977, a designação "MPLA-PT" (MPLA - Partido do Trabalho) e os seus estatutos passaram a incluir a designação de partido Marxista-Leninista. O entendimento foi, no entanto, que se procuraria pôr em prática o modelo marxista do "socialismo", não o do "comunismo". O MPLA-PT governou Angola em regime de partido único, inspirado nos sistemas então vigentes na Europa do Leste. Quando Angola passou em 1991 para o sistema democrático multipartidário, o MPLA abdicou do Marxismo-Leninismo e passou a ser um partido politicamente constituído próximo da social democracia, pelo seu discurso, mas de fortes tendências socialistas, pela sua prática de manter o mercado angolano protecionista e com alto controle estatal.

Em 1992 Angola viveu as suas primeiras eleições, parlamentares e presidenciais. O MPLA ganhou as primeiras, mas nas últimas o seu candidato, José Eduardo dos Santos, não obteve a maioria absoluta requerida na primeira volta. A UNITA não aceitou estes resultados como correctos e válidos, desencadeando de imediato a Guerra Civil Angolana.[12]

Transformações contemporâneasEditar

Em 2002, como resultado dos acordos de Luena, foram criadas condições para as eleições seguintes, graças aos esforços e entendimento dos angolanos, que culminou no tratado da paz em 4 de abril de 2002 entre os principais intervenientes da guerrilha, o Governo e a UNITA. Desde então foram realizados esforços no sentido de fazer o país seguir o curso normal que deve seguir um país com um sistema democrático, e repor com isto a regularidade.

As eleições realizaram-se, a 5 de setembro de 2008 e decorreram num clima de tranquilidade e paz social, tendo sido consideradas livres e justas e um exemplo para os outros países africanos, entrando numa era de consolidação da sua democracia bem como da liberdade de expressão e manifestação dos seus cidadãos.

Nas eleições legislativas realizadas em 2008, o MPLA ganhou por maioria absoluta com cerca de 82% dos votos enquanto que o seu mais directo oponente, a UNITA não foi além dos 10%. De uma maneira geral, não houve contestação aos resultados destas eleições.[13] Entretanto, nas eleições de 2012 o MPLA desceu cerca de 10%, mantendo embora uma maioria qualificada, e confirmando deste modo José Eduardo dos Santos na Presidência da República.

Em setembro de 2018, João Lourenço tornou-se líder do partido na sequência da decisão de José Eduardo dos Santos de se aposentar.

Menções na cultura popularEditar

O MPLA é mencionado em alguns produtos culturais, como é o caso da canção "O Homem Novo Veio da Mata", de José Afonso, inteiramente dedicada ao movimento de libertação angolano. O MPLA também surge referenciado noutras canções, como "Anarchy in the U.K.", dos Sex Pistols, ou "Morena de Angola", de Chico Buarque. Na primeira, é feita uma comparação entre a Inglaterra do final da década de 1970 com a Guerra Civil Angolana. Na segunda, composta por Chico Buarque para Clara Nunes após uma visita de ambos a Angola, o MPLA é mencionado como uma forma subtil de demonstrar o despertar de uma consciência política na cantora.

O escritor angolano Pepetela, em livros como Mayombe e A geração da utopia, retrata a vida de guerrilheiros do MPLA.[14]

O movimento também é mencionado no jogo Metal Gear Solid V: The Phantom Pain, sendo uma das muitas organizações citadas. Parte do jogo se passa na fronteira entre Angola e Zaire, abordando de forma breve as tensões políticas angolanas.

Resultados eleitoraisEditar

Eleições presidenciaisEditar

Data Candidato 1ª Volta 2ª Volta
CI. Votos % CI. Votos %
1992 José Eduardo dos Santos 1.º 1 953 335
49,57 / 100,00
Não se realizou

Eleições legislativasEditar

Data Líder CI. Votos % +/- Deputados +/- Status
1992 José Eduardo dos Santos 1.º 2 124 126
53,74 / 100,00
129 / 220
Governo
2008 José Eduardo dos Santos 1.º 5 266 216
81,64 / 100,00
 27,90
191 / 220
 62 Governo
2012 José Eduardo dos Santos 1.º 4 135 503
71,84 / 100,00
 9,80
175 / 220
 16 Governo
2017 João Lourenço 1.º 4 115 302
61,05 / 100,00
 10,79
150 / 220
 25 Governo

Líderes do partidoEditar

PresidentesEditar

Secretários-gerais/Vice-presidentesEditar

Ver TambémEditar

Notas

  1. A historiografia oficial do MPLA indica geralmente 1956 como data de fundação, mas a investigação dos historiadores especializados na matéria bem como a documentação de Lúcio Lara apontam para um processo complexo concluído apenas em 1960. Ver p.ex. Jean Martial Arsène Mbah, As rivalidades políticas entre a FNLA e o MPLA (1961-1975), Luanda: Mayamba, 2012
  2. Ver "John Marcum (1969). The Angolan Revolution. I The Anatomy of an Explosion (1950-1962). Cambridge/Mass. & Londres: MIT Press ".
  3. A trajectória do MPLA até 1974 é documentada e ilustrada no livro "Associação Tchiweka de Documentação (2010). Lúcio Lara (Tchiweka) 80 anos: Imagens de um percurso até à conquista da independência. Luanda: Edições ATD "
  4. Uma primeira análise detalhada deste aspecto é oferecida em "Fidel Raul Carmo Reis (2010). Das políticas de classificação às classificações políticas (1950 - 1996): A configuração do campo político angolano. Contributo para o estudo das relações raciais em Angola. Tese de doutoramento em história. Lisboa: ISCTE - Instituto Universitário de Lisboa ".

Referências

  1. Santos, Hélia (2008), "MPLA (Angola)", A Historical Companion to Postcolonial Literatures - Continental Europe and its Empires (Edinburgh University Press): 480
  2. Morais, Rafael Marques de. «Religion and the State in Angola» (em inglês). Consultado em 1 de julho de 2021 
  3. "N.º 1793 10.Abril.2008" - "Trata-se de um partido com 2 700 000 militantes,(...)" - http://www.avante.pt/pt/1793/emfoco/24123/ Face a uma população total de 20-6 milhões, o número adiantado neste fonte não merece credibilidade.
  4. Chefe de Estado angolano advoga sociedade inclusiva e de prosperidade - Consulado Geral da República de Angola em New York
  5. «MPLA de ontem não é o de hoje». DW. 10 de dezembro de 2013 
  6. Jean Martial Mbah (2005). Les rivalités politiques entre la FNLA et le MPLA, 1961 - 1975. 1–2. Dissertação de doutoramento em história. Paris: Université de Paris I 
  7. a b c d e f g h i j k l «MPLA "reconcilia-se" com a sua história reconhece todos os presidentes». VOA Português. 19 de junho de 2019 
  8. Um reconhecimento com sabor a pouco… Jornal de Angola. 26 de janeiro de 2018.
  9. Franz-Wilhelm Heimer, O processo de descolonização em Angola, 1974-75, Lisboa: A Regra do Jogo, 1979
  10. Dalila Cabrita Mateus & Álvaro Mateus (2007). A purga em Angola: Nito Alves, Sita Valles, Zé Van Dúnem: O 27 de Maio de 1977. Lisboa & Porto: Asa Editora 
  11. Rafael del Pino (1991). Proa a la libertad. México: Planeta 
  12. Margaret Anstee (1997). Órfão da Guerra Fria: Radiografia do colapso do processo de paz angolano, 1992/1993. Porto: Campo das Letras 
  13. «Angolan ex-rebels accept defeat» (em inglês). BBC. 9 de setembro de 2008. Consultado em 21 de julho de 2017 
  14. Veiga, Luiz Maria (2015). De armas na mão: personagens-guerrilheiros em romances de Antonio Callado, Pepetela e Luandino Viera. São Paulo: Universidade de São Paulo

BibliografiaEditar

  • Don Barnett & Roy Harvey, The Revolution in Angola: MPLA, Life Histories and Documents, Nova Iorque: Bobbs-Merrill, 1972
  • John Marcum, The Angolan Revolution, 2 vol., Cambrige/Mass. & Londres: MIT Press, 1969 e 1978
  • Mário de Andrade & Marc Ollivier, La guerre en Angola, Paris: Maspéro, 1971
  • Carlos Pacheco, MPLA: Um nascimento polémico. As falsificações da história, Lisboa: Vega, 1997
  • Lúcio Lara, Um amplo movimento: Itinerário do MPLA através de documentos e anotações, vol. I, Até Fevereiro de 1961, 2ª ed., Luanda: Lúcio & Ruth Lara, 1998, vol. II, 1961-1962, Luanda: Lúcio Lara, 2006, vol. III, 1963-1964, Luanda: Lúcio Lara, 2008
  • Jean-Michel Mabeko Tali: Dissidências e poder de Estado: O MPLA perante si próprio (1966–1977), Luanda: Nzila, 2001.
  • Fernando Tavares Pimenta, Angola no percurso de um nacionalista: Conversas com Adolfo Maria, Porto: Afrontamento, 2006.
  • Fátima Salvaterra Peres, A Revolta Activa: Os conflitos identitários no contexto da luta de libertação (em Angola), dissertação de mestrado, Universidade Nova de Lisboa, 2010
  • Edmundo Rocha, Angola: Contribuição ao estudo do nacionalismo moderno angolano. Testemunho e estudo documental. Período de 1950-1964, 2 volumes, Luanda: Nzila e Lisboa: Edição do autor, 2002 e 2003, respectivamente