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Zhou Enlai

Primeiro-ministro da República Popular da China
Este é um nome chinês; o nome de família é Zhou (周).
Zhou Enlai
周恩来
Zhou Enlai
Primeiro-Ministro da República Popular da China China
Período 1 de outubro de 1949 a

8 de janeiro de 1976

Presidente Mao Zedong (até 1959)

Liu Shaoqi (até 1968)
cargo vago após 1968

Sucessor Hua Guofeng
Ministro de Relações Exteriores da China
Período 1 de outubro de 1949 a

11 de fevereiro de 1958

Primeiro-Ministro Ele mesmo
Sucessor Chen Yi
Vice-Presidente do Partido Comunista da China
Período 28 de setembro de 1956 a

1 de agosto de 1966

Presidente Mao Zedong
Presidente do Comitê Nacional da Conferência Consultiva Política do Povo Chinês
Período Dezembro de 1954 a

8 de janeiro de 1976

Presidente Honorário Mao Zedong
Antecessor Mao Zedong
Sucessor Deng Xiaoping
Vice-Presidente do Partido Comunista da China
Período 30 de agosto de 1973 a

8 de janeiro de 1976

Presidente Mao Zedong
Antecessor Lin Biao
Sucessor Hua Guofeng
Dados pessoais
Nascimento 5 de março de 1898
Huai'an, Jiangsu, Império QingDinastia Qing
Morte 8 de janeiro de 1976 (77 anos)
Pequim, República Popular da ChinaChina
Nacionalidade Chinês
Alma mater Universidade de Nankai
Cônjuge Deng Yingchao (de 1925 a 1976)
Filhos Sun Weishi e Wang Shu (ambos adotados)
Partido Partido Comunista da China
Ocupação Político, Estrategista, Revolucionário e Diplomata
Assinatura Assinatura de Zhou Enlai
Serviço militar
Batalhas/guerras Campanhas Orientais

Revolta de Nanchang Campanhas de Cerco Segunda Guerra Sino-Japonesa
Guerra Civil Chinesa

Zhou Enlai

Zhou Enlai (Chinese characters).svg

"Zhou Enlai" em chinês simplificado (cima) e em chinês tradicional (baixo)
Chinês tradicional: 周恩來
Chinês simplificado: 周恩来
Nome de cortesia
Chinês: 翔宇

(artigo em construção)

Zhou Enlai (Chinês: 周恩来; pinyin: Zhōu Ēn lái; por vezes escrito Xu Enlai, Zhou Enlai ou ainda Tcheu Ngen-Lai; 5 de março de 18988 de janeiro de 1976) foi o primeiro primeiro-ministro da China, atuando como chefe de governo entre outubro de 1949 e janeiro de 1976, quando veio a falecer. Foi um proeminente líder do Partido Comunista Chinês, sendo uma das figuras mais próximas do Presidente Mao Zedong e personagem crucial na ascensão e consolidação do Partido Comunista no poder.

Hábil diplomata, serviu como Ministro de Relações Exteriores da China de 1949 a 1958. Defendendo uma coexistência pacífica com o ocidente após o impasse da Guerra da Coréia, participou da Conferência de Genebra de 1954 e da Conferência de Bandung em 1955, ajudando a orquestrar a visita de Richard Nixon à China em 1972. Também teve importante papel na relação com países como Índia, Vietnam, União Soviética, Taiwan e Estados Unidos.

Zhou foi um dos altos oficiais do Partido que sobreviveram aos expurgos ocorridos durante a Grande Revolução Cultural Proletária. Nesse sentido, enquanto Mao dedicou os últimos anos de sua vida à luta política e ao trabalho ideológico, Zhou foi a figura que lidou com as questões mais administrativas e burocráticas do Estado. Sua tentativa de mitigar os danos causados pela Guarda Vermelha e os esforços para proteger as pessoas dos excessos cometidos, fizeram dele uma figura extremamente popular nos anos finais da Revolução Cultural.

Com o declínio da saúde de Mao a partir de 1971 e com a morte de Lin Biao, Zhou foi eleito Vice-presidente do Partido Comunista pelo 10º Comitê Central em 1973 e assim designado para ser o sucessor de Mao, mas ainda assim continuou numa luta interna contra a Camarilha dos Quatro pela liderança da China. Sua última grande aparição pública foi na primeira reunião do 4º Congresso Nacional Popular em 13 de janeiro de 1975, onde apresentou um relatório dos trabalhos do governo. Depois disso, retirou-se para cuidar da saúde, morrendo no ano seguinte. A enorme manifestação de luto que ocorreu em Pequim transformou-se num movimento de ódio à Camarilha dos Quatro, o que levou ao Incidente de Tiananmen de 1976.

Índice

BiografiaEditar

JuventudeEditar

Zhou Enlai nasceu em Huai'an, na província de Jiangsu, no dia 5 de março de 1898, sendo o primeiro filho desse ramo da família Zhou. A família Zhou era originalmente de Shaoxing, Zhejiang. Durante o final da Dinastia Qing, Shaoxing era conhecida por ser o lar de famílias como a Zhou, cujos membros trabalhavam como funcionários do governo (師爷, shiye) geração após geração.[1] Para subir na hierarquia do serviço público, os homens dessas famílias eram frequentemente transferidos, e nos últimos anos da dinastia Qing o ramo de Zhou Enlai da família mudou-se para Huai'an. Mesmo após a mudança, a família continuou a ver Shaoxing como seu lar ancestral.[1]

O avô de Zhou, Zhou Panlong, e seu tio-avô, Zhou Jun'ang, foram os primeiros membros da família que se mudaram para Huai'an. Panlong aparentemente passou nos exames provinciais e Zhou Enlai depois afirmou que ele serviu como magistrado do condado de Huai'an[1]. O pai de Zhou, Zhou Yineng, foi o segundo dos quatro filhos de Zhou Panlong. A mãe biológica de Zhou, de sobrenome "Wan", era filha de um proeminente oficial de Jiangsu.[2]

Como muitos outros, a fortuna econômica da numerosa família de oficiais eruditos Zhou foi dizimada pela grande recessão econômica que a China sofreu no final do século XIX. Seu pai tinha uma reputação de honestidade, ternura, inteligência e preocupação com os outros, mas era também considerado "fraco" e com "falta de disciplina e determinação". Foi mal sucedido em sua vida pessoal e percorreu por toda a China exercendo as mais diversas ocupações, trabalhando em Pequim, Shandong, Anhui, Shenyang, Mongolia Interior e Sichuan. Zhou Enlai afirmou posteriormente que suas lembranças do pai eram de alguém estando sempre distante de casa e com dificuldades para sustentar a família.[2]

Pouco após nascer, Zhou Enlai foi adotado pelo irmão mais novo de seu pai, Zhou Yigan, que possuía tuberculose. Aparentemente a adoção foi arranjada porque a família temia que Yigan morresse sem um herdeiro.[3][1] A tuberculose levou Yigan à morte pouco após a adoção, e Zhou Enlai acabou sendo criado pela viúva de Yigan, cujo sobrenome era "Chen". A senhora Chen também era de uma família erudita e recebeu uma educação literária tradicional, e de acordo com a explicação do próprio Zhou, seu grande interesse por literatura chinesa e opera ocorreu por conta de sua relação próxima com ela. A Madame Chen ensinou Zhou a ler e escrever bastante cedo, e Zhou afirmou que leu o famoso romance Jornada ao Oeste com apenas seis anos[1]. Aos oito anos, ele leu outros romances clássicos chineses, tais como Margem da Água, Romance dos Três Reinos e o O Sonho da Câmara Vermelha.[2]

A mãe biológica de Zhou, Wan, morreu em 1907 quando Zhou tinha somente nove anos, e sua mão adotiva, Chen, morreu em 1908 quando Zhou tinha dez anos. Seu pai estava trabalhando em Hubei, longe de Jiangsu, então Zhou e seus dois irmãos mais novos voltaram para Huai'an e viveram com o irmão mais novo de seu pai, Yikui, pelos próximos dois anos.[1] Em 1910 seu tio Yigeng, o irmão mais velho de seu pai, se ofereceu para cuidar de Zhou. A família em Huai'an concordou, e ele foi enviado para ficar com seu tio na Manchúria, onde Zhou Yigeng trabalhava como um oficial do governo.[1]

EducaçãoEditar

Sua educação prévia foi feita inteiramente por meio de ensino doméstico, mas em Shenyang, Zhou frequentou a Dongguan Model Academy, uma escola cujo estilo era considerado mais moderno do que as demais. Lá, além de novos assuntos como Inglês e ciências, Zhou também foi exposto aos escritos de autores reformistas e radicais como Liang Qichao, Kang Youwei, Chen Tianhua, Zou Rong e Zhang Binglin[1][2]. Aos catorze anos, Zhou declarou que o que motivava sua educação era o objetivo de "tornar-se um grande homem que assumirá as grandes responsabilidades do país no futuro".[2] Em 1913, o tio de Zhou foi transferido para Tianjin, onde Zhou ingressou na famosa Nankai Middle School.

A Nankai Middle School foi fundada por Yan Xiu, um proeminente estudioso e filantropo, e liderada por Zhang Boling, um dos educadores chineses mais importantes do século XX[4]. Os métodos de ensino da Nankai eram incomuns para os padrões chineses contemporâneos. No período em que Zhou começou a frequentá-la, a escola havia adotado o modelo educacional usado na Phillips Academy, dos Estados Unidos[1]. A reputação da escola, com sua rotina diária "altamente disciplinada" e um "código moral rigoroso", atraiu muitos estudantes que posteriormente se tornariam proeminentes na vida pública. Entre os amigos de Zhou e seus colegas de classe estavam desde Ma Jun (futuro líder comunista, tendo sido executado em 1927) e Wu Kuo-Chen (futuro prefeito de Xangai e governador de Taiwan. Membro do Partido Nacionalista)[1]. Os talentos de Zhou também chamaram a atenção de Yan Xiu e Zhang Boling, em especial de Yan, que investiu alto em Zhou e o ajudou a pagar por seus estudos no Japão e na França[1]

Yan estava tão impressionado que o encorajou a casar-se com sua filha, mas ele recusou. Mais tarde, Zhou descreveu para um

colega de classe, Zhang Honghao, o que motivou a sua recusa: temia que suas perspectivas financeiras não fossem promissoras, e que Yan, como seu sogro, acabaria dominando sua vida.[2]

Zhou saiu-se muito bem em seus estudos na Nankai: destacou-se em Chinês, ganhou diversos prêmio no clube de discursos e tornou-se editor do jornal da escola em seu último ano. Também foi muito ativo atuando e produzindo dramas e peças de teatro; muitos estudantes que não estavam familiarizados com ele o conheciam por conta de sua atuação.[1] Sua participação em debates e performances de palco contribuíram para sua eloquência e habilidades de persuasão. Em junho de 1917 foi um dos cinco alunos de graduação honrados na cerimônia de início da aulas e um dos dois oradores.[1]

No período em que se graduou em Nankai, os ensinamentos de Zhang Boling a respeito dos conceitos de gong (espírito público) e neng (habilidade) causaram-lhe uma grande impressão. Zhou deixou Nankai com um grande desejo de ingressar no serviço público e para isso adquirir as habilidades necessárias para tal.[2]

Nankai ainda preserva uma série de ensaios e artigos escritos por Zhou Enlai naquele período, e estes refletem a disciplina, o treinamento e a preocupação com o país que os fundadores de Nankai tentaram incutir em seus alunos.

Seguindo muitos de seus colegas de sala, Zhou foi para o Japão em julho de 1917 para realizar estudos complementares. Durante seus dois anos no Japão, Zhou passou a maior parte do tempo na Escola Superior Preparatória do Leste Asiático (East Asian Higher Preparatory School), uma escola de idiomas para estudantes chineses. Os estudos de Zhou foram financiados por seus tios, e aparentemente também pelo fundador da Nankai, Yan Xiu. Seus fundos, no entanto, eram limitados, e durante esse período o Japão sofreu uma inflação severa.[1] Zhou originalmente planejava ganhar uma das bolsas de estudo que eram oferecidas pelo governo chinês; essas bolsas, no entanto, exigiam que estudantes chineses passassem em exames de admissão nas universidades japonesas. Zhou fez tais exames em pelo menos duas escolas, mas não conseguiu a admissão.[1]

As crises de ansiedades que possuia foram agravadas pela morte de seu tio, Zhou Yikui, sua incapacidade de dominar o a língua japonesa e o grande chauvinismo cultural japonês que discriminava os chineses. Na época em que retornou à China, na primavera de 1919, estava profundamente desencantado com a cultura japonesa, rejeitando a ideia de que o modelo político japonês era relevante para a China e desprezando os valores de elitismo e militarismo que lá ele observara.[2]

Os diários de Zhou e as cartas do tempo em que esteve em Tóquio mostram um profundo interesse por política e atualidades, em particular, pela Revolusão Russa de 1917 e pelas novas políticas realizadas pelos Bolcheviques. Assim, Começou a ler avidamente a revista progressista e de orientação à esquerda New Youth (Xin Qingnian)[2], escrita por Chen Duxiu, intelectual comunista chinês e um dos fundadores do Partido Comunista da China. Provavelmente leu também alguns dos primeiros trabalhos japoneses sobre Marx, assim como especula-se que assistiu às apresentações de Kawakami Hajime (economista marxista japonês) na Universidade de Kyoto, mas não consenso quanto a isso. Kawakami foi uma importante figura no início da história do marxismo no Japão, e suas traduções e artigos influenciaram uma geração de comunistas chineses[4]. Os diários de Zhou também mostram sua inquietação com as manifestações de estudantes chineses no Japão em maio de 1918, quando o governo chinês não lhes enviou as bolsas de estudo. De todo modo, nada indica que ele estivesse envolvido de forma profunda nesses movimentos. Seu papel verdadeiramente ativo nos movimentos políticos começa após seu retorno à China.

Primeiras atividades políticasEditar

 
Um jovem Zhou Enlai (1919)

Zhou retornou para Tianjin na primavera de 1919. Os historiadores divergem quanto a sua participação no Movimento Quatro de Maio. A biografia chinesa "oficial" afirma que ele atuou como líder dos protestos estudantis em Tianjin[2], mas muitos estudiosos acreditam que isso seja muito improvável baseado na completa ausência de evidências diretas sobre o período[2][1] Em julho de 1919, de todo modo, Zhou tornou-se editor do jornal Tianjin xuesheng lianhe huibao (Boletim da União dos Estudantes de Tianjin), aparentemente por pedido de seu colega de classe, Ma Jun, um dos fundadores da União.[1] Durante sua breve existência (julho de 1919 - início de 1920), o jornal foi amplamente lido por grupos de estudantes em todo o país, alcançando uma tiragem de mais de 20 mil exemplares e sendo reprimido pelo menos uma vez pelo governo por ser "prejudicial à segurança pública e à ordem social".[1]

Em agosto de 1919, quando a Nankai tornou-se uma universidade, Zhou estava na primeira turma, mas já era um ativista em tempo integral. Suas atividades políticas continuaram a se expandir, e em setembro ele e outros estudantes decidiram estabelecer a Huànxǐng shèhuì (Sociedade Despertando). Esse pequeno grupo, nunca maior do que 25 membros[1], foi definido por Zhou da seguinte forma: "tudo o que é incompatível com o progresso dos tempos atuais, como o militarismo, a burguesia, lideranças partidárias, burocratas, desigualdade entre homem e mulher, fanatismo, moral obsoleta, ética antiquada... tudo isso deve ser abolido ou reformado" e que o propósito da Sociedade era disseminar essa consciência entre o povo chinês. Foi na Sociedade que Zhou conheceu sua futura esposa, Deng Yingchao[2]. De certa forma, a Sociedade Despertando era parecida com o grupo clamdestino de estudos marxistas Universidade de Pequim, chefiado por Li Dazhao, com os membros do grupo usando números no lugar dos nomes como forma de garantir certo "sigilo" (Zhou era o "Número Cinco", um pseudônimo que continuou a usar nos anos seguintes).[1]

Imediatamente após o grupo ter sido estabelecido, Li Dazhao foi convidado para dar uma palestra sobre marxismo. Zhou assumiu um papel mais proeminente nas atividades políticas com o passar dos meses[1], sendo a maior dessas atividades uma manifestação de apoio a um boicote nacional contra produtos japoneses. Conforme o boicote foi se tornando mais efetivo, o governo nacional, sob pressão do Japão, buscou suprimi-lo. Em janeiro de 1920, um confronto com algumas manifestações de boicote em Tianjin levou diversas pessoas para a prisão, incluindo alguns membros da Sociedade Despertando. Em 29 de janeiro, Zhou liderou uma marcha até o escritório do governador em Tianjin para entregar uma petição que pedia a libertação dos presos, mas ele e outras três lideranças foram presas. Os presos permaneceram na prisão por mais de seis meses; durante esse tempo Zhou teria organizado algumas discussões sobre marxismo.[1] Em seu julgamento em julho, Zhou e seis outros foram condenados a dois meses; os demais foram considerados inocentes. Todos foram imediatamente libertados, uma vez que já tinham permanecido presos por seis meses. Após sua libertação, ele e a Sociedade se reuniram com várias organizações e concordaram em estabelecer uma "Federação Reformista"; durante essas atividades Zhou tornou-se mais próximo de Li Dazhao e conheceu Zhang Shenfu, que era o contato entre Li em Pequim e Chen Duxiu em Xangai. Ambos estavam organizando células comunistas secretas em cooperação com Grigori Voitinsky, um agente da Internacional Comunista[5].

Pouco após sua soltura, Zhou decidiu ir para a Europa estudar, tendo em vista que havia sido expulso da Universidade de Nankai durante sua detenção. Por mais que dinheiro fosse um problema, ele recebeu uma bolsa de estudos de Yan Xiu.[1] Como formar de conseguir mais dinheiro, ele contatou um jornal de Tianjin (chamado "Yishi bao") e assinou um acordo para trabalhar como "correspondente estrangeiro" na Europa. Assim, partiu de Xangai em 7 de novembro de 1929, junto com um grupo de 196 estudantes, entre eles amigos de Nankai e Tianjin.[2]

As experiências de Zhou após o Movimento Quatro de Maio parecem ter sido cruciais para sua carreira como comunista. Seus amigos da Sociedade Despertando também foram afetados pelo evento, sendo que quinze membros desse grupo tornaram-se comunistas por pelos menos durante um tempo. Zhou e seis outros membros do grupo viajaram para a Europa nos dois anos seguintes, e Zhou depois acabou se casando com Deng Yingchao, a mais jovem do grupo.

Atividades na EuropaEditar

O grupo de Zhou chegou em Marselha em 13 de dezembro de 1920. Diferente da maiorias dos estudantes chineses, que viajavam para a Europa em programas de trabalho-estudo, a bolsa de estudos e o acordo de Zhou com oYishi bao significavam que ele estava com boas provisões e não precisaria trabalhar durante sua estadia. Por causa de sua posição financeira, ele foi capaz de dedicar-se em tempo integral às atividades revolucionárias.[2] Em uma carta para seu primo em 30 de janeiro de 1921, Zhou afirmou que seus objetivos na Europa eram pesquisar as condições sociais nos países estrangeiros e seus métodos de resolução de problemas sociais, como forma de aplicar essas lições na China após seu retorno. Na mesma carta, Zhou afirmou, a respeito da adoção de uma ideologia específica, "eu ainda preciso me decidir."[2]

Enquanto esteve na Europa, Zhou, também nomeado como John Knight, estudou as diferentes abordagens para a resolução do conflito de classes adotadas por vários países europeus. Em Londres, em janeiro 1921, Zhou testemunhou uma grande greve dos mineiros e escreveu uma série de artigos para o Yishi bao (em geral simpáticos aos mineiros) examinando o conflito entre trabalhadores e empregadores, e a resolução do conflito. Após cinco semanas em Londres ele se mudou-se para Paris, onde seu interesse na Revolução Russa de 1917 cresceu. Em uma carta para seu sobrinho, Zhou identificou dois caminhos gerais de reforma para a China: "reformas graduais" (como na Inglaterra) ou por "meios violentos" (como na Rússia). Zhou escreveu que "Eu não tenho uma preferência pela forma russa ou inglesa... eu preferiria algo intermediário ao invés de um desses dois extremos".[2]

Ainda interessado em programas acadêmicos, Zhou viajou para a Grã-Bretanha para visitar a Universidade de Edimburgo. Preocupado com problemas financeiros e exigências linguísticas, ele não se inscreveu, retornando à França no final de janeiro. Não há registros de Zhou entrando em qualquer programa acadêmico na França. Na primavera de 1921, ele juntou-se a uma célula dos Comunistas Chineses.[3] Zhou foi recrutado por Zhang Shenfu, que ele conheceu em agosto do ano anterior em um encontro com Li Dazhao. Ele também conheceu Zhang através de sua esposa, Liu Qingyang, membro da Sociedade Despertando. Zhou às vezes tem sido retratado neste período como alguém incerto em sua política[3], mas sua transição rápida para o comunismo sugere o contrário.[6]

A célula que Zhou pertenceu era baseada em Paris;[7] além de Zhou, Zhang, e Liu também incluía mais dois estudantes, Zhao Shiyan e Chen Gongpei. Pelos próximos dez meses, esse grupo este grupo acabou formando uma organização em conjunto com um grupo de chineses radicais de Hunan que estavam morando em Montargis, ao sul da França. Esse grupo incluiu figuras que posteriormente seriam posteriores, como Cai Hesen, Chen Yi, Nie Rongzhen, Deng Xiaoping e também Guo Longzhen, outro membro da Sociedade Despertando. Diferente de Zhou, a maioria dos estudantes nesse grupo eram participantes do programa de estudo-trabalho. Uma série de conflitos com os administradores chineses do programa, por causa dos baixos salários e das precárias condições de trabalho, resultaram em mais de cem estudantes ocupando os escritórios do programa no Instituto Sino-Francês em Lyon em setembro de 1921. Os estudantes, incluindo diversas pessoas do grupo de Montargis, foram presos e deportados. Zhou aparentemente não era um dos estudantes ocupantes e permaneceu na França até fevereiro ou março de 1922, quando ele se mudou com Zhang e Liu de Paris para Berlim. A mudança de Zhou para Berlim foi talvez por causa da atmosfera política relativamente "tranquila" na cidade, o que fez dela uma base mais favorável para as organização europeias.[1] Além disso, o Secretariado da Europa Ocidental do Comintern estava localizado em Berlim e é bastante claro que Zhou tinha importantes conexões com o Comintern, embora a natureza delas ainda seja contestada.[6] Depois de mudar as operações para a Alemanha, Zhou viajava regularmente entre Paris e Berlim.

Zhou voltou para Paris em junho de 1922, onde era um dos vinte e um participantes presentes na organização do Partido Comunista da Juventude Chinesa, estabelecido como a filial euroéia do Partido Comunista da China.[1] Zhou ajudou a rascunhar a carta do partido e foi eleito como um dos três membros do comitê executivo como diretor de propaganda. Ele também escreveu e ajudou a editar a revista do partido, Shaonian (Juventude), depois renomeada para Chiguang (Luz Vermelha). Foi em sua atuação como editor geral da revista que Zhou conheceu Deng Xiaoping, então com dezessete anos, que Zhou contratou para operar uma máquina de mimeógrafo.[2] O partido passou por diversas reorganizações e mudanças de nome, mas Zhou permaneceu como um membro chave do grupo durante toda a sua estada na Europa. Outras atividades importantes que Zhou assumiu incluíam recrutar e transportar estudantes para a Universidade Comunista dos Trabalhadores do Oriente, e o estabelecimento de uma filial européia do Partido Nacionalista Chinês (Kuomintang).

Em junho de 1923, o 3º Congresso do Partido Comunista da China aceitou as instruções do Comintern para se aliar com o Kuomitang, liderado nesse período por Sun Yat-sen. Essas instruções pediam que os comunistas se juntassem ao Partido Nacionalista como "indivíduos", ao passo em que mantinham sua associação com o Partido Comunista. Depois de se juntar ao Kuomitang, eles trabalharam para liderá-lo e dirigi-lo, transformando-o em um veículo para a revolução. Vários anos depois, essa estratégia se tornaria a fonte de sérios conflitos entre o os Nacionalistas e os Comunistas.[2]

Zhou não somente se juntou ao Kuomitang, mas também ajudou a organizar e fundar a filial européia do Partido Nationalista em november de 1923. Sob influência de Zhou, a maioria dos oficiais da filial europeia foram de fato comunistas. Os amplos contatos de Zhou e os relacionamentos pessoais que formou durante esse período foram centrais em sua carreira. Líderes partidários importantes, como Zhu De Nie Rongzhen, foram admitidos no partido por Zhou.

Por volta de 1924, a aliança Soviética-Nacionalista se expandiu rapidamente e Zhou foi convocado de volta à China para realizar trabalho adicional. Ele deixou a Europa provavelmente no final de julho de 1924,[1] retornando à China como um dos membros mais antigos do Partido Comunista Chinês na Europa.

Trabalho político e militar em WhampoaEditar

Estabelecimento em GuangzhouEditar

 
Chiang Kai-shek e Zhou Enlai com um grupo de cadetes na Academia Militar de Whampoa

Zhou voltou para a China no final de agosto ou início de setembro de 1924 para fazer parte do Departamento Político da Academia Militar de Whampoa, provavelmente através da influência Zhang Shenfu, que já havia trabalhado lá. As posições exatas que Zhou ocupou em Whampoa e suas datas não são claras. Alguns meses após sua chegada, possivelmente em outubro de 1924, ele se tornou vice-diretor do Departamento Político da Academia, e depois, possivelmente em november de 1924, diretor do departamento. Aindo que respondesse (tecnicamente) ao governo central, o departamento político de Zhou operou sob ordens diretas para doutrinar os cadetes de Whampoa na ideologia do Kuomitang com o objetivo de melhorar a lealdade e a moral. Enquanto serviu em Whampoa, Zhou foi também secretário do Partido Comunista de Guandong-Guangxi, e serviu como um representante do representante do partido com o posto de major-general.

A ilha de Whampoa, dezesseis quilômetros de Guangzhou, estava no coração da aliança Soviética-Nacionalista. Concebida como o centro de treinamento do Exército do Partido Nacionalista, foi para prover a base militar que os Nacionalistas lançariam sua campanha de unificação da China, que estava dividida em dezenas de "sátrapas" militares. Desde o início, a escola foi financiada, armada e parcialmente ocupada pelos soviéticos.

O Departamento Político, onde Zhou trabalhou, era responsável pela doutrinação política e controle. Como resultado, Zhou foi uma figura proeminente na maioria das reuniões da Academia, frequentemente dirigindo a escola imediatamente após o comandante Chiang Kai-shek.

Concorrente com sua nomeção em Whampoa, Zhou tornou-se secretário do Comitê Provicial de Guangdong do Partido Comunista, e em algum ponto um membro da Seção Militar do Comitê Provincial. Zhou ampliou vigorosamente a influência Comunista na Academia. Ele logo trabalhou para que um número de outros Comunistas proeminentes fizessem parte do the Departmento Político, incluindo Chen Yi, Nie Rongzhen, Yun Daiying e Xiong Xiong. Zhou teve um papel importante em estabelecer a Assossiação de Jovens Soldados, um grupo de jovens que foi dominado pelos Comunistas, e o Faíscas, um grupo Comunista que existiu por pouco tempo. Ele então recrutou vários novos membros para o Partido Comunista das fileiras de cadetes, e eventualmente montou na academia uma filial secreta do partido dirigir os novos membros. Quando nacionalistas preocupados com o crescente número de membros e organizações comunistas em Whampoa estabeleceram uma "Sociedade para o Sun Yat-senismo", Zhou tentou sufocá-la, e o conflito entre esses grupos de estudantes foi o pano de fundo para a remoção de Zhou da academia.

ReferênciasEditar

  1. a b c d e f g h i j k l m n o p q r s t u v w x y z Lee, Chae-Jin, 1936- (1994). Zhou Enlai : the early years. [S.l.]: Stanford University Press. ISBN 0804723028. OCLC 28966537 
  2. a b c d e f g h i j k l m n o p q r Barnouin, Barbara e Yu Changgen (2006). Zhou Enlai : a political life. Hong Kong: Chinese University of Hong Kong: Chinese University Press. ISBN 9629962802. OCLC 471037178. Consultado em 12 de março de 2011 
  3. a b c Gao, Wenqian, 1953- (2008). Zhou Enlai : the last perfect revolutionary. [S.l.]: PublicAffairs. ISBN 9781586486457. OCLC 191926315 
  4. a b Boorman, Howard L. Howard, Richard C. (1971). Biographical dictionary of Republican China. [S.l.]: Columbia University Press. ISBN 0231089589. OCLC 277598810 
  5. «Chinese Communist Party». Brill’s Encyclopedia of China. Consultado em 12 de abril de 2019 
  6. a b Levine, Marilyn Avra, 1953- (1993). The found generation : Chinese communists in Europe during the twenties. [S.l.]: University of Washington. ISBN 0295972408. OCLC 760662888 
  7. Goebel, Michael (2015). Anti-Imperial Metropolis. Cambridge: Cambridge University Press. ISBN 9781139681001