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Zhou Enlai

Primeiro-ministro da República Popular da China
Este é um nome chinês; o nome de família é Zhou (周).
Zhou Enlai
周恩来
Zhou Enlai
Primeiro-Ministro da República Popular da China China
Período 1 de outubro de 1949
a 8 de janeiro de 1976
Presidente Mao Zedong (até 1959)
Liu Shaoqi (até 1968)
cargo vago após 1968
Sucessor Hua Guofeng
Ministro das Relações Exteriores da República Popular da China
Período 1 de outubro de 1949
a 11 de fevereiro de 1958
Primeiro-Ministro Ele mesmo
Sucessor Chen Yi
Vice-Presidente do Partido Comunista da China
Período 28 de setembro de 1956
a 1 de agosto de 1966
Presidente Mao Zedong
Presidente do Comitê Nacional da Conferência Consultiva Política do Povo Chinês
Período Dezembro de 1954
a 8 de janeiro de 1976
Presidente Honorário Mao Zedong
Antecessor Mao Zedong
Sucessor Deng Xiaoping
Vice-Presidente do Partido Comunista da China
Período 30 de agosto de 1973
a 8 de janeiro de 1976
Presidente Mao Zedong
Antecessor Lin Biao
Sucessor Hua Guofeng
Dados pessoais
Nascimento 5 de março de 1898
Huai'an, Jiangsu, Império Qing
Morte 8 de janeiro de 1976 (77 anos)
Pequim, República Popular da China
Nacionalidade Chinês
Progenitores Mãe: Wan (?)
Pai: Zhou Yineng
Alma mater Universidade de Nankai
Cônjuge Deng Yingchao (1925–1976)
Filhos Sun Weishi
Wang Shu
(ambos adotados)
Partido Partido Comunista da China
Ocupação Político
Estrategista
Revolucionário
Diplomata
Assinatura Assinatura de Zhou Enlai
Serviço militar
Lealdade Partido Comunista da China
 República Popular da China
Serviço/ramo Flag of the People's Liberation Army.svg Exército de Libertação Popular
中國工農紅軍軍旗.svg Exército Vermelho dos Operários e Camponeses Chinês
Flag of the Republic of China Army.svg Exército Nacional Revolucionário
Conflitos Campanhas Orientais
Revolta de Nanchang
Campanhas de Cerco
Segunda Guerra Sino-Japonesa
Guerra Civil Chinesa
Zhou Enlai

Zhou Enlai (Chinese characters).svg

"Zhou Enlai" em chinês simplificado (cima) e em chinês tradicional (baixo)
Chinês tradicional: 周恩來
Chinês simplificado: 周恩来
Nome de cortesia
Chinês: 翔宇

Zhou Enlai (chinês: 周恩来, pinyin: Zhōu Ēn lái; por vezes escrito Xu Enlai, Zhou Enlai ou ainda Tcheu Ngen-Lai; 5 de março de 18988 de janeiro de 1976) foi o primeiro primeiro-ministro da China, atuando como chefe de governo entre outubro de 1949 e janeiro de 1976, quando veio a falecer. Foi um proeminente líder do Partido Comunista Chinês, sendo uma das figuras mais próximas do Presidente Mao Zedong e personagem crucial na ascensão e consolidação do Partido Comunista no poder.

Hábil diplomata, serviu como Ministro das Relações Exteriores da China de 1949 a 1958. Defendendo uma coexistência pacífica com o ocidente após o impasse da Guerra da Coreia, participou da Conferência de Genebra de 1954 e da Conferência de Bandung em 1955, ajudando a orquestrar a visita de Richard Nixon à China em 1972. Também teve importante papel na relação com países como Índia, Vietnã, União Soviética, Taiwan e Estados Unidos.

Zhou foi um dos altos oficiais do Partido que sobreviveram aos expurgos ocorridos durante a Grande Revolução Cultural Proletária. Nesse sentido, enquanto Mao dedicou os últimos anos de sua vida à luta política e ao trabalho ideológico, Zhou foi a figura que lidou com as questões mais administrativas e burocráticas do Estado. Sua tentativa de mitigar os danos causados pela Guarda Vermelha e os esforços para proteger as pessoas dos excessos cometidos, fizeram dele uma figura extremamente popular nos anos finais da Revolução Cultural.

Com o declínio da saúde de Mao a partir de 1971 e com a morte de Lin Biao, Zhou foi eleito Vice-presidente do Partido Comunista pelo 10º Comitê Central em 1973 e assim designado para ser o sucessor de Mao, mas ainda assim continuou numa luta interna contra a Camarilha dos Quatro pela liderança da China. Sua última grande aparição pública foi na primeira reunião do 4º Congresso Nacional Popular em 13 de janeiro de 1975, onde apresentou um relatório dos trabalhos do governo. Depois disso, retirou-se para cuidar da saúde, morrendo no ano seguinte. A enorme manifestação de luto que ocorreu em Pequim transformou-se num movimento de ódio à Camarilha dos Quatro, o que levou ao Incidente de Praça da Paz Celestial de 1976.

Primeiros anosEditar

JuventudeEditar

Zhou Enlai nasceu em Huai'an, na província de Jiangsu, no dia 5 de março de 1898, sendo o primeiro filho desse ramo da família Zhou. A família Zhou era originalmente de Shaoxing, Zhejiang. Durante o final da Dinastia Qing, Shaoxing era conhecida por ser o lar de famílias como a Zhou, cujos membros trabalhavam como funcionários do governo (師爷, shiye) geração após geração.[1] Para subir na hierarquia do serviço público, os homens dessas famílias eram frequentemente transferidos, e nos últimos anos da dinastia Qing o ramo de Zhou Enlai da família mudou-se para Huai'an. Mesmo após a mudança, a família continuou a ver Shaoxing como seu lar ancestral.[1]

O avô de Zhou, Zhou Panlong, e seu tio-avô, Zhou Jun'ang, foram os primeiros membros da família que se mudaram para Huai'an. Panlong aparentemente passou nos exames provinciais e Zhou Enlai depois afirmou que ele serviu como magistrado do condado de Huai'an.[1] O pai de Zhou, Zhou Yineng, foi o segundo dos quatro filhos de Zhou Panlong. A mãe biológica de Zhou, de sobrenome "Wan", era filha de um proeminente oficial de Jiangsu.[2]

Como muitos outros, a fortuna econômica da numerosa família de oficiais eruditos Zhou foi dizimada pela grande recessão econômica que a China sofreu no final do século XIX. Seu pai tinha uma reputação de honestidade, ternura, inteligência e preocupação com os outros, mas era também considerado "fraco" e com "falta de disciplina e determinação". Foi mal sucedido em sua vida pessoal e percorreu por toda a China exercendo as mais diversas ocupações, trabalhando em Pequim, Shandong, Anhui, Shenyang, Mongólia Interior e Sichuan. Zhou Enlai afirmou posteriormente que suas lembranças do pai eram de alguém estando sempre distante de casa e com dificuldades para sustentar a família.[2]

Pouco após nascer, Zhou Enlai foi adotado pelo irmão mais novo de seu pai, Zhou Yigan, que possuía tuberculose. Aparentemente a adoção foi arranjada porque a família temia que Yigan morresse sem um herdeiro.[3][1] A tuberculose levou Yigan à morte pouco após a adoção, e Zhou Enlai acabou sendo criado pela viúva de Yigan, cujo sobrenome era "Chen". A senhora Chen também era de uma família erudita e recebeu uma educação literária tradicional, e de acordo com a explicação do próprio Zhou, seu grande interesse por literatura chinesa e opera ocorreu por conta de sua relação próxima com ela. A Madame Chen ensinou Zhou a ler e escrever bastante cedo, e Zhou afirmou que leu o famoso romance Jornada ao Oeste com apenas seis anos[1]. Aos oito anos, ele leu outros romances clássicos chineses, tais como Margem da Água, Romance dos Três Reinos e o O Sonho da Câmara Vermelha.[2]

A mãe biológica de Zhou, Wan, morreu em 1907 quando Zhou tinha somente nove anos, e sua mão adotiva, Chen, morreu em 1908 quando Zhou tinha dez anos. Seu pai estava trabalhando em Hubei, longe de Jiangsu, então Zhou e seus dois irmãos mais novos voltaram para Huai'an e viveram com o irmão mais novo de seu pai, Yikui, pelos próximos dois anos.[1] Em 1910 seu tio Yigeng, o irmão mais velho de seu pai, se ofereceu para cuidar de Zhou. A família em Huai'an concordou, e ele foi enviado para ficar com seu tio na Manchúria, onde Zhou Yigeng trabalhava como um oficial do governo.[1]

EducaçãoEditar

Sua educação prévia foi feita inteiramente por meio de ensino doméstico, mas em Shenyang, Zhou frequentou a Dongguan Model Academy, uma escola cujo estilo era considerado mais moderno do que as demais. Lá, além de novos assuntos como Inglês e ciências, Zhou também foi exposto aos escritos de autores reformistas e radicais como Liang Qichao, Kang Youwei, Chen Tianhua, Zou Rong e Zhang Binglin[1][2]. Aos catorze anos, Zhou declarou que o que motivava sua educação era o objetivo de "tornar-se um grande homem que assumirá as grandes responsabilidades do país no futuro".[2] Em 1913, o tio de Zhou foi transferido para Tianjin, onde Zhou ingressou na famosa Nankai Middle School.

A Nankai Middle School foi fundada por Yan Xiu, um proeminente estudioso e filantropo, e liderada por Zhang Boling, um dos educadores chineses mais importantes do século XX[4]. Os métodos de ensino da Nankai eram incomuns para os padrões chineses contemporâneos. No período em que Zhou começou a frequentá-la, a escola havia adotado o modelo educacional usado na Phillips Academy, dos Estados Unidos[1]. A reputação da escola, com sua rotina diária "altamente disciplinada" e um "código moral rigoroso", atraiu muitos estudantes que posteriormente se tornariam proeminentes na vida pública. Entre os amigos de Zhou e seus colegas de classe estavam desde Ma Jun (futuro líder comunista, tendo sido executado em 1927) e Wu Kuo-Chen (futuro prefeito de Xangai e governador de Taiwan. Membro do Partido Nacionalista)[1]. Os talentos de Zhou também chamaram a atenção de Yan Xiu e Zhang Boling, em especial de Yan, que investiu alto em Zhou e o ajudou a pagar por seus estudos no Japão e na França[1]

Yan estava tão impressionado que o encorajou a casar-se com sua filha, mas ele recusou. Mais tarde, Zhou descreveu para um

colega de classe, Zhang Honghao, o que motivou a sua recusa: temia que suas perspectivas financeiras não fossem promissoras, e que Yan, como seu sogro, acabaria dominando sua vida.[2]

Zhou saiu-se muito bem em seus estudos na Nankai: destacou-se em Chinês, ganhou diversos prêmio no clube de discursos e tornou-se editor do jornal da escola em seu último ano. Também foi muito ativo atuando e produzindo dramas e peças de teatro; muitos estudantes que não estavam familiarizados com ele o conheciam por conta de sua atuação.[1] Sua participação em debates e performances de palco contribuíram para sua eloquência e habilidades de persuasão. Em junho de 1917 foi um dos cinco alunos de graduação honrados na cerimônia de início da aulas e um dos dois oradores.[1]

No período em que se graduou em Nankai, os ensinamentos de Zhang Boling a respeito dos conceitos de gong (espírito público) e neng (habilidade) causaram-lhe uma grande impressão. Zhou deixou Nankai com um grande desejo de ingressar no serviço público e para isso adquirir as habilidades necessárias para tal.[2]

Nankai ainda preserva uma série de ensaios e artigos escritos por Zhou Enlai naquele período, e estes refletem a disciplina, o treinamento e a preocupação com o país que os fundadores de Nankai tentaram incutir em seus alunos.

Seguindo muitos de seus colegas de sala, Zhou foi para o Japão em julho de 1917 para realizar estudos complementares. Durante seus dois anos no Japão, Zhou passou a maior parte do tempo na Escola Superior Preparatória do Leste Asiático (East Asian Higher Preparatory School), uma escola de idiomas para estudantes chineses. Os estudos de Zhou foram financiados por seus tios, e aparentemente também pelo fundador da Nankai, Yan Xiu. Seus fundos, no entanto, eram limitados, e durante esse período o Japão sofreu uma inflação severa.[1] Zhou originalmente planejava ganhar uma das bolsas de estudo que eram oferecidas pelo governo chinês; essas bolsas, no entanto, exigiam que estudantes chineses passassem em exames de admissão nas universidades japonesas. Zhou fez tais exames em pelo menos duas escolas, mas não conseguiu a admissão.[1]

As crises de ansiedades que possuía foram agravadas pela morte de seu tio, Zhou Yikui, sua incapacidade de dominar o a língua japonesa e o grande chauvinismo cultural japonês que discriminava os chineses. Na época em que retornou à China, na primavera de 1919, estava profundamente desencantado com a cultura japonesa, rejeitando a ideia de que o modelo político japonês era relevante para a China e desprezando os valores de elitismo e militarismo que lá ele observara.[2]

Os diários de Zhou e as cartas do tempo em que esteve em Tóquio mostram um profundo interesse por política e atualidades, em particular, pela Revolução Russa de 1917 e pelas novas políticas realizadas pelos Bolcheviques. Assim, Começou a ler avidamente a revista progressista e de orientação à esquerda New Youth (Xin Qingnian)[2], escrita por Chen Duxiu, intelectual comunista chinês e um dos fundadores do Partido Comunista da China. Provavelmente leu também alguns dos primeiros trabalhos japoneses sobre Marx, assim como especula-se que assistiu às apresentações de Kawakami Hajime (economista marxista japonês) na Universidade de Kyoto, mas não consenso quanto a isso. Kawakami foi uma importante figura no início da história do marxismo no Japão, e suas traduções e artigos influenciaram uma geração de comunistas chineses[4]. Os diários de Zhou também mostram sua inquietação com as manifestações de estudantes chineses no Japão em maio de 1918, quando o governo chinês não lhes enviou as bolsas de estudo. De todo modo, nada indica que ele estivesse envolvido de forma profunda nesses movimentos. Seu papel verdadeiramente ativo nos movimentos políticos começa após seu retorno à China.

Primeiras atividades políticasEditar

 
Um jovem Zhou Enlai (1919)

Zhou retornou para Tianjin na primavera de 1919. Os historiadores divergem quanto a sua participação no Movimento Quatro de Maio. A biografia chinesa "oficial" afirma que ele atuou como líder dos protestos estudantis em Tianjin[2], mas muitos estudiosos acreditam que isso seja muito improvável baseado na completa ausência de evidências diretas sobre o período[2][1] Em julho de 1919, de todo modo, Zhou tornou-se editor do jornal Tianjin xuesheng lianhe huibao (Boletim da União dos Estudantes de Tianjin), aparentemente por pedido de seu colega de classe, Ma Jun, um dos fundadores da União.[1] Durante sua breve existência (julho de 1919 - início de 1920), o jornal foi amplamente lido por grupos de estudantes em todo o país, alcançando uma tiragem de mais de 20 mil exemplares e sendo reprimido pelo menos uma vez pelo governo por ser "prejudicial à segurança pública e à ordem social".[1]

Em agosto de 1919, quando a Nankai tornou-se uma universidade, Zhou estava na primeira turma, mas já era um ativista em tempo integral. Suas atividades políticas continuaram a se expandir, e em setembro ele e outros estudantes decidiram estabelecer a Huànxǐng shèhuì (Sociedade Despertando). Esse pequeno grupo, nunca maior do que 25 membros[1], foi definido por Zhou da seguinte forma: "tudo o que é incompatível com o progresso dos tempos atuais, como o militarismo, a burguesia, lideranças partidárias, burocratas, desigualdade entre homem e mulher, fanatismo, moral obsoleta, ética antiquada... tudo isso deve ser abolido ou reformado" e que o propósito da Sociedade era disseminar essa consciência entre o povo chinês. Foi na Sociedade que Zhou conheceu sua futura esposa, Deng Yingchao[2]. De certa forma, a Sociedade Despertando era parecida com o grupo clandestino de estudos marxistas Universidade de Pequim, chefiado por Li Dazhao, com os membros do grupo usando números no lugar dos nomes como forma de garantir certo "sigilo" (Zhou era o "Número Cinco", um pseudônimo que continuou a usar nos anos seguintes).[1]

Imediatamente após o grupo ter sido estabelecido, Li Dazhao foi convidado para dar uma palestra sobre marxismo. Zhou assumiu um papel mais proeminente nas atividades políticas com o passar dos meses[1], sendo a maior dessas atividades uma manifestação de apoio a um boicote nacional contra produtos japoneses. Conforme o boicote foi se tornando mais efetivo, o governo nacional, sob pressão do Japão, buscou suprimi-lo. Em janeiro de 1920, um confronto com algumas manifestações de boicote em Tianjin levou diversas pessoas para a prisão, incluindo alguns membros da Sociedade Despertando. Em 29 de janeiro, Zhou liderou uma marcha até o escritório do governador em Tianjin para entregar uma petição que pedia a libertação dos presos, mas ele e outras três lideranças foram presas. Os presos permaneceram na prisão por mais de seis meses; durante esse tempo Zhou teria organizado algumas discussões sobre marxismo.[1] Em seu julgamento em julho, Zhou e seis outros foram condenados a dois meses; os demais foram considerados inocentes. Todos foram imediatamente libertados, uma vez que já tinham permanecido presos por seis meses. Após sua libertação, ele e a Sociedade se reuniram com várias organizações e concordaram em estabelecer uma "Federação Reformista"; durante essas atividades Zhou tornou-se mais próximo de Li Dazhao e conheceu Zhang Shenfu, que era o contato entre Li em Pequim e Chen Duxiu em Xangai. Ambos estavam organizando células comunistas secretas em cooperação com Grigori Voitinsky, um agente da Internacional Comunista (Comintern)[5].

Pouco após sua soltura, Zhou decidiu ir para a Europa estudar, tendo em vista que havia sido expulso da Universidade de Nankai durante sua detenção. Por mais que dinheiro fosse um problema, ele recebeu uma bolsa de estudos de Yan Xiu.[1] Como formar de conseguir mais dinheiro, ele contatou um jornal de Tianjin (chamado "Yishi bao") e assinou um acordo para trabalhar como "correspondente estrangeiro" na Europa. Assim, partiu de Xangai em 7 de novembro de 1929, junto com um grupo de 196 estudantes, entre eles amigos de Nankai e Tianjin.[2]

As experiências de Zhou após o Movimento Quatro de Maio parecem ter sido cruciais para sua carreira como comunista. Seus amigos da Sociedade Despertando também foram afetados pelo evento, sendo que quinze membros desse grupo tornaram-se comunistas por pelos menos durante um tempo. Zhou e seis outros membros do grupo viajaram para a Europa nos dois anos seguintes, e Zhou depois acabou se casando com Deng Yingchao, a mais jovem do grupo.

Atividades na EuropaEditar

O grupo de Zhou chegou em Marselha em 13 de dezembro de 1920. Diferente da maiorias dos estudantes chineses, que viajavam para a Europa em programas de trabalho/estudo, a bolsa de estudos e o acordo de Zhou com oYishi bao significavam que ele estava com boas provisões e não precisaria trabalhar durante sua estadia. Por causa de sua posição financeira, ele foi capaz de dedicar-se em tempo integral às atividades revolucionárias.[2] Em uma carta para seu primo em 30 de janeiro de 1921, Zhou afirmou que seus objetivos na Europa eram pesquisar as condições sociais nos países estrangeiros e seus métodos de resolução de problemas sociais, como forma de aplicar essas lições na China após seu retorno. Na mesma carta, Zhou afirmou, a respeito da adoção de uma ideologia específica, "eu ainda preciso me decidir."[2]

Enquanto esteve na Europa, Zhou, também nomeado como John Knight, estudou as diferentes abordagens para a resolução do conflito de classes adotadas por vários países europeus. Em Londres, em janeiro 1921, Zhou testemunhou uma grande greve dos mineiros e escreveu uma série de artigos para o Yishi bao (em geral simpáticos aos mineiros) examinando o conflito entre trabalhadores e empregadores, e a resolução do conflito. Após cinco semanas em Londres ele se mudou-se para Paris, onde seu interesse na Revolução Russa de 1917 cresceu. Em uma carta para seu sobrinho, Zhou identificou dois caminhos gerais de reforma para a China: "reformas graduais" (como na Inglaterra) ou por "meios violentos" (como na Rússia). Zhou escreveu que "Eu não tenho uma preferência pela forma russa ou inglesa... eu preferiria algo intermediário ao invés de um desses dois extremos".[2]

Ainda interessado em programas acadêmicos, Zhou viajou para a Grã-Bretanha para visitar a Universidade de Edimburgo. Preocupado com problemas financeiros e exigências linguísticas, ele não se inscreveu, retornando à França no final de janeiro. Não há registros de Zhou entrando em qualquer programa acadêmico na França. Na primavera de 1921, ele juntou-se a uma célula dos Comunistas Chineses.[3] Zhou foi recrutado por Zhang Shenfu, que ele conheceu em agosto do ano anterior em um encontro com Li Dazhao. Ele também conheceu Zhang através de sua esposa, Liu Qingyang, membro da Sociedade Despertando. Zhou às vezes tem sido retratado neste período como alguém incerto em sua política[3], mas sua transição rápida para o comunismo sugere o contrário.[6]

A célula que Zhou pertenceu era baseada em Paris;[7] além de Zhou, Zhang, e Liu também incluía mais dois estudantes, Zhao Shiyan e Chen Gongpei. Pelos próximos dez meses, esse grupo este grupo acabou formando uma organização em conjunto com um grupo de chineses radicais de Hunan que estavam morando em Montargis, ao sul da França. Esse grupo incluiu figuras que posteriormente seriam posteriores, como Cai Hesen, Chen Yi, Nie Rongzhen, Deng Xiaoping e também Guo Longzhen, outro membro da Sociedade Despertando. Diferente de Zhou, a maioria dos estudantes nesse grupo eram participantes do programa de estudo/trabalho. Uma série de conflitos com os administradores chineses do programa, por causa dos baixos salários e das precárias condições de trabalho, resultaram em mais de cem estudantes ocupando os escritórios do programa no Instituto Sino-Francês em Lyon em setembro de 1921. Os estudantes, incluindo diversas pessoas do grupo de Montargis, foram presos e deportados. Zhou aparentemente não era um dos estudantes ocupantes e permaneceu na França até fevereiro ou março de 1922, quando ele se mudou com Zhang e Liu de Paris para Berlim. A mudança de Zhou para Berlim foi talvez por causa da atmosfera política relativamente "tranquila" na cidade, o que fez dela uma base mais favorável para as organização europeias.[1] Além disso, o Secretariado da Europa Ocidental da Comintern estava localizado em Berlim e é bastante claro que Zhou tinha importantes conexões com a Comintern, embora a natureza delas ainda seja contestada.[6] Depois de mudar as operações para a Alemanha, Zhou viajava regularmente entre Paris e Berlim.

Zhou voltou para Paris em junho de 1922, onde era um dos vinte e um participantes presentes na organização do Partido Comunista da Juventude Chinesa, estabelecido como a filial euroéia do Partido Comunista da China.[1] Zhou ajudou a rascunhar a carta do partido e foi eleito como um dos três membros do comitê executivo como diretor de propaganda. Ele também escreveu e ajudou a editar a revista do partido, Shaonian (Juventude), depois renomeada para Chiguang (Luz Vermelha). Foi em sua atuação como editor geral da revista que Zhou conheceu Deng Xiaoping, então com dezessete anos, que Zhou contratou para operar uma máquina de mimeógrafo.[2] O partido passou por diversas reorganizações e mudanças de nome, mas Zhou permaneceu como um membro chave do grupo durante toda a sua estada na Europa. Outras atividades importantes que Zhou assumiu incluíam recrutar e transportar estudantes para a Universidade Comunista dos Trabalhadores do Oriente, e o estabelecimento de uma filial europEia do Partido Nacionalista Chinês (Kuomintang).

Em junho de 1923, o 3º Congresso do Partido Comunista da China aceitou as instruções da Comintern para se aliar com o Kuomintang, liderado nesse período por Sun Yat-sen. Essas instruções pediam que os comunistas se juntassem ao Partido Nacionalista como "indivíduos", ao passo em que mantinham sua associação com o Partido Comunista. Depois de se juntar ao Kuomintang, eles trabalharam para liderá-lo e dirigi-lo, transformando-o em um veículo para a revolução. Vários anos depois, essa estratégia se tornaria a fonte de sérios conflitos entre o os Nacionalistas e os Comunistas.[2]

Zhou não somente se juntou ao Kuomintang, mas também ajudou a organizar e fundar a filial europeia do Partido Nacionalista em novembro de 1923. Sob influência de Zhou, a maioria dos oficiais da filial europeia foram de fato comunistas. Os amplos contatos de Zhou e os relacionamentos pessoais que formou durante esse período foram centrais em sua carreira. Líderes partidários importantes, como Zhu De e Nie Rongzhen, foram admitidos no partido por Zhou.

Por volta de 1924, a aliança Soviético-Nacionalista se expandiu rapidamente e Zhou foi convocado de volta à China para realizar trabalho adicional. Ele deixou a Europa provavelmente no final de julho de 1924,[1] retornando à China como um dos membros mais antigos do Partido Comunista Chinês na Europa.

Trabalho político e militar em WhampoaEditar

Estabelecimento em CantãoEditar

 
Chiang Kai-shek e Zhou Enlai com um grupo de cadetes na Academia Militar de Whampoa

Zhou voltou para a China no final de agosto ou início de setembro de 1924 para fazer parte do Departamento Político da Academia Militar de Whampoa, provavelmente através da influência Zhang Shenfu, que já havia trabalhado lá.[1] As posições exatas que Zhou ocupou em Whampoa e suas datas não são claras. Alguns meses após sua chegada, possivelmente em outubro de 1924, ele se tornou vice-diretor do Departamento Político da Academia, e depois, possivelmente em novembro de 1924, diretor do departamento.[8] Ainda que respondesse (tecnicamente) ao governo central, o departamento político de Zhou operou sob ordens diretas para doutrinar os cadetes de Whampoa na ideologia do Kuomintang com o objetivo de melhorar a lealdade e a moral. Enquanto serviu em Whampoa, Zhou foi também secretário do Partido Comunista de Cantão-Guangxi, e serviu como um representante do representante do partido com o posto de major-general.[2]

A ilha de Whampoa, dezesseis quilômetros de Cantão, estava no coração da aliança Soviética-Nacionalista. Concebida como o centro de treinamento do Exército do Partido Nacionalista, foi para prover a base militar que os Nacionalistas lançariam sua campanha de unificação da China, que estava dividida em dezenas de "sátrapas" militares. Desde o início, a escola foi financiada, armada e parcialmente ocupada pelos soviéticos.[8]

O Departamento Político, onde Zhou trabalhou, era responsável pela doutrinação política e controle. Como resultado, Zhou foi uma figura proeminente na maioria das reuniões da Academia, frequentemente dirigindo a escola imediatamente após o comandante Chiang Kai-shek. Foi extremamente influente em estabelecer o sistema de relação departamento político/comissário do partido que foi adotado nas forças armadas Nacionalistas em 1925.[9]

Concorrente com sua nomeação em Whampoa, Zhou tornou-se secretário do Comitê Provincial de Cantão do Partido Comunista, e em algum ponto um membro da Seção Militar do Comitê Provincial.[2] Zhou ampliou vigorosamente a influência Comunista na Academia. Ele logo trabalhou para que um número de outros Comunistas proeminentes fizessem parte do the Departamento Político, incluindo Chen Yi, Nie Rongzhen, Yun Daiying e Xiong Xiong.[10] Zhou teve um papel importante em estabelecer a Associação de Jovens Soldados, um grupo de jovens que foi dominado pelos Comunistas, e o Faíscas, um grupo Comunista que existiu por pouco tempo. Ele então recrutou vários novos membros para o Partido Comunista das fileiras de cadetes, e eventualmente montou na academia uma filial secreta do partido dirigir os novos membros.[2] Quando nacionalistas preocupados com o crescente número de membros e organizações comunistas em Whampoa estabeleceram uma "Sociedade para o Sun Yat-senismo", Zhou tentou sufocá-la, e o conflito entre esses grupos de estudantes foi o pano de fundo para a remoção de Zhou da academia.[11]

Atividades militaresEditar

Zhou participou de duas operações militares conduzidas pelo regime Nacionalista em 1925, posteriormente conhecidas como a primeira e segunda Expedições Orientais. A primeira ocorreu em janeiro de 1925 quando Chen Jiongming, um importante líder militar cantonês previamente expulso de Cantão por Sun Yat-sen, buscou retomar Cantão. A campanha do regime Nacionalista contra Chen consistiu de forças do Exército de Cantão sob o comando de Xu Chongzhi, e dois regimentos de treinamento do Exército do Partido Nacionalista, liderado por Chiang Kai-shek e composto por oficiais e cadetes da Academia.[8] A luta durou até maio de 1925, com a derrota, mas não a destruição, das forças de Chen.[4] Zhou acompanhou os cadetes da Whampoa na expedição como oficial político.

Quando Chen reagrupou e atacou Cantão novamente em setembro de 1925, os Nacionalistas deram início a uma segunda expedição. As forças Nacionalistas nesse período foram reorganizadas em cinco corpos (ou exércitos), e adotaram o sistema de comissário com os departamentos políticos e representantes do Partido Nacionalista em diversas divisões. O Primeiro Corpo, formado pelo Exército do Partido Nacionalista, composto pelo Exército do Partido Nacionalista, foi liderado por graduados da Whampoa e comandado por Chiang Kai-shek, que pessoalmente nomeou Zhou como diretor do Departamento Político do Primeiro Corpo.[9] Pouco depois, o Comitê Central Executivo do Partido Nacionalista nomeou Zhou como representante partidário do partido, tornando Zhou comissário-chefe do Primeiro Corpo.[67] A primeira grande batalha da expedição viu a captura da base de Chen em Huizhou em 15 de outubro. Shantou foi tomada em 6 de novembro, e ao final de 1925, os Nacionalistas controlavam toda a província de Cantão.

A nomeação de Zhou como comissário-chefe do Primeiro Corpo permitiu que ele nomeasse Comunistas como comissários em quatro divisões do Corpo.[9] Após a conclusão da Expedição, Zhou foi nomeado comissário especial para o Distrito do Rio Leste, que o colocou em controle administrativo temporário de vários condados; ele aparentemente usou essa oportunidade para estabelecer um braço do Partido Comunista em Shantou e fortaleceu o controle por parte do Partido dos sindicatos locais.[10] Isso marcou o ponto alto do tempo de Zhou em Whampoa.

Atividades políticasEditar

Em questões pessoais, 1925 também foi um ano muito importante para Zhou. Zhou manteve contanto com Deng Yingchao, que ele tinha conhecido na Sociedade Despertando enquanto esteve em Tianjin. Em janeiro de 1925, Zhou pediu e recebeu a permissão das autoridades do Partido Comunista para casar com Deng. Os dois se casaram em Cantão em 8 de agosto de 1925.[2]

O trabalho de Zhou em Whampoa chegou ao fim com o Golpe do Cantão em 20 de março de 1926, onde uma canhoneira de tripulação majoritariamente comunista foi de Whampoa para Cantão sem o conhecimento ou aprovação de Chiang Kai-shek. Esse evento fez com que Chang expulsasse os Comunistas da Academia por volta de maio de 1926 e removesse diversos deles de altas posições do Kuomintang. Em suas memórias, Nie Rongzhen sugere que a canhoneira foi para Cantão em protesto à (breve) prisão de Zhou.[2]

O tempo de Zhou na Academia Militar de Whampoa foi um período significante em sua carreira. Seu trabalho pioneiro como oficial político em assuntos militares fez dele um importante especialista do Partido Comunista nessa área tão essencial; muito de sua carreira posterior foi centrada em questão militares. Seu trabalho na Seção Militar do Comitê Regional do Cantão do Partido Comunista da China era típico de suas atividades secretas no período. A Seção era um grupo secreto consistindo de três membros do Comitê Central Provincial, e era primeiramente responsável pela organização e direção do núcleo do partido no exército. Esse núcleo, organizado no nível regimental e acima, era "ilegal", o que significa que foi formado sem o conhecimento e autorização dos Nacionalistas. A Seção era também responsável pela organização de núcleos similares em outros grupos armados, incluindo sociedades secretas e serviços chave como os de ferrovias e canais de navegação. Zhou fez um trabalho extensivo nessas áreas até o separação definitiva entre os partidos Comunista e Nacionalista e o fim da aliança Soviético-Nacionalista em 1927.

O Racha entre Comunistas e NacionalistasEditar

Extensão da cooperaçãoEditar

As atividades de Zhou imediatamente após a remoção de suas posições na Whampoa são incertas. Um biógrafo anterior afirma que Chiang Kai-shek encarregou Zhou de "um centro de treinamento avançado para os membros do Partido Comunista e comissários retirados do exército".[11] Fonte mais recentes de comunistas chineses afirmam que Zhou teve um importante papel nesse período em garantir o controle Comunista do Regimento Independente de Ye Ting. O regimento Ye Ting posteriormente tiveram um papel de liderança na primeira grade ação militar dos Comunistas, a Revolta de Nanchang.[2]

Em julho de 1926, os Nacionalistas deram inicio à Expedição Norte, uma tentativa militar em grande escalar de unificar a China. A Expedição foi liderada por Chiang Kai-shek e o Exército Nacional Revolucionário, um amálgama de forças militares com significante orientação de assessores militares da Rússia e numerosos Comunistas de cargos de comando e políticos. Com os sucessos iniciais da Expedição, logo houve uma corrida entre Chiang Kai-shek, liderando a "ala direita" do Partido Nacionalista, e os Comunistas, atuando dentro da "ala esquerda" dos Nacionalistas, pelo controle das cidades maiores ao sul, como Nanquim e Xangai. Nesse ponto a parte chinesa de Xangai era controlada por Sun Chuanfang, um dos alvos militares da Expedição Norte. Distraído pelo confronto com o Exército Nacional Revolucionário e por deserções em suas tropas, Sun reduziu suas forças em Xangai, e os Comunistas, cujo quartel-general do partido era localizado lá, realizaram três tentativas de tomar o controle da cidade. Essa tentativas posteriormente ficaram conhecidas como "as Três Revoltas de Xangai", tendo ocorrido em outubro de 1926, fevereiro de 1927 e março de 1927.

Atividades em XangaiEditar

Zhou foi transferido para Xangai para dar suporte nessas atividades, provavelmente no final de 1926. Sua participação na primeira revolta, em 23 e 24 de outubro, não é confirmada,[11] mas ele certamente estava em Xangai em dezembro de 1926. Relatos iniciais apontam que Zhou organizou atividades de trabalho em Xangai após sua chegada, ou, de forma mais credível, trabalhou para "fortalecer a doutrinação de trabalhadores políticos em sindicatos e o contrabando de armas para grevistas."[11] Relatos de que Zhou "organizou" ou "encomendou" a segunda e terceira revoltas em 20 de fevereiro e 21 de março tendem a exagerar o seu papel. As principais decisões durante esse período eram feitas pela liderança Comunista em Xangai, Chen Duxiu, o secretário-geral do Partido, com um comitê especial de oito oficiais do partido coordenando as ações dos Comunistas. O comitê também atuava de forma próxima com os representantes da Comintern em Xangai, liderados por Grigori Voitinsky.[12] A documentação parcial disponível desse período mostra que Zhou liderou a Comissão Militar do Comitê Central do Partido Comunista em Xangai.[12] Ele participou nas ações de fevereiro e março mas não era o orientador em nenhum destes eventos, em vez disso trabalhou com A. P. Appen, o assessor militar soviético do Comitê Central, no treinamento dos piquetes do Sindicato Geral, sindicato controlado pelo Partido Comunista em Xangai. Ele também trabalhou para tornar os braços armados dos sindicatos mais efetivos quando os Comunistas declararam o "Terror Vermelho" após o fracasso da revolta de fevereiro, essa ação resultou no assassinato de vinte figuras "anti-sindicato", e o sequestro, espancamento e intimidação de outros associados com atividades anti-sindicato.[12]

A terceira revolta Comunista em Xangai ocorreu entre 20 e 21 de março. 600 mil trabalhadores rebeldes cortaram linhas de energia e telefone e tomaram os correios, o quartel-general da polícia e estações ferroviárias da cidade, muitas vezes após combate pesado. Durante essa revolta, os insurrecionistas estavam sob ordens estritas de não prejudicar estrangeiros, ordens estas que foram plenamente obedecidas. As forças de Sun Chuanfang retiraram-se e a revolta obteve sucesso, apesar do menor número de forças armadas disponíveis. As primeiras tropas Nacionalistas entraram na cidade no dia seguinte.[13]

Enquanto os Comunistas tentavam instalar um governo municipal soviético, o conflito começou entre Nacionalistas e Comunistas, e em 12 de abril as forças Nacionalistas, incluindo membro da Gangue Verde e soldados sob o comando do general Nacionalista Bai Chongxi atacaram os Comunistas e rapidamente os superou. Na véspera do ataque Nacionalista, Wang Shouhua, que era tanto o líder do Comitê de Trabalho do Partido Comunista, e o Presidente do Comitê Geral de Trabalho, aceitou um convite para jantar do "Orelhudo Du" (um mafioso de Xangai) e foi estrangulado após chegar. O próprio Zhou esteve próximo de ser assassinado em uma armadilha similar, quando foi preso após chegar para um jantar organizado na base de Si Lie, um comandante Nacionalista do Vigésimo-Sexto Exército de Chiang. Apesar dos rumores de que Chiang ofereceu um alto valor pela cabeça de Zhou, ele foi rapidamente libertado pelas forças de Bai Chongxi. As razões para a repentina libertação de Zhou parecem ser porque Zhou era então o Comunista mais experiente em Xangai, e os esforços de Chiang para exterminar os Comunistas de Xangai era altamente secretos nesse período, e sua execução poderia ser notada como uma violação do acordo de cooperação entre o Partido Comunistas e o Nacionalista (que tecnicamente ainda estava em andamento). Zhou foi finalmente libertado após a intervenção de um representante do Vigésimo-Sexto Exército, Zhao Shu, que foi capaz de convencer seus comandantes de que a prisão de Zhou havia sido um erro.[2]

Fuga de XangaiEditar

Fugindo de Xangai, Zhou seguiu a caminho de Hankou (hoje parte de Wuhan) e participou do Quinto Congresso Nacional do Partido Comunista da China entre 27 de abril e 9 de maio. Ao fim do Congresso, Zhou foi eleito para o Comitê Central do Partido, novamente liderando o departamento militar.[11] Após a repressão aos Comunistas feita por Chiang Kai-shek, o Partido Nacionalista se dividiu em dois, com a "ala esquerda" do Partido Nacionalista (liderada por Wang Jingwei) controlando o governo de Hankou, e a "ala direita" (liderada por Chiang Kai-shek) estabelecendo um governo rival em Nanquim. Ainda seguindo as instruções da Internacional Comunista, os Comunistas continuaram como um "bloco interno" no Partido Nacionalista, na esperança de continuar expandindo sua influência entre os Nacionalistas.[11] Após ser atacado por um senhor de guerra amigo de Chiang, o governo esquerdista de Wang foi desintegrado em maio de 1927, e as tropas de Chiang deram início a um expurgo organizado contra os Comunistas nos territórios anteriormente controlados por Wang.[11] Em meados de julho Zhou foi forçado a se esconder.[11]

Pressionado por seus assessores da Comintern, e eles mesmos convencidos de que uma "maré alta revolucionária" havia chegado, os Comunistas decidiram dar início a uma série de revoltas militares.[11] A primeira dessas foi a Revolta de Nanchang. Zhou foi enviado para inspecionar o evento, mas as figuras de destaque parecem ter sido Tan Pingshan e Li Lisan, enquanto as principais figuras militares foram Ye Ting e He Long. Em termos militares, a revolta foi um desastre, com as forças Comunistas sendo dizimadas e dispersadas.[8]

Zhou acabou contraindo malária durante a campanha e foi secretamente enviado para Xangai por Nie Rongzhen e Ye Ting para receber tratamento médico. Após chegar em Hong Kong, Zhou foi disfarçado como um empresário chamado "Li", e foi incumbido aos cuidados dos Comunistas locais. Em um encontro subsequente do Comitê Central, Zhou foi culpado pelo fracasso da campanha de Nanchang e temporariamente rebaixado a ser um membro suplente do Politburo.[2]

Atividades durante a Guerra Civil ChinesaEditar

O Sexto Congresso do PartidoEditar

Após o fracasso da revolta de Nanchang, Zhou deixou a China e foi para a União Soviética para participar do Sexto Congresso Nacional do Partido Comunista da China em Moscou, entre junho e julho de 1928.[14] O Sexto Congresso precisou acontecer em Moscou por que as condições na China eram consideradas perigosas. O controle do Kuomintang era tão estrito que muitos delegados chineses que participaram do Sexto Congresso foram forçados a viajar sob disfarce: o próprio Zhou viajou disfarçado como um antiquário.[2]

No Sexto Congresso, Zhou proferiu um longo discurso insistindo que as condições na China não eram favoráveis para uma revolução imediata, e que a principal tarefa do Partido Comunista deveria ser desenvolver as condições revolucionárias conquistando o suporte das massas no interior e estabelecendo um regime de soviete no sul da China, similar ao que Mao Zedong e Zhu De estavam estabelecendo na região de Jiangxi. O Congresso, de forma geral, aceitou a avaliação de Zhou como correta. Xiang Zhongfa foi feito Secretário-Geral do Partido, mas logo foi considerado incapaz de cumprir tal papel, então Zhou surgiu como líder de facto do do Partido Comunista da China. Zhou tinha apenas trinta anos.[2]

Durante o Sexto Congresso, Zhou foi eleito Diretor do Departamento de Organização do Comitê Central. Seu aliado, Li Lisan, assumiu os trabalhos de propaganda. Zhou finalmente voltou à China, após mais de um ano no exterior, em 1929. No Sexto Congresso em Moscou, Zhou deu números indicando que, por volta de 1928, menos de 32 mil membros de sindicato permaneciam leais aos Comunistas, e que somente dez porcento dos membros do Partido eram proletários. Por volta de 1929, somente três porcento do Partido era de proletários.[13]

No começo de 1930, Zhou começou a discordar da estratégia de Li Lisan de favorecer os camponeses ricos e concentrar forças militares para realizar ataques em centros urbanos. Zhou não rompeu abertamente com essas noções mais ortodoxas, e até tentou implementa-las posteriormente, em 1931, em Jiangxi.[14] Quando o agente soviético Pavel Mif chegou em Xangai para liderar a Comintern na China em dezembro de 1930, Mif criticou a estratégia de Li como sendo um "aventureirismo esquerdista" e criticou Zhou por se comprometer com Li. Zhou "reconheceu" seus erros por se comprometer com Li em janeiro de 1931 e ofereceu-se para renunciar do Politburo, mas foi mantido enquanto outros membros seniores do Partido, como Li Lisan e Qu Qiubai, foram removidos. Como Mao posteriormente reconheceu, Mif entendeu que os serviços de Zhou como líder do partido eram indispensáveis, e que ele cooperaria voluntariamente com quem quer que estivesse detendo o poder.[2]

Estabelecimento das atividades clandestinasEditar

Após chegar em Xangai em 1929, Zhou começou a trabalhar de forma clandestina, estabelecendo e supervisionando uma rede de células Comunistas independentes. O maior perigo que Zhou enfrentou em seu trabalho clandestino foi a ameaça de ser descoberto pela polícia secreta do Kuomintang que foi estabelecida em 1928 com a missão específica de identificar e eliminar Comunistas. Como forma de não ser descoberto, Zhou e sua esposa mudavam de residência pelo menos uma vez por mês e usavam uma grande variedade de pseudônimos. Zhou frequentemente disfarçava-se como um homem de negócios, às vezes usando uma barba. Zhou teve o cuidado para que somente duas ou três pessoas soubessem do seu paradeiro. Zhou disfarçou todos os escritório urbanos do Partido, certificando-se que eles nunca compartilhassem os mesmos prédios quando na mesma cidade, e exigiu que todos os membros do Partido usassem códigos para identificar um ao outro. Zhou restringiu todas as suas reuniões para antes das 7hrs da manhã ou depois das 19hrs da noite. Zhou nunca usou transporte público, e evitou ser visto em lugares públicos.[2]

Em novembro de 1928, o Partido Comunista também estabeleceu sua própria agência de inteligência (a "seção de Serviço Especial do Comitê Central", ou "Zhongyang Teke" (chinês: 中央特科), geralmente abreviada como "Teke"), que Zhou posteriormente controlou. Os principais tenentes de Zhou foram Gu Shunzhang, que tinha laços fortes com sociedades secretas chinesas e tornou-se um membro suplente do Politburo, e Xiang Zhongfa. A Teke possuía quatro seções operacionais: uma para proteção e segurança dos membros do Partido; uma para coleta de informações; uma para facilitação de comunicação interna; e uma para conduzir assassinatos, um time que tornou-se conhecido como "Esquadrão Vermelho" (红队).[2]

A principal preocupação de Zhou na administração da Teke foi estabelecer uma efetiva rede antiespionagem dentro da polícia secreta do Kuomintang. Dentro de um curto período de tempo, o líder da Teke, Chen Geng, conseguiu plantar uma ampla rede de infiltrados dentro da Seção de Investigação do Departamento de Operações Central em Nanquim, que era o centro da inteligência do Kuomintang. Os três agentes mais sucedidos de Zhou na infiltração da polícia secreta do Kuomintang foram Qian Zhuangfei, Li Kenong, e Hu Di, que Zhou referiu-se como "os três trabalhadores de inteligência mais ilustres do Partido" nos anos 30. Os agentes infiltrados em vários gabinetes do Kuomintang foram posteriormente cruciais na sobrevivência do Partido Comunista, ajudando o Partido a escapar das Campanhas de Cerco de Chiang.[2]

Resposta do Kuomintang ao trabalho de inteligência de ZhouEditar

No final de abril de 1931, o Assessor Chefe para assuntos de segurança, Gu Shunzhang, foi preso pelo Kuomintang em Wuhan. Gu era um antigo organizador de trabalhadores com fortes conexões com a máfia e uma frágil ligação com o Partido Comunista. Sob ameaça de tortura pesada, Gu deu à polícia secreta do Kuomintang relatórios detalhados das organizações clandestinas do Partido Comunista em Wuhan, levando à prisão e execução de mais de dez líderes seniores dos Comunistas na cidade. Gu ofereceu-se para fornecer o Kuomintang com detalhes das atividades dos Comunistas em Xangai, mas somente se ele pudesse dar a informação diretamente a Chiang Kai-shek.[2]

Um dos agentes de Zhou trabalhando em Nanquim, Qian Zhuangfei, interceptou um telegrama solicitando mais instruções desde Nanquim sobre como proceder, e abandonou seu disfarce para advertir pessoalmente Zhou da repressão iminente. Os dois dias antes de Gu chegar em Nanquim para se encontrar com Chiang deram a Zhou tempo para evacuar os membros do Partido e para mudar os códigos de comunicação usados pela Teke, todos os quais eram conhecidos por Gu. Após encontrar brevemente Chiang, Gu chegou em Xangai e ajudou a polícia secreta do Kuomintang na invasão de escritórios e residências do Partido Comunista, capturando membros que não puderam ser evacuados a tempo. As execuções sumárias desses suspeitos de serem simpáticos aos Comunistas resultou no maior banho de sangue desde o Massacre de Xangai de 1927.[2]

A reação de Zhou à traição de Gu foi extrema. Mais de quinze membros da família de Gu, alguns dos quais trabalharam para a Teke, foi assassinados pelo Esquadrão Vermelho e enterrados em áreas residenciais tranquilas de Xangai. O Esquadrão Vermelho então assassinou Wang Bing, uma liderança da polícia secreta do Kuomintang que era conhecido por andar por Xangai em riquixás, sem a proteção de guarda-costas. A maior parte dos membros sobreviventes do Partido Comunista foram transferidos para a base Comunista em Jiangxi. Como a maioria do pessoal sênior foi exposto por Gu, muitos de seus melhores agentes também foram transferidos. O assistente mais qualificado de Zhou, não ainda sob suspeita, Pan Hannian, tornou-se diretor da Teke.[2]

Na noite anterior à sua saída de Xangai em junho de 1931, Xiang Zhongfa, que era uma dos agentes mais experientes de Zhou, decidiu passar a noite em um hotel com sua amante, ignorando os alteras de Zhou sobre o perigo. Na manhã, um informante do Kuomintang que estava seguindo Xiang avistou-o quando ele estava saindo do hotel. Xiang foi imediatamente capturado e preso na Concessão Francesa. Zhou tentou evitar a esperada extradição de Xiang para a China controlada pelo Kuomintang mandando seus agentes subornarem o chefe da polícia na Concessão, mas as autoridades do Kuomintang recorreram diretamente às autoridades da região, assegurando que o chefe da polícia não pudesse intervir. Zhou esperava que Xiang fosse transferido para Nanquim, dando a ele uma oportunidade de sequestrá-lo, mas também não deu em nada. A Concessão Francesa concordou em transferir Xiang para a Sede da Guarnição de Xangai, sob o comando do General Xiong Shihui, que submeteu Xiang à tortura e interrogatório implacáveis. Uma vez convencido de que Xiang havia dado aos torturadores toda a informação que ele requisitou, Chiang Kai-shek ordenou que Xiang fosse executado.[2]

Mais tarde, Zhou conseguiu comprar secretamente uma cópia dos registros do interrogatório de Xiang. Os registros mostraram que Xiang havia divulgado tudo para as autoridades do Kuomintang antes de sua execução, incluindo a localização da residência de Zhou. Mais uma rodada de prisões e execuções se deu após a captura de Xiang, mas Zhou e sua esposa escaparam da captura já que abandonaram seu apartamento na manhã da prisão de Xiang. Após estabelecer um novo Comitê Permanente do Politburo em Xangai, Zhou e sua esposa foram realocados para a base Comunista em Jiangxi perto do fim de 1931.[2] No momento em que Zhou deixou Xangai, ele já era um dos homens mais procurados na China.[2]

O Soviete de JiangxiEditar

 Ver artigo principal: Soviéte de Jiangxi

Após o fracasso das revoltas de Nanchang e da Colheita de Outono de 1927, os Comunistas começaram a focar em estabelecer uma série de bases rurais de operação no sul da China. Mesmo antes de ir para Jiangxi, Zhou envolveu-se nas políticas dessas bases. Mao, afirmando a necessidade de eliminar agentes contrarrevolucionários e anti-Bolcheviques no interior do Partido, dá início a um expurgo ideológico da população do soviete de Jiangxi. Zhou, talvez devido a seu próprio sucesso em plantar infiltrados em vários níveis do Kuomintang, concordou que uma campanha organizada para relevar elementos de subversão era justificada, e apoiou a campanha como líder de facto do Partido Comunista[2].

Os esforços de Mao logo desenvolveram-se em uma implacável campanha orientada por um sentimento de paranoia e destinada não somente a encontrar espiões dos Nacionalistas, mas qualquer um com uma visão ideológica discordante da de Mao. Suspeitos eram geralmente torturados até que eles confessassem seus crimes e acusassem outros de crimes, e esposas e parentes que eram indagados sobre aqueles que estavam sendo torturados foram presos e torturados ainda mais severamente. A tentativa de Mao de purgar o Exército Vermelho daqueles que potencialmente representavam uma ameaça a ele, levaram-no a acusar Chen Yi, o comandante e comissário político da Região Militar de Jiangxi, de ser contrarrevolucionário, provocando uma violenta reação contra as perseguições de Mao que ficaram conhecidas como o "Incidente de Futian" de janeiro de 1931. Mao acabou tendo sucesso em subjugar o Exército Vermelho, reduzindo seu número de quarenta mil para dez mil combatentes. A campanha continuou durante 1930 e 1931. Historiadores estimam que o número total de mortes durante a campanha de perseguição de Mao em todas as áreas base é de aproximadamente cem mil.

A campanha toda ocorreu enquanto Zhou ainda estava em Xangai. Embora apoiasse a eliminação de contrarrevolucionários, Zhou ativamente suprimiu a campanha quando chegou em Jiangxi em dezembro de 1931, criticando os "excessos, o pânico, e a simplificação excessiva" dos fatos praticada pelos oficiais locais. Após investigar aqueles que foram acusados de anti-Bolchevismo, e aqueles que os perseguiam, Zhou emitiu um relatório criticando a campanha por focar na perseguição restrita de anti-Maoistas como sendo anti-Bolchevistas, exagerando a ameaça para o Partido e condenando o uso de tortura como uma técnica de investigação. A resolução de Zhou passou e foi adotada em 7 de janeiro de 1932, e a campanha gradualmente diminuiu.[2]

Zhou mudou-se para a área base de Jiangxi e sacudiu a abordagem orientada à propaganda para a revolução exigindo que as forças armadas sob controle Comunista realmente fossem usadas para expandir a base, ao invés de somente controlá-la e defendê-la. Em dezembro de 1931, Zhou substituiu Mao Zedong como Secretário do Primeiro Exército de Frente com Xiang Ying, e fez de si comissário político do Exército Vermelho, no lugar de Mao. Liu Bocheng, Lin Biao e Peng Dehuai criticaram todos as táticas de Mao na Conferência de Outubro de 1932 de Ningdu.[14][15] Após mudar para Jiangxi, Zhou se encontrou com Mao pela primeira vez desde 1927, e começou sua longa relação com Mao como seu superior. Na conferência de Ningdu, Mao foi rebaixado de ser uma figura de liderança no governo do Soviete. Zhou, que passou a apreciar as estratégias de Mao após uma série de fracassos militares liderados por outros líderes do Partido desde 1927, defendeu Mao, mas não obteve sucesso. Após alcançar poder, Mao posteriormente expurgou ou rebaixou aqueles que se opuseram a ele em 1932, mas lembrou-se da defesa que Zhou dez de suas políticas.[2]

As Campanhas de Cerco de ChiangEditar

 Ver artigo principal: Campanhas de Cerco

No início de 1933, Bo Gu chegou com Otto Braun, assessor alemão da Comintern, e assumiu o controle das tarefas do partido. Durante esse período, Zhou, aparentemente com forte apoio do Partido e de colegas militares, reorganizou e uniformizou o Exército Vermelho. Sob o comando de Zhou, Bo e Braun, o Exército Vermelho derrotou quatro ataques das tropas Nacionalistas de Chiang Kai-shek.[16] A estrutura militar que levou os Comunistas à vitória foi:

Líderes Designação da Unidade
Lin Biao, Nie Rongzhen 1º Corpo
Peng Dehuai, Yang Shangkun 3º Corpo
Xiao Jinguang 7º Corpo
Xiao Ke 8º Corpo
Luo Binghui 9º Corpo
Fang Zhimin 10º Corpo

A quinta campanha de Chiang, iniciada em setembro de 1933, foi muito mais difícil de conter. O novo uso de Chiang das "táticas de blocausse" e um número maior de de tropas permitiram que o exército avançasse firmemente em território Comunista, obtendo sucesso na conquista de vários redutos importantes dos Comunistas. Bo Gu e Otto Braun adotaram táticas ortodoxas para responder Chiang, e Zhou, embora pessoalmente se opusesse a elas, foi responsável por dirigi-las. Após a derrota subsequente, ele e outros líderes militares foram responsabilizados.[2]

Embora a abordagem militar cautelosa de Zhou tenha sido desacreditada pelos mais linha-duras, ele foi mais uma vez nomeado para a posição de vice-presidente da Comissão Militar. Zhou foi aceito como líder principalmente por causa de sua habilidade organizacional e devoção ao trabalho, e também por nunca ter demonstrado a ambição de perseguir o poder absoluto dentro do Partido. Dentro de meses, a continuidade das táticas ortodoxas de Bo e Braun levou a uma derrota séria para o Exército Vermelho, e forçou os líderes do Partido Comunista a considerar seriamente abandonar suas bases em Jiangxi.[2]

A Longa MarchaEditar

 Ver artigo principal: Grande Marcha

Após anunciar a decisão de abandonar Jiangxi, Zhou foi encarregado de organizar e supervisionar a logística da retirada dos Comunistas. Planejando tudo em segredo absoluto e esperando até o último momento para informar até mesmo líderes seniores a respeito dos movimentos do grupo, o objetivo de Zhou era romper o cerco inimigo com o mínimo de baixas possível, e antes que as forças de Chiang fossem hábeis a completar a ocupação das bases Comunistas. Não é conhecido qual critério foi usado para determinar quem ficaria e quem deveria ir, mas 16 mil tropas e alguns dos mais notáveis comandantes Comunistas daquele tempo (incluindo Xiang Ying, Chen Yi, Tan Zhenlin e Qu Qiubai) foram deixados para formar uma retaguarda para desviar as forças das tropas Nacionalistas de notar a retirada dos Comunistas.[2]

A retirada de 84 mil soldados e civis começou no início de outubro de 1934. Os agente de inteligência de Zhou foram bem-sucedidos em identificar uma larga seção das linhas de blocausse de Chiang que eram mantidas por tropas do General Chen Jitang, um senhor de guerra de Cantão que Zhou identificou como sendo favorável a preservar a força de suas tropas ao invés de entrar em combate. Zhou mandou Pan Hannian para negociar uma passagem segura com Chen, que posteriormente permitiu que o Exército Vermelho passasse sem qualquer conflito pelo território que ele controlava.[2]

Após passar por três das quatro fortificações necessárias para escapar dos cercos de Chiang, o Exército Vermelho foi finalmente interceptado por tropas Nacionalistas, sofrendo altas perdas. Dos 86 mil Comunistas que tentaram sair de Jiangxi, somente 36 mil escaparam com sucesso. Essa perda foi responsável por desmoralizar alguns líderes Comunistas (particularmente Bo Gu e Otto Braun), mas Zhou permaneceu calmo e manteve seu comando.[2]

Durante a subsequente Longa Marcha dos Comunistas, houveram diversas disputas no alto nível pela direção que os Comunistas deveriam tomar, assim como sobre as causas das derrotas do Exército Vermelho. Após as lutas de poder que se seguiram Zhou consistentemente apoiou Mao Zedong contra os interesses de Bo Gu e Otto Braun. Bo e Braun foram posteriormente considerados culpados pelas derrotas do Exército Vermelho, e foram eventualmente removidos de suas posições de liderança. Os Comunistas eventualmente conseguiram restabelecer uma base no norte de Shaanxi em 20 de outubro de 1935, chegando com somente 8.000–9.000 membros remanescente.[2]

A posição de Zhou no Partido Comunista mudou diversas vezes durante a Longa Marcha. Por volta do começo dos anos 1930, Zhou era reconhecido como o líder de facto do partido, e exerceu influência superior sobre outros membros mesmo quando dividia o poder com Bo e Braun.[2] Nos meses após a Conferência de Zunyi de 1935, onde Bo e Braun foram removidos de suas posições sênior, Zhou manteve sua posição principalmente porque ele demonstrou vontade de mostras responsabilidade, já que suas táticas em derrotar a Quarta Campanha de Cerco de Chiang foram reconhecidas como bem sucedidas, e porque apoiou Mao Zedong, qua estava ganhando influência dentro do Partido: após a Conferência de Zunyi, Mao passou a ser assistente de Zhou. Após os Comunistas chegarem a Shaanxi e completarem a Longa Marcha, Mao oficialmente assumiu a posição de liderança de Zhou, enquanto Zhou assumiu uma posição secundária como vice-presidente. Mao e Zhou mantiveram suas posições no Partido Comunistas da China até suas mortes de 1976.[2]

O Incidente de XiamEditar

 Ver artigo principal: Incidente de Xi’an
 
Zhou com o general Comunista Ye Jianying (esquerda) e o oficial do Kuomintang Zhang Zhong (centro) em Xiam em 1937, ilustrando a aliança entre os dois partidos que foi resultado do Incidente de Xiam

Durante o sétimo congresso da Internacional Comunista, realizado em agosto de 1936, Wang Ming emitiu um manifesto antifascista, indicando que a política anterior do Partido Comunista da China de "opor-se a Chiang Kai-shek e resistir ao Japão" seria substituída por uma política de "unir-se a Chiang Kai-shek para resistir ao Japão". Zhou foi instrumental em levar adiante essa política. Zhou fez contato com um dos comandantes mais veteranos do Kuomintang no noroeste, Zhang Xueliang. Por volta de 1935, Zhang era bastante conhecido por seus sentimentos antijaponeses e sua dúvidas em relação à vontade de Chiang em se opor aos japoneses. A disposição de Zhang o fez facilmente influenciado pelas indicações de Zhou de que o partido Comunista iria cooperar na luta contra os japoneses.[2]

Zhou estabeleceu um "comitê de trabalho do nordeste" para o propósito de promover a cooperação com Zhang. O comitê trabalhou para persuadir a Exército do Nordeste de Zhang a unir-se com o Exército Vermelho para lutar contra o Japão e retomar a Manchúria. O comitê também criou novos slogans patrióticos, incluindo o "chinês não deve lutar contra chinês", para promover os objetivos de Zhou. Usando sua rede de contatos secretos, Zhou marcou uma reunião com Zhang em Yan'an, então controlada pelo "Exército do Nordeste" de Zhang.[2]

A primeira reunião entre Zhou e Zhang ocorreu dentro de uma igreja em 7 de abril de 1936. Zhang mostrou grande interesse em encerrar a guerra civil, unir o país, e lutar contra os japoneses, mas alertou que Chiang estava firmemente no controle do governo nacional, e que esses objetivos seriam difíceis de perseguir sem a cooperação de Chiang. Os dois partidos terminaram sua reunião com um acordo para encontrar uma forma de trabalhar secretamente em conjunto. No mesmo tempo que Zhou estava estabelecendo contatos secretos com Zhang, as suspeitas de Chiang em relação a Zhang cresciam, e ele ficava cada vez mais insatisfeito com a inação de Zhang contra os Comunistas. Como forma de enganar Chiang, Zhou e Zhang implantaram unidades militarem simuladas como forma de dar a impressão de que o Exército do Nordeste e o Exército Vermelho estavam engajados em batalha.[2]

Em dezembro de 1936, Chiang Kai-shek voou para a base dos Nacionalistas em Xiam como forma de testar a lealdade das forças militares locais do Kuomintang sob o Marechal Zhang Xueliang, e para pessoalmente liderar essas forças em um ataque final nas bases Comunistas em Xianxim, que Zhang recebeu ordens de destruir. Determinado a forçar Chiang a dirigir as forças da China contra os japoneses (que haviam tomado o território de Zhang na Manchúria e estavam preparando uma invasão das fronteiras), em 12 de dezembro, Zhang e seus seguidores invadiram a base de Chiang, mataram a maioria de seus guarda-costas, e prenderam o Generalíssimo no que ficou conhecido como o Incidente de Xiam.[13]

ReferênciasEditar

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