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Fiódor Dostoiévski

escritor russo
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Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski[nota 1] (Moscou/Moscovo, 11 de novembro de 1821São Petersburgo, 9 de fevereiro de 1881)[nota 2] foi um escritor, filósofo e jornalista russo. É considerado um dos maiores romancistas e pensadores da história, bem como um dos maiores "psicólogos" que já existiram (na acepção mais ampla do termo, como investigadores da psique).[1][2]

Fiódor Dostoiévski
Fiódor Dostoiévski, fotografado em 1879.
Nome completo Фёдор Миха́йлович Достое́вский
Nascimento 11 de novembro de 1821
Moscou
Morte 9 de fevereiro de 1881 (59 anos)
São Petersburgo
Nacionalidade Rússia
Cônjuge Maria Dmitriévna e Anna Dostoiévskaia
Ocupação Escritor
Influências
Influenciados
Principais trabalhos
Religião Igreja Ortodoxa Russa
Assinatura
Fjodor signatur.jpg

Entre outros temas, a obra do autor explora o significado do sofrimento e da culpa, o livre-arbítrio, o cristianismo, o racionalismo, o niilismo, a pobreza, a violência, o assassinato, o altruísmo, além de analisar transtornos mentais, muitas vezes ligados à humilhação, ao isolamento, ao sadismo e masoquismo e ao suicídio. Pela retratação filosófica e psicológica profunda e atemporal dessas questões, seus escritos são comumente chamados de romances filosóficos e romances psicológicos.[2][3]

Dostoiévski logrou atingir certo sucesso com seu primeiro romance, Gente Pobre, o qual foi imediatamente elogiado e protegido pelo mais importante crítico russo da primeira metade do século XIX, Vissarion Belínski.[4] Contudo, o escritor não conseguiu repetir o sucesso até seu retorno da Sibéria, quando escreveu o semibiográfico Recordações da Casa dos Mortos, tratando dos anos que passou na prisão. Essa obra foi considerada por Liev Tolstói, na época, como o melhor livro de toda a literatura moderna.[5] Alguns anos depois sua fama aumentaria bastante graças aos romances Crime e Castigo, O Idiota e Os Demônios e,[6] já próximo da morte, seu romance Os Irmãos Karamazov o colocaria como um dos maiores escritores de todos os tempos.[carece de fontes?]

A influência de Dostoiévski é imensa, tendo ele sido reconhecido como precursor dos seguinte movimentos: nietzscheanismo, psicanálise, expressionismo, surrealismo, teologia da crise e existencialismo.[7][1][8]

Índice

VidaEditar

Primeiros anosEditar

Pai e mãe de Dostoiévski

Fiódor foi o segundo dos sete filhos nascidos do casamento entre Mikhail Dostoievski e Maria Fiodorovna.[carece de fontes?] A mãe do escritor morreu de tuberculose quando ele ainda era muito jovem[carece de fontes?] e o pai, que era médico, pode ter sido assassinado pelos próprios servos de sua propriedade rural em Daravói, os quais o consideravam autoritário.[carece de fontes?] Alguns biógrafos afirmaram que foi neste momento que Dostoievski teve sua primeira crise epilética,[carece de fontes?] fato disputado pelos seus atuais estudiosos, principalmente Joseph Frank.[carece de fontes?]

O assissinato do pai teria exercido enorme influência sobre o futuro do jovem Fiódor, o qual teria, segundo Sigmund Freud, desejado impetuosamente a morte de seu progenitor e em contrapartida se culpou por isso.[carece de fontes?] Sobre o tema escreveu Freud um polêmico artigo denominado Dostoiévski e o Parricídio.[carece de fontes?] Freud é muito criticado por alguns estudiosos por ter escrito seu ensaio baseado em rumores, sem uma pesquisa profunda sobre a vida de Dostoiévski.[carece de fontes?] Joseph Frank, p.ex., apresenta documentos médicos que atestam que Mikhail Dostoiévski morreu, na verdade, de uma apoplexia, e os boatos em contrário foram propagados para diminuir o preço da propriedade dos Dostoiévski, pela qual um vizinho mostrava interesse.[9]

Início da carreira literáriaEditar

 
Fiódor Dostoiévski
Por Kostyantyn Trutovsky, 1847

Na Academia Militar de Engenharia de São Petersburgo,[vago] além das matérias militares essenciais e de engenharia, Dostoiévski também estudou a obra de William Shakespeare, Pascal, Victor Hugo e E. T. A. Hoffmann, já que a faculdade tinha um bom programa de literatura, que focava principalmente a produção francesa.[carece de fontes?] Nesse mesmo ano, escreveu duas peças românticas, Mary Stuart[carece de fontes?] e Boris Godunov[carece de fontes?], influenciado pelo poeta romântico alemão Friedrich Schiller.[carece de fontes?] Dostoiévski descrevia-se como um "sonhador" em sua juventude e, em seguida, um admirador de Schiller.[carece de fontes?] Em 1843, terminou seus estudos de engenharia e adquiriu a patente de tenente militar, ingressando na Direcção-Geral dos Engenheiros, em São Petersburgo.[carece de fontes?]

Em 1844, Honoré de Balzac visitou São Petersburgo e Dostoiévski, como uma forma de admiração, fez sua primeira tradução, Eugènie Grandet,[1] e saldou uma dívida de 300 rublos com um agiota.[carece de fontes?] Esta tradução despertou sua vocação, levando-o pouco tempo depois a abandonar o exército para dedicar-se exclusivamente à literatura.[carece de fontes?] Trabalhou como desenhista técnico no Ministério da Guerra, em São Petersburgo.[carece de fontes?] Fez traduções de Balzac e de George Sand.[carece de fontes?]

Em 1844 alugou uma casa em São Petersburgo e dedicou-se à escrita de corpo e alma.[carece de fontes?] Nesse mesmo ano, deixou o exército e começou a escrever sua primeira obra, o romance epistolar Gente Pobre,[carece de fontes?] trabalho que iria fornecer-lhe êxitos da crítica literária[carece de fontes?], cuja leitura de Bielinski, o mais influente crítico da literatura russa,[carece de fontes?] o fez acreditar ser Dostoiévski "a mais nova revelação do cenário literário do pais."[carece de fontes?]

Em O Diário de um Escritor, recordou que após concluir "Gente Pobre" deu uma cópia para seu amigo Dmitri Grigorovitch, que a entregou ao poeta Nikolai Nekrássov.[carece de fontes?] Com a leitura do manuscrito em voz alta, ambos ficaram extasiados pela percepção social da obra.[1] Às quatro horas da manhã, foram até Dostoiévski para dizer que seu primeiro romance era uma obra-prima.[carece de fontes?] Nekrassov mais tarde entregou a obra a Bielinski.[carece de fontes?] "Um novo Gogol apareceu!", disse Nekrassov.[carece de fontes?] "Pra você, os Gogol nascem como cogumelos!", Bielinski respondeu.[1] Logo depois, porém, o crítico concordaria.[carece de fontes?] Ele estava extasiado com o movimento realista na Europa, e considerou o romance de Dostoiévski como a primeira tentativa do gênero na Rússia.[carece de fontes?]

O livro foi publicado no ano seguinte, fazendo de Dostoiévski uma celebridade literária aos vinte e quatro anos de idade.[carece de fontes?] Ao mesmo tempo, começou a contrair algumas dívidas e sofrer de uma enfermidade nervosa, frequentemente confundida com sua epilepsia, que começou a se manifestar muitos anos mais tarde.[9] Seus romances seguintes, O Duplo (1846), que retrata uma personalidade cindida, Noites Brancas (1848), que retrata a mentalidade de um sonhador, Netochka Nezvanova (1849), que jamais foi terminado, e a A mulher alheia e o marido debaixo da cama, não tiveram o êxito esperado, e sofreram críticas muito negativas, inclusive de Bielínski, que criticava aquilo que, no futuro, se tornaria a marca principal de Dostoiévski: a psicologia de seus personagens.[carece de fontes?] Nesta época entrou em contato com alguns grupos de socialistas utópicos, que discutiam a liberdade humana.[10]

Relações com grupos de escritores e intelectuaisEditar

O Círculo Petrashevski era dedicado principalmente à discussão das condições de vida na Rússia, centrada nas obras da imensa biblioteca de obras proibidas de Petrashevski, obras que, segundo os registros da sociedade, Dostoiévski consultou em várias ocasiões. [carece de fontes?] Na verdade, Dostoiévski não ia às reuniões do círculo há mais de três meses quando foi preso, e participava realmente de uma organização radical liderada por Nikolai Spechniev. [carece de fontes?] Radical que se tornaria o protótipo para Nikolai Stavróguin, protagonista de Os Demônios [carece de fontes?]. Essa organização, porém, não foi descoberta pelas autoridades e sua existência só veio a público em 1922.[9]

Exílio na SibériaEditar

Detenção, julgamento e falsa execuçãoEditar

 
A falsa execução do Círculo Petrashevski

Dostoiévski foi detido na noite de 22-23 de abril de 1849 por participar do grupo intelectual Círculo Petrashevski, sob acusação de conspirar contra o czar Nicolau I.[11][1] O czar mostrou-se, depois das revoluções de 1848 na Europa, vigoroso contra qualquer organização clandestina que poderia pôr em risco sua autocracia.[12][1] O Círculo Petrashevski não era em si revolucionário, como chegou a conclusão o relatório oficial,[13] porém, uma vez que existiam vários grupos menores orbitanto ao seu redor, ele servia como fachada para alguns grupos politicamente mais radicais, como o Círculo Palm-Durov, ao qual pertencia Dostoiévski.[14] A ordem de detenção foi emitida baseada nos relatórios da chancelaria imperial russa da época, mais conhecida como "polícia secreta", realizados em conjunto com o Ministério dos Assuntos Internos, após mais de um ano de investigação.[15] A principal acusação contra Dostoiévski foi de ter lido em público passagens de uma carta semi-aberta de Vissarion Belínski ao escritor Nikolai Gogol, na qual o escritor foi criticado por suas visões políticas e sociais conservadoras. Dostoiévski leu esta carta tanto no Círculo Petrashevski quanto no Círculo Palm-Durov, além de ter ajudado a disseminá-la.[16]

Dostoiévski passou oito meses na Fortaleza de São Pedro e São Paulo, onde trabalhou de forma incansável, escrevendo várias notas para diferentes obras: "Quando trabalhava em liberdade, sempre me interrompia com distrações, mas aqui, a tensão que segue à escrita deve passar sozinha",[17] escreveu em carta para seu irmão Mikhail. As notas não sobreviveram e a única obra concluida desta época foi O Pequeno Herói.[18] Nestes oito meses continuaram as investigações do Círculo Petrashevski finalizadas em 17 de setembro de 1949, quando foram enviadas ao czar, o qual ordenou a abertura de um tribunal misto (civil e militar) para julgar, sob leis militares, 28 acusados, destes 15, incuindo Dostoiévski, foram condenados no dia 16 de novembro à pena de morte por fuzilamento. Após diversos recursos, Nicolau I perdoou muitos dos sentenciados a morte. Dostoiévski foi condenado a oito anos de trabalho forçado, reduzido para quatro anos seguido de serviço militar por tempo indeterminado.[19]

Em 22 de dezembro os prisioneiros foram transferidos e levados ao lugar da execução, a Praça Semenovsky, onde suas sentenças foram lidas publicamente.[20] Três membros do grupo - Petrashevski, Mombelli e Grigoryev - foram amarrados aos postes em frente ao pelotão de fuzilamento. Dostoiévski era um dos três próximos [21] e neste momento de aguardo disse a Nikolai Spechniev, o qual se encontrava atrás: -"Nós estaremos com Cristo", o revolucionário respondeu -"Um pouco de poeira".[22]

Antes do comando para o fuzilamento, chegou uma ordem do czar para que a pena fosse comutada para prisão com trabalhos forçados. Soube-se depois que a ordem havia sido assinada há dias, mas que o czar exigira a falsa execução. Dostoiévski recebeu os grilhões e partiu para a Sibéria em poucos dias.[23] O Príncipe Michkin, de O Idiota, oferece uma descrição sobre essa mesma experiência.[24] É comumente aceito, e afirmado pelo próprio Dostoiévski, que após a simulação da execução ele passou a apreciar a vida de uma maneira muito diferente da anterior, iniciando um processo de transformação política, literária e existencial que estaria terminada quando de seu retorno a São Petersburgo 10 anos depois.[1][25][26]

SibériaEditar

Dostoiévski foi primeiramente enviado a uma prisão localizada em Tobolsk, onde os pressos eram redistribuidos para diversos campos de trabalho afim de cumprirem suas penas de trabalho forçado (chamado sistema Katorga). Fato curioso foi que em Tobolsk Dostoiévski encontrou muitos dezembristas, diversos dos quais estavam acompanhados de suas esposas, as quais se exilavam espontaneamente para acompanhar seus maridos. Foram elas quem forneceram a Dostoiévski, e aos outros prisioneiros recém chegados, seu exemplares do Novo Testamento, o único livro permitido na prisão.[27]

Dostoiévski foi encaminhado para uma prisão em Omsk, centro administrativo da Sibéria, onde cumpriu por quatro anos a sentença de trabalhos forçados. Esta prisão estava em péssima condições, tendo Dostoiévski escrito em carta ao irmão, que o local deveria ter sido demolido anos atrás.[28] Na prisão em Omsk era possível, apesar de difícil, conseguir algum outro tipo de literatura além do Novo Testamento.[29]

Um dos fatos que tiveram mais impacto em Dostoiévski foi descobrir que na prisão, em que pese diluídas as diferenças de classe, os servos não aceitavam as classes superiores como camaradas, como iguais.[30] Dostoiévski conta como os camponeses zombavam dos intelectuais por sua falta de destreza física nos trabalhos[31] e quando Dostoiévski, sem querer, acabou se juntando a um protesto contra a má qualidade da comida da prisão, os prisioneiros não o aceitaram e o expulsaram.[32]

Foi na prisão da Sibéria que Dostoiévski sofreu seu primeiro ataque de epilepsia, doença que o acompanharia pelo resto da vida e que também atinge vários de seus personagens, como o Príncipe Míchkin de O Idiota, Kiríllov de Os Demônios e Smerdiákov de Os Irmãos Karamazov. As cartas que Dostoiévski enviou ao irmão deixam claro que os ataques epilépticos iniciaram na Sibéria, em que pese ele já ter apresentado problemas nervosos antes disso. [9][33]

Em fevereiro de 1854, Dostoiévski deixou a prisão na Sibéria para cumprir pena de serviço militar por tempo indeterminado.[34] Após seu retorno a São Petersburgo, depois de cumprida a pena de serviço militar, Dostoiévski relatou suas experiências na Sibéria no texto biográfico Recordações da Casa dos Mortos.

Exército e primeiro casamentoEditar

 
Dostoiévski em uniforme (1858)

Dostoiévski foi libertado da prisão de Omsk em fevereiro de 1854, quando foi mandado para cumprir pena servindo no exército russo em seu Sétimo Batalhão do Corpo Militar da Sibéria por tempo indeterminado.[35] Permaneceu por quatro anos na fortaleza de Semipalatinsk, no Cazaquistão.[1]

Neste período, apaixonou-se por Maria Dmitriévna, mulher casada e mãe de um filho chamado Pável Issáiev (Pasha), do qual Dostoiévski era tutor.[36] Quando Maria Dmitriévna mudou-se com seu marido e filho para Kuynetsk, ambos trocaram cartas semanalmente, uma destas cartas ainda sobrevive.[37] Em agosto de 1855 morreu Alexander Ivanovich Isaev, marido de Maria Dmitriévna],[38] e como em novembro de 1855 Dostoiévski foi promovido,[38] ele pediu a amada em casamento. Não sem muitas idas e vindas (inclusive um caso com outro homem)[39] Maria Dmitriévna aceita, em dezembro de 1856, se casar com Dostoiévski e em 7 de fevereiro de 1857 ocorreu a cerimônia.[40]

Ela sofria de tuberculose[41] e é aceita como o modelo para Katerina Marmeladova de Crime e Castigo. [carece de fontes?]

Na noite de núpcias, Dostoiévski sofreu uma violenta crise de epilepsia, quando recebeu pela primeira o diagnóstico de tal doença.[42] Aproximadamente um ano depois, em meandros de janeiro de 1858, Dostoiévski entrou oficialmente com pedido de aposentadoria do exército, afim de receber tratamento médico.

No início de 1859, Dostoiévski conseguiu ser dispensado do exército para tratar da saúde, sob a condição de não residir nem em São Petersburgo, nem em Moscou, escolheu, então, mudar-se para Tver, meio caminho entre as duas cidades proibidas. No início de julho de 1859 inicia sua viagem para sua nova residência.[43]

A conversão de DostoiévskiEditar

Por conversão de Dostoiévski entende-se a mudança radical de convições morais, políticas, religiosas e existenciais pelas quais passou Dostoiévski no período entre sua detenção e seu retorno a São Petersburgo, conversão afirmada pelo próprio autor.[44]

Segundo o próprio Dostoiévski, o momento exato da conversão teria sido durante as festividades de pascoa do segundo ano que passara na Sibéria: após assistir a uma extremamente violenta, e para ele insuportável, festividade dos servos na prisão, Dostoiévski lembrou-se do caso do servo Marey (servo de seu pai), o qual teria ocorrido quando ele ainda era criança. O servo Marey teria tratado Dostoiévski com extremo amor paternal, quando este, com oito anos, estava desesperado de medo por acreditar ter ouvido uivos de lobos na propriedade da família. Esta lembrança modificou o modo como ele vinha compreendendo os servos desde que chegou ao presídio - com muito rancor, por não ser aceito como um igual -: depois desta experiência e lembrança, como por um milagre, o rancor desapareceu.[45]

Sinteticamente, Dostoiévski foi de uma crença ingênua de que poderia liderar os inocentes servos como um igual - cresça que sustinha antes da condenação -, passando por uma relação de extrema repulsa em relação aos servos da prisão, causada pelo fato dos servos não o aceitarem como igual, e chegando, finalmente, a voltar a ter fé na moral do povo russo, nos servos, não mais como movimento político, mas como seres humanos capazes de infinito amor[46] e, como qualquer ser humano, do infinito mal.[47] Trata-se de amor cristão, o que mostra que a conversão também foi religiosa.[48]

Carreira literária pós-exílioEditar

Regresso e contexto sociopolíticoEditar

O reinício de Dostoiévski como escritor começa, de fato, antes mesmo de ser liberado do exército, logo após começar a receber seu ordenado como oficial (março de 1857) e de ser restituído de seus direitos civís, incluindo o direito de publicação (maio de 1857), quando publica seu único texto completo na época, aquele escrito enquanto detido para investigação: O Pequeno Herói.[49] Entre 1857 e 1859 escreveu ainda duas novelas cômicas: O Sonho do Tio e Aldeia de Stiepantchikov e Seus Habitantes, não obtendo nenhum deles sucesso.[50][51] Datados desta época também é possível encontrar rascunhos do seu planejado gigantesco romance em cinco volumes A vida de um grande pecador, cujo primeiro volume veio a ser sua obra prima Os Irmãos Karamazov.[52]

No final de dezembro de 1859 regressou finalmente com sua família (sua esposa e o enteado) a São Petersburgo.[53] O retorno não foi dos mais fáceis, tendo em vista que sua longa ausência não só o afastou dos antigos contatos de São Petersbugro, como também de toda a produção cultural russa, incluindo a literatura e o jornalismo, uma vez que o acesso aos livros era bem difícil durante o tempo em que cumpriu pena.[54]

A situação política que encontrou em São Petesburgo não foi conflituosa: uma vez que os impulsos revolucionários dos literatos e de Dostoiévski tinham como principal finalidade a libertação dos servos da Rússia e na medida em que Alexandre II, czar que assumiu o trono em 1855,[55] estava determinado a libertá-los, tanto a Inteligência Russa como Dostoiévski estavam favoráveis ao czar.[56] No caso de Dostoiévski, também sabemos que sua conversão, a qual o impulssionou contrariamente ao socialismo, tornavam o czar e sua política ainda mais simpáticos (v. seção A conversão de Dostoiévski deste artigo). A abolição veio de direito em 1861.[57] A trégua, entretanto, não durou muito uma vez que a forma da libertação, a qual ocorreu em 16 de fevereiro de 1861, não parecia favorecer muito os servos.[58]

Na época do retorno de Dostoiévski a São Petersburgo, i.e. no início dos ano 1860, os escritores mais aclamados eram Tchernichevski e Dobrolyubov.[59] Ambos, assim como a maioria dos pensadores da época, acreditavam em uma ética utilitarista e tinham uma visão inocente da ciência e do racionalismo, assim como da possibilidade deles de desvendarem e responderem, por si mesmos, todas as questões humanas.[56]

Nesta mesma época ocorreram os ataqueas dos niiistas, um movimento político russo que incendiou grande parte de São Petersburgo.[carece de fontes?]

O reinício em São PetersburgoEditar

 
Mikhail Dostoiévski, irmão de Fiódor Dostoiévski, ca. 1864

A primeira obra publicada por Dostoiévski após seu retorno a São Petersburgo foi a autobiográfica e de enorme sucesso Memórias da Casa dos Mortos, baseada em suas experiências como prisioneiro.[1][60] Esta obra inaugurou este gênero literário russo.[61] Ela foi publicada em capítulos separados no jornal O Mundo Russo (Russkii Mir): seus dois primeiros capítulos foram publicados em 1860 e republicados no início de 1861, seguidos de três capítulos publicados semanalmente, quando a publicação foi então interrompida e nunca mais retomada.[62] Muito tempo depois, em 1922, foi encontrado e publicado um capítulo esquecido das Memórias da Casa dos Mortos, o qual tinha sido escrito para reveter uma censura governamental feita à obra, porém, uma vez que a obra acabou publicada sem este capítulo, ele ficou esquecido nos arquivos do governo.[63] Este capítulo esquecido continha, pela primeira vez nos escritos de Dostoiévski, aquilo que seria um dos temas de suas grandes obras: a liberdade humana como bem supremo, contraposta, p.ex., a uma suposta supressão total das necessidades vitais do ser humano pela utopia socialista.[64]

Em 8 de julho de 1860, Mikhail, irmão de Dostoiévski, foi autorizado a publicar a revista literária Tempo (Vremia), da qual seria editor juntamente com Dostoiévski, essa revista foi muito bem sucedida.[65] A posição política defendida pelos editores de Tempo era a fusão mediadora de ocidentalismo e eslavofilia,[66] podendo por isso ser entendida como a principal referência de um novo movimento no cenário literário russo, o Pochvennichestvo, cujos os principais membros, além do próprio Dostoiévski, era Strakhov e Grigoryev.[67] O movimento pochvennichestvo acreditava que a questão mais emergêncial a ser tratada pelos escritores era a síntese cultural pacífica entre os "bem educados" e a massa russa, entre ocidentalismo e eslavofilia, e não uma revolução violenta guiada por intelectuais educados na cultura europeia, afim de impor ao povo russo um ideal de vida iluminista.[68] Na revista Tempo, além de suas próprias ficções, Dostoiévski também publicava traduções, resenhas, comentários e alguns estudos,[69] incluindo, p.ex., um estudo sobre Edgar Allan Poe.[70]

Desde de autorização para a publicação de Tempo, enquanto Mikhail terminava os preparos burocráticos para publicação da revista, Dostoiévski escrevia seu primeiro romance pós-Sibéria, o romance em folhetim Humilhados e Ofendidos, o qual também foi agraciado com grande sucesso.[1] O romance começou a ser publicado desde o primeiro volume de Tempo, em janeiro de 1861, continuando por vários dos seus números.[65] Esse romance, segundo Joseph Frank, teria inaugurado um estilo melodramático que Dostoiévski usaria mais tarde em suas grandes obras.[71] Segundo Frank, portanto, nesta época Dostoiévski funda o estilo[71] e o tema[64] de suas grandes obras: a dramatização da contraposição entre liberdade e racionalidade. Neste período, Dostoiévski também começou a frequentar o circulo literário que se encontrava na casa de Milyukov, ex membro do círculo Palm-Durov.[72]

Em 7 de junho de 1862 Dostoiévski parte para sua primeira viagem pela Europa (Alemanha, Bélgica e França).[73] Nesta viagem ele jogou roleta pela primeira vez, adquirindo um vício que o acompanharia pelo resto da vida, apesar de praticado apenas durante viagens.[74] Também foi nesta viagem que Dostoiévski visitou o Palácio de Cristal, símbolo dos avanços tecnológicos europeus, o qual será usado pelo autor em alguns de seus textos posteriores.[75] Já no final de 1862, após seu retorno da Europa, Dostoiévski publica Uma História Desagradável e depois, como última importante obra publicada na revista Tempo, uma vez que em maio de 1863 a autorização de funcionamento da revista foi cancelada pelo governo - sob falsa acusação de apoio à revolta polonesa -,[76] Dostoiévski publica Notas de Inverno sobre Impressões de Verão,[77] obra que retrata e comenta sua viagem à Europa do ano anterior.[78]

Em abril de 1864 Dostoiévski e seu irmão Mikhail iniciam a edição de uma segunda revista literária, a Época (Epokha), seguindo a mesma orientação política e editorial que sua antecessora, a Tempo.[79] Na Época Dostoiévski publicaria suas Notas do Subterrâneo, dando início as suas grandes obras.[80]

As grandes obras I: Notas do Subterrâneo, Crime e Castigo e O JogadorEditar

 
Anna Dostoiévskaia,1871 - Segunda esposa de Dostoiévski

Notas do Subterrâneo, texto que abre o período das grandes obras de Dostoiévski, foi escrito em um momento extremamente difícil para o autor, uma vez que a saúde de sua esposa, Marya Dimitrievna, por conta de sua tuberculose, havia piorado muito, vindo ela a falecer em 12 de abril de 1864.[81] Em Notas do Subterrâneo Dostoiévski retrata a necessidade humana insuperável de liberdade, podendo ele fazer qualquer coisa para mantê-la, inclusive o masoquismo.[82] Se não bastasse a morte da esposa, Dostoiévski perde seu irmão Milkhail logo em seguida, no dia 9 de julho de 1864.[83] Nesta época, além de alguns artigos, escreveu O Crocodilo,[84] texto inacabado que compôs o último número da revista Época, que fechou por problemas financeiros em março de 1865.[85][86]

Após o fechamento da Época, da morte da primeira mulher e do seu irmão (sempre ao seu lado na edição das revistas), Dostoiévski entra em uma nova fase de sua vida: ele não mais procura se inserir no agitado movimento político/literário russo, mas, ao contrário, se isola afim de escrever seus romances de forma mais tranquila,[87] mas, apesar de afastado das obrigações burocráticas e sociais das revistas, por ocasição das dívidas e do seu vício em jogos, não alcançou a tranquiliade que desejava.[88] Foram nos seis anos de isolamento social que ele escreveu as obras primas Crime e Castigo, O Idiota, Os Demónios, além de O Jogador e O Eterno Marido.[87]

Planejado inicialmente para ser um simples conto, Crime e Castigo se tornou um romance de peso,[89] uma das obras mais importantes do autor, atrás apenas de Os Irmãos Karamazov.[carece de fontes?] Seus primeiros dois capítulos forem publicados, respectivamente, nos números de janeiro e feveriro de 1865 da revista O Mensageiro Russo, adquirindo grande fama e muita crítica.[89] Um curioso fato que teria aumentado em muito o interesse geral pela obra foi o assassinato, comedido por um estudante chamado A.M. Danilov em 12 de Janeiro de 1866, de um agiota e seu criado visando o roubo do seu apartamento, episódio muito semelhante com o enredo do romance de Dostoiévski.[90] O sucesso dos dois primeiros capítulos trouxe à revista O Mensageiro Russo nada menos que 500 novos assinantes.[91] Esse fato, entretanto, não aliviou a tensão entre o escritor e seus editores, os quais continuaram demandando diversas correções dos textos apresentador por Dostoiévski, além de apressarem constantemente a finalização do romance, recomendando à Dostoiévski, inclusive, a contratação de uma estenógrafa para ajudar Dostoiévski com um romance que deveria ser entregue antes mesmo de Crime e Castigo e o qual Dostoiévski nem mesmo havia começado, o romance O Jogador . O manuscrito de O Jogador foi entregue ao editor no dia 29 de outubro de 1866, ie. dentro do prazo combinado.[92][93]

A contratada como estenógrafa foi Anna Grigoryevna Snitkina, futura Anna Grigoryevna Dostoíevskaia, [94] com quem Dostoiévski casou-se (seu segundo casamento) em 15 de fevereiro de 1867.[carece de fontes?] Anna Grigoryevna Dostoíevskaia tinha, na época, vinte anos.[95] Não confundir a futura esposa de Dostoiévski com a também conhecida sua Anna Korvin-Krukovskaya: esta escreveu dois textos para a revista Época sob o pseudônimo de Yury Orbelov, denominados Um sonho e Mikhail,[96] e, apesar de ter sido pedida em casamento por Dostoiévski, recusou o pedido.[96]

Após o casamento, para fugir da pressão dos credores entre outros problemas, o casal resolveu viajar pela Europa e partiram em Abril de 1867. A viagem estava programada para durar alguns meses, mas acabou durando quatro anos:[97] o casal residiu em Dresden,[98] Genebra,[99] Vevey,[100], Milão,[101] Florença[101] e novamente em Dresden.[102] Durante a viagem Dostoiévski jogou muito na roleta e acabou perdendo algumas vezes o seu próprio dinheiro, assim como o de sua mulher, a qual tinha pago os custos iniciais da viagem, uma vez que Dostoiévski estava muito endividado na época.[96] Em Geneva, no dia 5 de março de 1968, nasceu a primeira filha do casal, Sônia[103][104][105] ou Sofia.[106] [nota 3] Sônia morreu pouco tempo depois, em 12 de maio de 1868 por causa de um gripe e foi enterrada no dia 24 de maio.[100]

As grandes obras II: O Idiota e Os DemôniosEditar

 
Retrato de Fiódor Dostoiévski
Por Vassilij Grigorovič Perov, 1872

Nos meses de outubro e novembro de 1867 Dostoiévski já estava elaborando rascunhos para sua próxima grande obra, O Idiota.[108] A história da composição deste romance está bem registrada nos três cadernos de notas deixados por Dostoiévski, cadernos que demonstram a grande dificuldade e intensidade com que o autor trabalhou em seu perssonagem principal, Príncipe Míchkin. [109] Os sete primeiros capítulos de O Idiota foram publicados em janeiro de 1868 na revista O mensageiro russo[101] e os restantes nove capítulos da primeira parte foram publicados em fevereiro de 1868.[106] Em maio do mesmo ano aparece, na mesma revista, os dois capítulos introdutórios da segunda parte.[110] A obra O Idiota é considerada a obra mais original e particular de Dostoiévski,[111] expondo em sua máxima força a compreensão do autor sobre o "Tipo Dom Quixote" (ver seção abaixo), o tipo cristão, o ideal existencial de Dostoiévski.[112]

Em 1870 a revista russa Dawn publica o conto O Eterno Marido, escrito por Dostoiévski por necessidade financeira[113] Logo após esta publicação Dostoiévski começa seus rascunhos para Os Demônios.[114] Em 1871 terminou Os Demônios,[carece de fontes?] publicado no ano seguinte.[carece de fontes?] A ideia inicial de "O Idiota" surgiu de uma notícia de jornal sobre uma jovem de quinze anos, Olga Umetskaia, que colocou fogo na casa da família após sofrer anos de maus tratos e espancamentos.[carece de fontes?] A personagem Nastássia Filipóvna foi baseada nela.[carece de fontes?] Já "Os Demônios" surgiu do assassinato do jovem I. I. Ivanov, que queria abandonar uma organização radical e foi morto pelos colegas, comandados por Sergey Nechayev.[carece de fontes?] Netcháiev era um conhecido radical, ligado a Mikhail Bakunin, que depois o rejeitou por horror aos seus métodos políticos escusos.[carece de fontes?]

Dostoiévski assumiu um grande risco com Os Demônios, que foi visto pela crítica como ofensivo às novas gerações e panfletário.[carece de fontes?] Segundo Joseph Frank,[115] o momento em que "Os Demônios" se tornou grande foi quando o autor começou a misturar o panfleto que escrevia com o poema que tinha planejado, "A Vida de Um Grande Pecador", que nunca chegou a escrever mas do qual usou concepções em "Os Demônios", "O Adolescente" e Os Irmãos Karamazov.[necessário esclarecer]

A partir de 1873 publicou em jornal Diário de um Escritor, que escreveu sozinho, compilando histórias curtas, artigos políticos e críticas literárias, obtendo grande sucesso.[carece de fontes?] Em 1875, publicou O Adolescente, na prestigiada revista Os Anais da Pátria.[carece de fontes?] O romance foca em um tema que sempre tinha preocupado o escritor: as famílias acidentais.[carece de fontes?] Esta publicação seria interrompida em 1878 para dar início à elaboração do seu último romance, Os Irmãos Karamazov, que foi publicado em grande parte no jornal russo O Mensageiro.[carece de fontes?]

MorteEditar

 
Dostoiévski em seu leito de morte

Em 1880, participou da inauguração do monumento a Alexandre Pushkin em Moscou, onde proferiu um discurso memorável sobre o destino da Rússia no mundo.[carece de fontes?] Em 8 de novembro desse ano, termina Os Irmãos Karamazov, em São Petersburgo.[carece de fontes?] Morreu nesta cidade, em 9 de fevereiro de 1881, de uma hemorragia pulmonar associada com enfisema e ataque epiléptico.[carece de fontes?] Foi enterrado no Cemitério Tikhvin, dentro do monastério Alexander Nevsky em São Petersburgo.[carece de fontes?] Estima-se que o funeral foi assistido por cerca de sessenta mil pessoas.[carece de fontes?] Em sua lápide podem-se ler os seguintes versos de São João, que também serviu como subtítulo de seu último romance, Os Irmãos Karamazov:

ObraEditar

TemasEditar

No período pós-sibéria o tema recorrente de Dostoiévski é aquele por ele mesmo chamado de "conflito entre ideias e coração".[118] Este tema foi nomeado por Joseph Frank de "crítica da ideologia" e explicado como a contraposição entre as ideias europeias da época, principalmente o socialismo, e a moral cristã ortodoxa viseral do povo russo, servos principalmente.[119] Trata-se, portanto, de tematizar sua própria conversão (v. A conversão de Dostoiévski neste mesmo artigo). Este tema também pode ser descrito como a defesa da liberdade enquanto o bem humano supremo,[120] i.e., a contraposição entre as leis de cristo e as leis do ego.[121] Outro modo de denominar o mesmo tema, um modo mais sintético, é afirmar que no período pós-sibéria, mais especificamente a partir de Notas do Subterrâneo, o tema central de Dostoiévski é a superação do niilismo.[122]

Dostoiévski tinha por tema, diferentemente dos outros escritores que descreviam o círculo da família moldados na tradição e nas "belas formas", o caos familiar, a humilhação, o sadomasoquismo, a ganância, a doença, etc.[1] Essencialmente um escritor de mitos (e às vezes comparado por isso a Herman Melville),[carece de fontes?] criou um trabalho com uma enorme vitalidade e de um poder quase hipnótico, caracterizado por cenas febris e dramáticas, onde os personagens apresentam comportamento escandaloso, e atmosferas explosivas, envolvidas em diálogos socráticos apaixonados, a busca de Deus, do mal e do sofrimento dos inocentes.[1]

Outros temas recorrentes em sua obra são suicídio, orgulho ferido, a destruição dos valores familiares, o renascimento espiritual através do sofrimento, a rejeição do Ocidente e da afirmação da ortodoxia russa e o czarismo.[carece de fontes?]

Reinhold Niebuhr atribui à Dostoiévski um "universalimo ético" pelo qual o escritor defenderia e pregaria o destino da Russia como o lugar de onde partiria o reino do bem e da justiça na terra.[123]

EstiloEditar

Ao contrário do estílo utilizado na prosa da época, Dostoiévski não se fixava muito em uma descrição fotográfica dos personagens e do âmbiente em que estavam, concentrando-se mais no enredo. Este fato teria contribuído, segundo Joseph Frank, para a má recepção por parte da crítica da época de muitos textos de Dostoiévsi.[124] Este estilo - grande atenção para os elementos do enredo em prol da descrição fotográfica - utilizou Dostoiévski em todos os seus grandes romances, fato que trouxe uma certa homogeneidade estilística a estas obras. Os elementos comuns foram enumeradas por Joseph Frank da seguinte maneira: a) um enredo de ação extremamente rápido e condensado - muitos elementos ocorrendo em um breve espaço de tempo -; b) viradas inesperdas e abruptas; c) personagens que são caracterizados mais pelos seus diálogos que pelas suas descrições fotográficas; e d) clímax ocorrendo entre diversas cenas tumultuosas.[125]

Estudiosos como Mikhail Bakhtin têm caracterizado o trabalho de Dostoiévski como diferente de outros romancistas, ele parece não aspirar por uma visão única e vai além da descrição sob diferentes ângulos, caracterizando-o como romance polifônico. Dostoiévski engenhou romances cheios de força dramática em que os personagens e os opostos pontos de vista são realizados livremente, em violenta dinâmica.[126][necessário esclarecer]

Em relação ao narrador, segundo Joseph Frank, a partir de Crime e Castigo Dostoiévski acentua uma tradição provinda de Jane Austen de aproximar o ponto de vista do narrador ao ponto de vista do personagem principal, incluisve com técnicas de mudanças de tempo, retratação de memórias do personagem, entre outras.[127] Este estilo seria continuado por Henry James, Joseph Conrad, Virginia Woolf e James Joyce, estes dois últimos inaugurando a técnica do fluxo de consciência.[127]

O espaço e o tempo em Dostoiévski são analisados[carece de fontes?] às vezes como "discretos, onde o inesperado não apenas é possível como também sempre se realiza". Através da minimização do tempo de passagem, onde os fatos aparecem de repente, o instante monoboliza o tempo e logo depois relaxa, desaparecendo nas cenas.[carece de fontes?] Certos autores[carece de fontes?] comparam o tempo e o espaço em Dostoiévski com cenas cinematográficas:[carece de fontes?] o uso constante da palavra russa vdrug (de repente), que aparece 560 vezes na edição russa de Crime e Castigo, tem a proposta de levar ao leitor a impressão de tensão, de desigualdade e de nervosismo, elementos característicos da estrutura do romance dostoievskiano.[carece de fontes?]

Além da palavra vdrug em Crime e Castigo, a literatura de Dostoiévski utiliza muito os números, às vezes usando-os com extrema precisão: a dois passos..., duas ruas a direita, como também usa números elevados e redondos (100, 1000, 10000).[carece de fontes?] Acredita-se[carece de fontes?] que esses elementos são "mitopoéticos":[carece de fontes?] Crime e Castigo possui sete partes (6 partes e o epílogo), sendo que, na composição do romance, ele é dividido em 7 capítulos (cada parte), e a "hora fatídica" é indicada como depois das 7.[carece de fontes?]

PersonagensEditar

Dostoiévski foi muitas vezes descrito como um grande psicólogo por causa da precisão e profundidade dos seus estutos sobre a psique humana retratados nos diversos tipos, personagens, que ele criou.[carece de fontes?] Seus tipo podem ser classificados como segue:[carece de fontes?]

O tipo Dom Quixote terá sua melhor, mais ampla e detalhada construção no Príncipe Michkin de O Idiota.[129] O tipo Dom Quixoteé para Dotoiévski o mais perfeito exemplo moral de cristão.[130] Uma tal comparação entre Dom quixote e Cristo, entretanto, não ocorre pela primeira vez com Dostoiévski: também Kierkegaard, Turgueniev e Charles Dickens com seu Sr. Pickwick estabeleceram tais paralelos.[130][131] Diferentemente do que ocorre com Dom Quixote e Sr. Pickwick, entretanto, Dostoiévski não utiliza a comédia para conseguir a simpatia do leitor com seu personagem, ele utiliza a inocência, Príncipe Michkin é um inocente.[131]

Posição políticaEditar

No final de 1962 a posição de Dostoiévski, e de sua revista Tempo, por conta dos constantes ataques aos radicais niilistas, já fora entendida por um colaborador, Pomyalovsky, como reacionária. A esta "acusação" que teria respondido Dostoiévski, segundo tradução de Joseph Frank: -"O nosso jornal é reacionário? Não, nem mesmo aos olhos de nossos inimigos." Frank afirma, entretanto, que a posição de Dostoiévski não pode ser entendida como reacionária, na medida em que continuava confrontando o governo.[134] Na mesma época, 1962-1963 a revista literária O Contemporâneo afirmava que Tempo padecia por não escolher posição.[135] No entanto,mesmo nesta época a opinião geral não podia deixar de reconhecer que Dostoiévski era progressista, principalmente quando se olhava obras como Recordações da Casa dos Mortos.[136]

Em Notas de Inverno sobre Impressões de Verão Dostoiévski afirma que os burgueses franceses não precisavam temer nem a classe trabalhadora, nem os comunistas e nem os socialistas, pois nenum grupo ocidental era de fato contrário ao espírito burguês.[137] Para Dostoiévski, o convencimento racional almejado socialismo ocidental nunca poderia mitigar a vontade que o homem possui de liberdade, portanto, uma comunhão constrangida nunca seria possível, só seria possível uma em que o indivíduo livremente resolver-se pela fraternidade. Em outros termos, apenas uma ética cristã poderia chegar ao socialismo e não uma ética utiliterista[138]

Contra os niilistas
 Ver artigo principal: Movimento niilista russo

Segundo Joseph Frank, pode-se dizer que a matriz teórica dos niilistas russos era uma mistura de: utilitarismo inglês, socialismo utópico frances, ateísmo feuerbachniano, materialismo mecânicista e determinismo.[57] A esse movimento se contrapós Dostoiévski desde seu retorno da Sibéria até seu último romance, Irmãos Karamazov: a estratégia artística usada por Dostoiévski em Notas do Subterrâneo, Crime e Castigo e Os Demônios para combater o niilismo foi a apresentação de como absurda era a vida de personagens que defendiam as teses niilistas do ponto de visa moral e psicológico.[139]

Anos antes, um romance russo já havia sido escrito sobre os niilistas: Pais e Filhos, de Ivan Turgueniev.[carece de fontes?] Enquanto a intelectualidade russa criticou duramente o livro, a revista de Dostoiévski publicou uma resenha favorável, escrita por Nikolai Strakhov, amigo de Dostoiévski e importante crítico literário, o qual dizia que o livro não era nem a condenação nem a apoteose do niilismo, mas sua tragédia.[carece de fontes?] Essa crítica valeu o reconhecimento de Turgueniev, que publicou outros textos na revista dos irmãos Dostoiévski.[carece de fontes?] Os dois escritores, porém, tiveram uma grande briga em Baden-Baden, centrada no romance "Fumaça", de Turgueniev, muito crítico à Rússia e à sua suposta declaração de se considerar agora um alemão.[carece de fontes?] Dostoiévski também criticou o recente prefácio a Pais e Filhos, no qual Turgueniev teria se curvado aos niilistas, segundo o escritor.[carece de fontes?]

CríticaEditar

Segundo o escritor Mário Pontes,[carece de fontes?] as novas traduções em língua portuguesa – lançadas no Brasil – das obras de Dostoiévski, como "O Idiota"[140] demonstram um estilo "menos castiço", argumentando que "[…] toda a obra [original] de Dostoiévski foi escrita em circunstâncias adversas: luto, doenças, dívidas, incontrolável atração pelo jogo, censura e vigilância policial, daí porque a pressa transparece nos seus romances, onde uma descrição pode ser interrompida de repente por um nervoso, etc."[carece de fontes?][necessário esclarecer] Embora o crítico avalie as traduções mais antigas como trabalhos feitos em cima de edições francesas que possivelmente traziam erros,[carece de fontes?] e que as novas edições brasileiras apresentam um estilo dostoievskiano "muito menos castiço do que os anteriores",[carece de fontes?][necessário esclarecer] ele diz que, todavia, "[estão] muito mais próxima[s] do original",[carece de fontes?][necessário esclarecer] e finaliza dizendo que "[…] todos esses acidentes e defeitos, que as novas traduções se empenham em preservar, não bastam para afetar o interesse que desperta no leitor a profundidade do mergulho de Dostoiévski na alma humana."[carece de fontes?]

O crítico literário Mikhail Bakhtin fundamentou sua teoria do romance em Dostoiévski. Bakhtin argumentou que a criação de múltiplas vozes (polifonia) por parte de Dostoiévski foi um avanço fundamental no desenvolvimento do romance como gênero.[141][carece de fontes?]

InfluênciaEditar

 
Monumento a Dostoiévski em Moscou

Jean-Paul Sartre classifica Dostoiévski como o ponto de partida do movimento filosófico conhecido como existencialismo, pelos questionamentos apresentados no livro Os Irmãos Karamazov: "Dostoievski escreveu: — 'Se Deus não existe, tudo é permitido'. Eis o ponto de partida do existencialismo."[142]

Para Walter Kaufmann, entretanto, Dostoiévski foi o principal precursor do existencialismo devido principalmente ao seu livro Notas do Subterrâneo,[143] uma vez que para Dostoiévski, a guerra é a revolta do povo contra a ideia de que a razão orienta tudo.[143]

Dostoiévski também foi uma grande influência no trabalho de Sigmund Freud, que considerava Os Irmãos Karamazov como o melhor romance da história.[144] Tal influência, inclusive, é fortemente ressaltada por Ernest Jones, psicanalista biógrafo oficial de Freud.[145]

Albert Einstein escreveu: "Dostoiévski oferece-me mais do que qualquer cientista, mais do que Gauss" ("o mais influente dos matemáticos"), descrevendo também o russo como "grande escritor religioso" que explora "o mistério da existência espiritual".[146]

Friedrich Nietzsche referiu-se a Dostoiévski como "o único psicólogo, diga-se de passagem, do qual tive algo a aprender: ele está entre os mais belos golpes de sorte de minha vida, mais até do que Stendhal."[147] Certa vez disse, referindo a "Notas do Subsolo": "chorei verdade a partir do sangue".[carece de fontes?] Nietzsche refere-se constantemente a Dostoiévski em suas notas e rascunhos no internato entre 1886 e 1887, além de escrever diversos resumos das obras de Dostoiévski.[carece de fontes?] "Um grande catalisador: Nietzsche e neo-idealismo russo",[carece de fontes?] disse Mihajlo Mihajlov.[carece de fontes?]

Influência na literatura brasileira
Obras literárias influenciadas por Dostoiévski
Obras cinematográficas influenciadas por Dostoiévski

Lista de obrasEditar

RomancesEditar

Novelas e contosEditar

CartasEditar

Suas cartas foram publicadas postumamente em antologias diversas.

Galeria de imagensEditar

Notas

  1. em russo: Фёдор Миха́йлович Достое́вский, Fyodor Mikháylovich Dostoyévsky; AFI[ˈfʲodər mʲɪˈxajləvʲɪtɕ dəstɐˈjɛfskʲɪj]. A falta de critérios mais definidos para a transliteração do alfabeto cirílico para o latino no idioma português faz com que existam diversas variantes da grafia do nome possam ser utilizadas; além de Fiodor Dostoiévski, pode-se encontrar comumente a versão anglicizada Fyodor Dostoievsky, e híbridos como Dostoiévsky. Ver também Romanização do russo.
  2. Calendário juliano: 30 de outubro de 1821 — 28 de janeiro de 1881)
  3. O nome Sofia é antiga forma familiar do nome Sônia, segundo Paulo Bezerra em sua tradução de Crime e Castigo (pag.35)

Referências

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BibliografiaEditar

Obras completas em russo
  • Dostoiévski, Fiódor (1972-1980). Polnoe sobranie sochinenii v 30 tomakh (komplekt iz 33 knig). Leningrad: Institutom russkoy literatury (Pushkinskim domom) Akademii nauk SSSR. ISBN 978-9662842340 

* (Ф. М. Достоевский. Полное собрание сочинений в 30 томах (комплект из 33 книг). Институтом русской литературы (Пушкинским домом) Академии наук СССР).

Outras obras e coletâneas em russo
  • Dostoiévski, Fiódor (1928-1959). Pisma. Ed. Dolinin, em 4v. Moscou: [s.n.] 
Traduções para o português
  • DOSTOIÉVSKI, Fiódor M. Crime e Castigo. Trad. Paulo Bezerra. Editora 34, São Paulo, 2001.
  • DOSTOIÉVSKI, Fiódor M. Niétotchka Niezvânova. Trad. Doris Schnaiderman. Editora 34, 2002a. ISBN 978-85-7326-252-0.
  • DOSTOIÉVSKI, Fiódor M. Obras completas e ilustradas, V. I-X. Rio de Janeiro, José Olympio.
  • DOSTOIÉVSKI, Fiodor M. O Idiota. Trad. Paulo Bezerra. Editora 34, 2002b. ISBN 978-85-7326-255-1.
Fontes secundárias
  • Nietzsche, Friedrich (2006). Crepúsculo dos Ídolos. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras. ISBN 9788535907704 
  • Sartre, Jean-Paul (1946). L'existentialisme est un Humanisme. Paris: Éditions Nagel (1996 ed., Gallimard). ISBN 2-07-032913-5 
Estudos em língua portuguesa
  • Drucker, Claudia (2006). A palavra nova: o diálogo entre Nelson Rodrigues e Dostoiévski. Brasília: Editora UNB. ISBN 978-85-230-1243-4 
  • Pondé, Luiz Felipe (2013). Crítica e Profecia: A Filosofia da Religião Em Dostoiévski. [S.l.]: LeYa. ISBN 978-8580448603 
Estudos em línguas estrangeiras (originais ou traduções)
  • Bakhtin, Joseph (1997). Problemas da poética de Dostoiévski. São Paulo: Editora Forense Universitária. ISBN 978-8521804529 
  • CATTEAU, Jacques. La Création littéraire chez Dostoïevski, Paris, Institut d'études slaves, 1978. ISBN 2720401420
  • FRANK, Joseph. Dostoevsky v.I: The Seeds of Revolt, 1821-1849. Princeton: Princeton University Press, 1976. ISBN 0-691-06260-9
  • Frank, Joseph (1983). Dostoevsky v.II: The Years of Ordeal, 1850-1859. Princeton: Princeton University Press. ISBN 0-691-06576-4 
  • Frank, Joseph (1986). Dostoevsky v.III: The Stir of Liberation, 1860-1865. Princeton: Princeton University Press. ISBN 978-0-691-01452-4 
  • Frank, Joseph (1995). Dostoevsky v.IV: The Miraculous Years, 1865-1871. Princeton: Princeton University Press. ISBN 978-0-691-04364-7 
  • FRANK, Joseph. Dostoevsky v.V: The Mantle of the Prophet, 1871-1881. Princeton: Princeton University Press, 2002. ISBN 0-691-11569-9
  • FREUD, Sigmund. Writings on Art and Literature. Stanford University Press, 1997. ISBN 0804729735, ISBN 9780804729734.
  • GROSSMAN, Leonid. Dostoevsky: A Biography His Life and Work. Princeton, Princeton University Press, 1967. ISBN 0-691-06027-4
  • Halliday, Jon; Fuller, Peter (1974). The Psychology of Gambling. [S.l.]: Allen Lane. ISBN 978-0713906424 
  • JACKSON, Robert Louis. Dialogues with Dostoevsky: The Overwhelming Questions. Stanford University Press, 1993. ISBN 0804721203, ISBN 9780804721202
  • Kaufmann, Walter (1975). Existentialism from Dostoevsky to Sartre. [S.l.]: New American Library. ISBN 0-452-00930-8 
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  • LARANGÉ, Daniel S. Récit et foi chez Fédor M. Dostoïevski. Contribution narratologique et théologique aux "Notes d'un souterrain" . Paris-Turin-Budapest, éd. L'Harmattan, 2002. ISBN 2747518450
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  • MARTÍNEZ, Isabel. Dostoievski frente al nihilismo. In. Cuenta y Razón. Madrid: FUNDES, n.24, 2002. ISSN 1989-2705. URL: http://www.cuentayrazon.org/revista/pdf/124/Num124_006.pdf
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  • MORSON, Gary Saul. Fyodor Dostoyevsky. In. Encyclopædia Britannica, 2017. URL: https://global.britannica.com/biography/Fyodor-Dostoyevsky . Acessado em 08.09.2017
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  • SCHNAIDERMAN, Boris. Dostoiévski - Prosa Poesia. Perspectiva, São Paulo, 1982. ISBN 978-8527304290
  • VOLKOV, Solomon. Petersburgo: uma história cultural. Record, 1997. ISBN 978-8501047014
  • Vucinich, Alexander (2001). Einstein and Soviet Ideology. Stanford: Stanford University Press. ISBN 0-8047-4209-X 

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