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Fiódor Dostoiévski

escritor russo
(Redirecionado de Fyodor Dostoevsky)
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Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski[nota 1][nota 2] Moscou/Moscovo, 30 de outubro de 1821 - São Petersburgo, 28 de janeiro de 1881[1][2][3][4][nota 3] foi um escritor, filósofo e jornalista do Império Russo. É considerado um dos maiores romancistas e pensadores da história, bem como um dos maiores "psicólogos" que já existiram (na acepção mais ampla do termo, como investigadores da psiquê[5]).[6][7]

Fiódor Dostoiévski
Fiódor Dostoiévski, fotografado em 1879, aos cinquenta e oito anos de idade
Nome completo Фёдор Миха́йлович Достое́вский
Nascimento 30 de outubro de 1821
Moscou, Império Russo
Morte 28 de janeiro de 1881 (59 anos)
São Petersburgo, Império Russo
Nacionalidade russa
Cônjuge Maria Dmitriévna (1857-1964)
Anna Dostoiévskaia (1867-1881)
Ocupação Escritor
Influências
Influenciados
Principais trabalhos
Religião Igreja Ortodoxa Russa
Assinatura
Fjodor signatur.jpg

Entre outros temas, a obra do autor explora o significado do sofrimento e da culpa, o livre-arbítrio, o cristianismo, o racionalismo, o niilismo, a pobreza, a violência, o assassinato, o altruísmo, além de analisar transtornos mentais, muitas vezes ligados à humilhação, ao isolamento, ao sadismo, masoquismo e ao suicídio. Pela retratação filosófica e psicológica profunda e atemporal dessas questões, seus escritos são comumente chamados de romances filosóficos e romances psicológicos.[7][8]

Dostoiévski logrou atingir certo sucesso com seu primeiro romance, Gente Pobre, o qual foi imediatamente elogiado e protegido pelo mais importante crítico russo da primeira metade do século XIX, Vissarion Belínski.[9] Contudo, o escritor não conseguiu repetir o sucesso até seu retorno da Sibéria, quando escreveu o semibiográfico Recordações da Casa dos Mortos, tratando dos anos que passou na prisão. Essa obra foi considerada por Liev Tolstói como o melhor livro de toda a literatura moderna.[10] Alguns anos depois, sua fama aumentaria ainda mais graças aos romances Crime e Castigo, O Idiota e Os Demônios.[11] Já próximo da morte, seu romance Os Irmãos Karamazov o colocaria como um dos maiores escritores de todos os tempos.[12]

A influência de Dostoiévski é imensa, tendo ele sido reconhecido como precursor dos seguinte movimentos: nietzscheanismo, psicanálise, expressionismo, surrealismo, teologia da crise e existencialismo.[13][6][14]

Índice

VidaEditar

Primeiros anosEditar

Pai e mãe de Dostoiévski

Fiódor Dostoiévski, filho de Mikhail Dostoiévski e Maria Dostoiévski,[15] nasceu em Moscou no dia 30 de outubro de 1821.[1][2][3] Seus pais não eram abastados financeiramente (ao contrário de outros grandes escritores russos da época, como Gogol, Turgueniev e Tolstoi),[16] uma vez que seu pai era médico miltar (profissão pouca valorizada financeiramente na época) e sua mãe dona de casa.[17] Mesmo com dificuldades financeiras, possuíam seis serviçais, os quais serviam, segundo Joseph Frank a partir de comentários de Andrei (irmão de Dostoiévski), como forma de manter o status social perdido da família (o pai de Dostoiévski possuía um passado relativamente nobre, o qual abandonou por vontade própria).[17]

Além da educação religiosa no cristianismo ortodoxo fornecida pela familia,[18] Dostoiévski e seus irmãos estudavam literatura e outros estudos de humanidades desde muito cedo por influência dos pais.[19] estes morreram quando o escritor ainda era muito jóvem: a mãe morreu no ano de 1836[20] e o pai pode ter sido assassinado no início de junho de 1839 pelos próprios servos de sua propriedade rural em Daravói (a tese de assassinato é hoje muito questionável.[21]

Início da carreira literáriaEditar

 
Fiódor Dostoiévski
Por Kostyantyn Trutovsky, 1847

Na Academia Militar de Engenharia de São Petersburgo, além das matérias militares essenciais e de engenharia, Dostoiévski também estudou a obra de Victor Hugo, Honoré de Balzac, George Sand e Eugène Sue, já que a faculdade tinha um bom programa de literatura, que focava principalmente a produção francesa.[22] Nesta época foi também muito influenciado pelo poeta romântico alemão Friedrich Schiller.[23]

Desde Agosto de 1841 Dostoiévski passou a morrar fora a escola de enganharia, inicialmente dividindo apartamento com colegas ou outros conhecidos[24] e com o irmão Andrei.[25] Nesta época escreveu, segundo relatos de um seu conhecido com o qual dividia o apartamento, partes de duas peças românticas, as quais não sobreviveram ao tempo e cujos títulos eram: Mary Stuart e Boris Godunov.[26] Termina o curso de engenharia em 1843.[25]

Em 1845 começa a escrever sua primeira obra, o romance epistolar Gente Pobre,[27] trabalho que iria fornecer-lhe êxitos da crítica literária, uma vez que Belínski, o mais influente crítico da literatura russa,[28] acreditou e fez acreditar ser Dostoiévski a mais nova revelação do cenário literário do pais: Belínski estava extasiado com o movimento realista na Europa, e considerou o romance de Dostoiévski como a primeira tentativa do gênero na Rússia.[29] O livro foi publicado no Almanaque de Petesburgo no ano de 1846.[30]

À Gente Pobre seguiu o romance O Duplo publicado em 1846[31] e os seguintes contos: Senhor Prokhartchin, publicado no volume de outubro de 1846 da revista Notas da Pátria,[32] dois contos escritos em 1846: Romance em Nove Cartas e Polzunkov,[33] A Senhoria escrito entre 1846-47,[34] Coração Fraco escrito em 1848,[35] três contos escritos entre 1847-48: O Ladrão Honesto, Uma Árvore de Natal e uma Boda, A mulher alheia e o marido debaixo da cama[36] e Noites Brancas[37] e Netochka Nezvanova, cuja última parte foi publicada no volume de maio da "Notas da pátria" no ano de 1949, sem, entretanto, conter o nome de Dostoiévski, uma vez que ele tinha sido preso em 23 de abril.[38] Estas obras não tiveram o êxito esperado e sofreram críticas muito negativas, inclusive de Bielínski.[39]

Nesta época[40], i.e. desde que terminou o curso na academia militar até sua prisão, Dostoiévski entrou em contato com alguns grupos da Intelligentsia russa, sendo os principais do qual participou o Círculo Petrashevski[41] e o Círculo Palm-Durov.[42] O primeiro era dedicado à discussão sobre literatura e e humanidades em geral, centrado nas obras da biblioteca de obras proibidas de Petrashevski,[43] obras que, segundo os registros da sociedade, Dostoiévski consultou em várias ocasiões.[44] O segundo, o Círculo Palm-Durov, foi formado a partir do Círculo Petrashevski e servia de fachada para radicais revolucionários, incluindo Dostoiévski,[45] o qual foi preso muito por conta de suas atividades neste círculo,[45] em que pese as acusações terem sido direcionadas apenas ao círculo principal de Petrashevski, uma vez que o Círculo Palm-Durov não chegou a ser descoberto pelas autoridades.[46]

Exílio na SibériaEditar

Detenção, julgamento e falsa execuçãoEditar

 
A falsa execução do Círculo Petrashevski

Dostoiévski foi detido na noite de 22-23 de abril de 1849 por participar do grupo intelectual Círculo Petrashevski, sob acusação de conspirar contra o czar Nicolau I.[47][6] O czar mostrou-se, depois das revoluções de 1848 na Europa, vigoroso contra qualquer organização clandestina que poderia pôr em risco sua autocracia.[48][6] O Círculo Petrashevski não era em si revolucionário, como chegou a conclusão o relatório oficial,[49] porém, uma vez que existiam vários grupos menores orbitanto ao seu redor, ele servia como fachada para alguns grupos politicamente mais radicais, como o Círculo Palm-Durov, ao qual pertencia Dostoiévski.[50] A ordem de detenção foi emitida baseada nos relatórios da chancelaria imperial russa da época, mais conhecida como "polícia secreta", realizados em conjunto com o Ministério dos Assuntos Internos, após mais de um ano de investigação.[51] A principal acusação contra Dostoiévski foi de ter lido em público passagens de uma carta semi-aberta de Vissarion Belínski ao escritor Nikolai Gogol, na qual o escritor foi criticado por suas visões políticas e sociais conservadoras. Dostoiévski leu esta carta tanto no Círculo Petrashevski quanto no Círculo Palm-Durov, além de ter ajudado a disseminá-la.[52]

Dostoiévski passou oito meses na Fortaleza de São Pedro e São Paulo, onde trabalhou de forma incansável, escrevendo várias notas para diferentes obras: "Quando trabalhava em liberdade, sempre me interrompia com distrações, mas aqui, a tensão que segue à escrita deve passar sozinha",[53] escreveu em carta para seu irmão Mikhail. As notas não sobreviveram e a única obra concluída desta época foi O Pequeno Herói.[54] Nestes oito meses continuaram as investigações do Círculo Petrashevski finalizadas em 17 de setembro de 1949, quando foram enviadas ao czar, o qual ordenou a abertura de um tribunal misto (civil e militar) para julgar, sob leis militares, 28 acusados, destes 15, incuindo Dostoiévski, foram condenados no dia 16 de novembro à pena de morte por fuzilamento. Após diversos recursos, Nicolau I perdoou muitos dos sentenciados a morte. Dostoiévski foi condenado a oito anos de trabalho forçado, reduzido para quatro anos seguido de serviço militar por tempo indeterminado.[55]

Em 22 de dezembro, os prisioneiros foram transferidos e levados ao lugar da execução, a Praça Semenovsky, onde suas sentenças foram lidas publicamente.[56] Três membros do grupo - Petrashevski, Mombelli e Grigoryev - foram amarrados aos postes em frente ao pelotão de fuzilamento. Dostoiévski era um dos três próximos [57] e neste momento de aguardo disse a Nikolai Spechniev, o qual se encontrava atrás: -"Nós estaremos com Cristo", o revolucionário respondeu -"Um pouco de poeira".[58]

Antes do comando para o fuzilamento, chegou uma ordem do czar para que a pena fosse comutada para prisão com trabalhos forçados. Soube-se depois que a ordem havia sido assinada há dias, mas que o czar exigira a falsa execução. Dostoiévski recebeu os grilhões e partiu para a Sibéria em poucos dias.[59] O Príncipe Michkin, de O Idiota, oferece uma descrição sobre essa mesma experiência.[60] É comumente aceito, e afirmado pelo próprio Dostoiévski, que após a simulação da execução ele passou a apreciar a vida de uma maneira muito diferente da anterior, iniciando um processo de transformação política, literária e existencial que estaria terminada quando de seu retorno a São Petersburgo 10 anos depois.[6][61][62]

SibériaEditar

Dostoiévski foi primeiramente enviado a uma prisão localizada em Tobolsk, onde os pressos eram redistribuidos para diversos campos de trabalho a fim de cumprirem suas penas de trabalho forçado (chamado sistema Katorga). Fato curioso foi que em Tobolsk Dostoiévski encontrou muitos dezembristas, diversos dos quais estavam acompanhados de suas esposas, as quais se exilavam espontaneamente para acompanhar seus maridos. Foram elas que forneceram a Dostoiévski, e aos outros prisioneiros recém chegados, seu exemplares do Novo Testamento, o único livro permitido na prisão.[63]

Dostoiévski foi encaminhado para uma prisão em Omsk, centro administrativo da Sibéria, onde cumpriu por quatro anos a sentença de trabalhos forçados. Esta prisão estava em péssima condições, tendo Dostoiévski escrito em carta ao irmão, que o local deveria ter sido demolido anos atrás.[64] Na prisão em Omsk era possível, apesar de difícil, conseguir algum outro tipo de literatura além do Novo Testamento.[65]

Um dos fatos que tiveram mais impacto em Dostoiévski foi descobrir que na prisão, em que pese diluídas as diferenças de classe, os servos não aceitavam as classes superiores como camaradas, como iguais.[66] Dostoiévski conta como os camponeses zombavam dos intelectuais por sua falta de destreza física nos trabalhos[67] e quando Dostoiévski, sem querer, acabou se juntando a um protesto contra a má qualidade da comida da prisão, os prisioneiros não o aceitaram e o expulsaram.[68]

Foi na prisão da Sibéria que Dostoiévski sofreu seu primeiro ataque de epilepsia, doença que o acompanharia pelo resto da vida e que também atinge vários de seus personagens, como o Príncipe Míchkin de O Idiota, Kiríllov de Os Demônios e Smerdiákov de Os Irmãos Karamazov. As cartas que Dostoiévski enviou ao irmão deixam claro que os ataques epilépticos iniciaram na Sibéria, em que pese ele já ter apresentado problemas nervosos antes disso.[69]

Em fevereiro de 1854, Dostoiévski deixou a prisão na Sibéria para cumprir pena de serviço militar por tempo indeterminado.[70] Após seu retorno a São Petersburgo, depois de cumprida a pena de serviço militar, Dostoiévski relatou suas experiências na Sibéria no texto biográfico Recordações da Casa dos Mortos.

Exército e primeiro casamentoEditar

 
Dostoiévski em uniforme (1858)

Dostoiévski foi libertado da prisão de Omsk em fevereiro de 1854, quando foi mandado para cumprir pena servindo no exército russo em seu Sétimo Batalhão do Corpo Militar da Sibéria por tempo indeterminado.[71] Permaneceu por quatro anos na fortaleza de Semipalatinsk, no Cazaquistão.[6]

Neste período, apaixonou-se por Maria Dmitriévna, mulher casada e mãe de um filho chamado Pável Issáiev (Pasha), do qual Dostoiévski era tutor.[72] Ela sofria de tuberculose.[73] Quando Maria Dmitriévna mudou-se com seu marido e filho para Kuynetsk, ambos trocaram cartas semanalmente e uma destas cartas ainda sobrevive.[74] Em agosto de 1855, morreu Alexander Ivanovich Isaev, marido de Maria Dmitriévna,[75] e como em novembro de 1855 Dostoiévski foi promovido,[75] ele pediu a amada em casamento. Não sem muitas idas e vindas (inclusive um caso com outro homem)[76] Maria Dmitriévna aceita, em dezembro de 1856, se casar com Dostoiévski e em 7 de fevereiro de 1857 ocorreu a cerimônia.[77]


Na noite de núpcias, Dostoiévski sofreu uma violenta crise de epilepsia, quando recebeu pela primeira o diagnóstico de tal doença.[78] Aproximadamente um ano depois, em meandros de janeiro de 1858, Dostoiévski entrou oficialmente com pedido de aposentadoria do exército, afim de receber tratamento médico.

No início de 1859, Dostoiévski conseguiu ser dispensado do exército para tratar da saúde, sob a condição de não residir nem em São Petersburgo, nem em Moscou, escolheu, então, mudar-se para Tver, meio caminho entre as duas cidades proibidas. No início de julho de 1859 inicia sua viagem para sua nova residência.[79]

A conversão de DostoiévskiEditar

Por conversão de Dostoiévski entende-se a mudança radical de convições morais, políticas, religiosas e existenciais pelas quais passou Dostoiévski no período entre sua detenção e seu retorno a São Petersburgo, conversão afirmada pelo próprio autor.[80]

Segundo o próprio Dostoiévski, o momento exato da conversão teria sido durante as festividades de Páscoa do segundo ano que passara na Sibéria: após assistir a uma extremamente violenta, e para ele insuportável, festividade dos servos na prisão, Dostoiévski lembrou-se do caso do servo Marey (servo de seu pai), o qual teria ocorrido quando ele ainda era criança. O servo Marey teria tratado Dostoiévski com extremo amor paternal, quando este, com oito anos, estava desesperado de medo por acreditar ter ouvido uivos de lobos na propriedade da família. Esta lembrança modificou o modo como ele vinha compreendendo os servos desde que chegou ao presídio - com muito rancor, por não ser aceito como um igual -: depois desta experiência e lembrança, como por um milagre, o rancor desapareceu.[81]

Sinteticamente, Dostoiévski foi de uma crença ingênua de que poderia liderar os inocentes servos como um igual - cresça que sustinha antes da condenação -, passando por uma relação de extrema repulsa em relação aos servos da prisão, causada pelo fato dos servos não o aceitarem como igual, e chegando, finalmente, a voltar a ter fé na moral do povo russo, nos servos, não mais como movimento político, mas como seres humanos capazes de infinito amor[82] e, como qualquer ser humano, do infinito mal.[83] Trata-se de amor cristão, o que mostra que a conversão também foi religiosa.[84]

Carreira literária pós-exílioEditar

Regresso e contexto sociopolíticoEditar

O reinício de Dostoiévski como escritor começa, de fato, antes mesmo de ser liberado do exército, logo após começar a receber seu ordenado como oficial (março de 1857) e de ser restituído de seus direitos civís, incluindo o direito de publicação (maio de 1857), quando publicou seu único texto completo na época, aquele escrito enquanto detido para investigação: O Pequeno Herói.[85] Entre 1857 e 1859, escreveu ainda duas novelas cômicas: O Sonho do Tio e Aldeia de Stiepantchikov e Seus Habitantes, não obtendo nenhum deles sucesso.[86][87]

No final de dezembro de 1859 regressou finalmente com sua família (sua esposa e o enteado) a São Petersburgo.[88] O retorno não foi dos mais fáceis, tendo em vista que sua longa ausência não só o afastou dos antigos contatos de São Petersburgo, como também de toda a produção cultural russa, incluindo a literatura e o jornalismo, uma vez que o acesso aos livros era bem difícil durante o tempo em que cumpriu pena.[89]

A situação política que encontrou em São Petersburgo não foi conflituosa: uma vez que os impulsos revolucionários dos literatos e de Dostoiévski tinham como principal finalidade a libertação dos servos da Rússia e na medida em que Alexandre II, czar que assumiu o trono em 1855,[90] estava determinado a libertá-los, tanto a Inteligência Russa como Dostoiévski estavam favoráveis ao czar.[91] No caso de Dostoiévski, também sabemos que sua conversão, a qual o impulssionou contrariamente ao socialismo, tornavam o czar e sua política ainda mais simpáticos (v. seção A conversão de Dostoiévski deste artigo). A abolição veio de direito em 1861.[92] A trégua, entretanto, não durou muito uma vez que a forma da libertação, a qual ocorreu em 16 de fevereiro de 1861, não parecia favorecer muito os servos.[93]

Na época do retorno de Dostoiévski a São Petersburgo, i.e. no início dos ano 1860, os escritores mais aclamados eram Tchernichevski e Dobrolyubov.[94] Ambos, assim como a maioria dos pensadores da época, acreditavam em uma ética utilitarista e tinham uma visão inocente da ciência e do racionalismo, assim como da possibilidade deles de desvendarem e responderem, por si mesmos, todas as questões humanas.[91]

O reinício em São PetersburgoEditar

 
Mikhail Dostoiévski, irmão de Fiódor Dostoiévski, ca. 1864

A primeira obra publicada por Dostoiévski após seu retorno a São Petersburgo foi a autobiográfica e de enorme sucesso Recordações da Casa dos Mortos, baseada em suas experiências como prisioneiro.[6][95] Esta obra inaugurou este gênero literário russo.[96] Ela foi publicada em capítulos separados no jornal O Mundo Russo (Russkii Mir): seus dois primeiros capítulos foram publicados em 1860 e republicados no início de 1861, seguidos de três capítulos publicados semanalmente, quando a publicação foi então interrompida e nunca mais retomada.[97] Muito tempo depois, em 1922, foi encontrado e publicado um capítulo esquecido das Recordações da Casa dos Mortos, o qual tinha sido escrito para reveter uma censura governamental feita à obra, porém, uma vez que a obra acabou publicada sem este capítulo, ele ficou esquecido nos arquivos do governo.[98] Este capítulo esquecido continha, pela primeira vez nos escritos de Dostoiévski, aquilo que seria um dos temas de suas grandes obras: a liberdade humana como bem supremo, contraposta, p.ex., a uma suposta supressão total das necessidades vitais do ser humano pela utopia socialista.[99]

Em 8 de julho de 1860, Mikhail, irmão de Dostoiévski, foi autorizado a publicar a revista literária Tempo (Vremia), da qual seria editor juntamente com Dostoiévski, que foi muito bem sucedida.[100] A posição política defendida pelos editores de Tempo era a fusão mediadora de ocidentalismo e eslavofilia,[101] podendo por isso ser entendida como a principal referência de um novo movimento no cenário literário russo, o Pochvennichestvo, cujos os principais membros, além do próprio Dostoiévski, era Strakhov e Grigoryev.[102] O movimento pochvennichestvo acreditava que a questão mais emergêncial a ser tratada pelos escritores era a síntese cultural pacífica entre os "bem educados" e a massa russa, entre ocidentalismo e eslavofilia, e não uma revolução violenta guiada por intelectuais educados na cultura europeia, afim de impor ao povo russo um ideal de vida iluminista.[103] Na revista Tempo, além de suas próprias ficções, Dostoiévski também publicava traduções, resenhas, comentários e alguns estudos,[104] incluindo, p.ex., um estudo sobre Edgar Allan Poe.[105]

Desde de autorização para a publicação de Tempo, enquanto Mikhail terminava os preparos burocráticos para publicação da revista, Dostoiévski escrevia seu primeiro romance pós-Sibéria, o romance em folhetim Humilhados e Ofendidos, o qual também foi agraciado com grande sucesso.[6] O romance começou a ser publicado desde o primeiro volume de Tempo, em janeiro de 1861, continuando por vários dos seus números.[100] Esse romance, segundo Joseph Frank, teria inaugurado um estilo melodramático que Dostoiévski usaria mais tarde em suas grandes obras.[106] Segundo Frank, portanto, nesta época Dostoiévski funda o estilo[106] e o tema[99] de suas grandes obras: a dramatização da contraposição entre liberdade e racionalidade. Neste período, Dostoiévski também começou a frequentar o circulo literário que se encontrava na casa de Milyukov, ex membro do círculo Palm-Durov.[107]

Em 7 de junho de 1862, Dostoiévski partiu para sua primeira viagem pela Europa (Alemanha, Bélgica, França e Inglaterra[108]).[109] Nesta viagem, ele jogou roleta pela primeira vez, adquirindo um vício que o acompanharia pelo resto da vida, apesar de praticado apenas durante viagens.[110] Também foi nesta viagem que Dostoiévski visitou o Palácio de Cristal, símbolo dos avanços tecnológicos europeus, o qual será usado pelo autor em alguns de seus textos posteriores.[111] Já no final de 1862, após seu retorno da Europa, Dostoiévski publicou Uma História Desagradável e depois, como última importante obra publicada na revista Tempo, uma vez que em maio de 1863 a autorização de funcionamento da revista foi cancelada pelo governo - sob falsa acusação de apoio à revolta polonesa -,[112] Dostoiévski publicou Notas de Inverno sobre Impressões de Verão,[113] obra que retratava e comentava sua viagem à Europa do ano anterior.[114]

Em abril de 1864, Dostoiévski e seu irmão Mikhail iniciaram a edição de uma segunda revista literária, a Época (Epokha), seguindo a mesma orientação política e editorial que sua antecessora, a Tempo.[115] Na Época, Dostoiévski publicaria suas Notas do Subterrâneo, dando início às suas grandes obras.[116]

As grandes obras I: Notas do Subterrâneo, Crime e Castigo e O JogadorEditar

 
Anna Dostoiévskaia,1871 - Segunda esposa de Dostoiévski

Notas do Subterrâneo, texto que abre o período das grandes obras de Dostoiévski, foi escrito em um momento extremamente difícil para o autor, uma vez que a saúde de sua esposa, Marya Dimitrievna, por conta de sua tuberculose, havia piorado muito, vindo ela a falecer em 12 de abril de 1864.[117] Em Notas do Subterrâneo Dostoiévski retratou a necessidade humana insuperável de liberdade, podendo ele fazer qualquer coisa para mantê-la, inclusive o masoquismo.[118] Se não bastasse a morte da esposa, Dostoiévski perdeu seu irmão Milkhail logo em seguida, no dia 9 de julho de 1864.[119] Nesta época, além de alguns artigos, escreveu O Crocodilo,[120] texto inacabado que compôs o último número da revista Época, que fechou por problemas financeiros em março de 1865.[121][122]

Após o fechamento da Época, da morte da primeira mulher e do seu irmão (sempre ao seu lado na edição das revistas), Dostoiévski entrou em uma nova fase de sua vida: ele não mais procurou se inserir no agitado movimento político/literário russo, mas, ao contrário, se isolo a fim de escrever seus romances de forma mais tranquila,[123] mas, apesar de afastado das obrigações burocráticas e sociais das revistas, por ocasição das dívidas e do seu vício em jogos, não alcançou a tranquiliade que desejava.[124] Foram nos seis anos de isolamento social que ele escreveu as obras primas Crime e Castigo, O Idiota, Os Demónios, além de O Jogador e O Eterno Marido.[123]

Planejado inicialmente para ser um simples conto, Crime e Castigo se tornou um romance de peso, uma das obras mais importantes do autor.[125] Seus primeiros dois capítulos forem publicados, respectivamente, nos números de janeiro e feveriro de 1865 da revista O Mensageiro Russo, adquirindo grande fama e muita crítica.[125] Um curioso fato que teria aumentado em muito o interesse geral pela obra foi o assassinato, comedido por um estudante chamado A.M. Danilov em 12 de janeiro de 1866, de um agiota e seu criado visando o roubo do seu apartamento, episódio muito semelhante com o enredo do romance de Dostoiévski.[126] O sucesso dos dois primeiros capítulos trouxe à revista O Mensageiro Russo nada menos que 500 novos assinantes.[127] Esse fato, entretanto, não aliviou a tensão entre o escritor e seus editores, os quais continuaram demandando diversas correções dos textos apresentados por Dostoiévski, além de apressarem constantemente a finalização do romance, recomendando a Dostoiévski, inclusive, a contratação de uma estenógrafa para ajudar Dostoiévski com um romance que deveria ser entregue antes mesmo de Crime e Castigo e o qual Dostoiévski nem mesmo havia começado, o romance O Jogador . O manuscrito de O Jogador foi entregue ao editor no dia 29 de outubro de 1866, ie. dentro do prazo combinado.[128][129]

A contratada como estenógrafa foi Anna Grigoryevna Snitkina, futura Anna Grigoryevna Dostoíevskaia, [130] com quem Dostoiévski se casou (seu segundo casamento).[131] Anna Grigoryevna Dostoíevskaia tinha, na época, vinte anos.[132] Não confundir a futura esposa de Dostoiévski com a também conhecida sua Anna Korvin-Krukovskaya: esta escreveu dois textos para a revista Época sob o pseudônimo de Yury Orbelov, denominados Um sonho e Mikhail,[133] e, apesar de ter sido pedida em casamento por Dostoiévski, recusou o pedido.[133]

Após o casamento, para fugir da pressão dos credores entre outros problemas, o casal resolveu viajar pela Europa e partiram em abril de 1867. A viagem estava programada para durar alguns meses, mas acabou durando quatro anos:[134] o casal residiu em Dresden,[135] Genebra,[136] Vevey,[137], Milão,[138] Florença[138] e novamente em Dresden.[139] Durante a viagem, Dostoiévski jogou muito na roleta e acabou perdendo algumas vezes o seu próprio dinheiro, assim como o de sua mulher, a qual tinha pago os custos iniciais da viagem, uma vez que Dostoiévski estava muito endividado na época.[133] Em Geneva, no dia 5 de março de 1968, nasceu a primeira filha do casal, Sônia[140][141][142] ou Sofia.[143][nota 4] Sônia morreu pouco tempo depois, em 12 de maio de 1868, por causa de um gripe, e foi enterrada no dia 24 de maio.[137]

As grandes obras II: O Idiota e Os DemôniosEditar

 
Retrato de Fiódor Dostoiévski
Por Vassilij Grigorovič Perov, 1872

Nos meses de outubro e novembro de 1867 Dostoiévski já estava elaborando rascunhos para sua próxima grande obra, O Idiota.[145] A história da composição deste romance está bem registrada nos três cadernos de notas deixados pelo escritor, cadernos que demonstram a grande dificuldade e intensidade com que o autor trabalhou em seu perssonagem principal, Príncipe Míchkin. [146] O Idiota foi publicado na revista O mensageiro russo, sendo que seus primeiros capítulos foram publicados em janeiro de 1868[138] e os último em dezembro de 1869.[147] A obra O Idiota é considerada a mais original de Dostoiévski,[148] expondo em sua máxima força a compreensão do autor sobre o "Tipo Dom Quixote" (ver seção abaixo), o tipo cristão, i.e. o ideal existencial de Dostoiévski.[149]

Na primeira semana de dezembro de 1869, Dostoiévski terminou de escrever o conto O Eterno Marido, texto que, mesmo tendo sido escritoexclusivamente por questões financeiras,[150] não deixou de ser considerado "o mais bem acabado conto de Dostoiévski",[151] esse texto foi publicado no início de 1870 pela revista russa Dawn[150]. Nesta época, Dostoiévski já possuía rascunhos para uma gigantesca obra em resposta a Guerra e Paz de Lev Tolstoy, a obra não escrita "A vida de um grande pecador".[152] Essas notas dariam origem a três romances de Dostoiévski: Os Demônios, O Adolescente e Os Irmãos Karamazov.[153] A mudança de rumo ocorreu logo após a publicação de "O Eterno Marido", entre dezembro de 1869 e e fevereiro de 1870, quando Dostoiévski deixou de desenvolver "A vida de um grande pecador" para iniciar a elaboração dos rascunhos para Os Demônios.[154] O fato que desencadeou a mudança de rumo foi o assassinato de um estudante chamado Ivan Ivanov em Moscou pelo grupo revolucionário secreto liderado por Sergey Nechayev, ao qual o estudante pertencia.[155]

Enquanto escrevia Os Demônios, nasceu a segunda filha do casal, Liubov (26 de setembro de 1870)[156] e, em 8 de junho de 1871,[157] com o livro ainda pela metade, Dostoiévski retornou à Rússia.[158] Na viagem de retorno Dostoiévski, apostou pela última vez na roleta.[159] Já em Petersburgo, aonde Dostoiévski residiu logo após retornar à Rússia, nasceu, no dia 16 de julho de 1871, o terceiro filho do casal, Fiódor.[160] Na primavera de 1872, a família se mudou para Staraia[160] e os últimos capítulos de Os Demônios foram publicados no volume de novembro e dezembro de 1872 da revista O Mensageiro Russo, tendo sido publicada em forma de livro no ano seguinte,[161] editorado pelo próprio Dostoiévski e sua esposa.[162]

Outra atividade editorial de Dostoiévski foi seu envolvimento com a revista russa O cidadão, da qual se tornou editor em 1 de janeiro de 1873.[163] Nesta revista escreveu sua famosa coluna Diário de um escritor,[164] a qual se tornaria, posteriormente, uma publicação separada. Durante as atividades de editoração, no início de 1874, Dostoiévski começou a adoecer, início do que seria sua efisema pulmonar,[165] deixando a edição da revista em abril[165] e partindo em junho para Bad Ems na Alemanha, visando tratamento médico.[166] Em "Diário de um escritor", entendido agora como a coletânea dos textos de sua colunas, encontrava o público uma síntese das posições políticas do seu tempo encarnadas em personagens vividamente criados por Dostoiévski,[167] onde, entretanto, é possível encontrar apenas uma obra ficcional completa, o conto Bobok.[168]

Dostoiévski retornou a Staraia, já melhor de saúde, no dia 1 agosto de 1873, iniciando imediatamente seus trabalhos em O Adolescente,[169] obra que publicou na popular revista Notas da Pátria:[170] a última parte do romance foi publicada no inverno de 1875.[171] O livro não foi bem recebido nem pela crítica da época nem pela atual.[172] Nesta mesma época, mais precisamente em 10 de agosto de 1875, nasceu o quarto filho do casal, Aleixo (em alusão a Santo Aleixo, "o homem de Deus").[171]

A fim de gerenciar sua nova publicação, Dostoiévski e sua família voltaram para São Petersburgo em meados de setembro de 1875:[173] sua nova publicação foi a retomada do Diário de um Escritor (de 1876 a 1877)[174], agora de forma autônoma,[175] o qual chegou a ser o periódico mais influente até então visto na Rússia[176] e com o qual Dostoiévski alcançou uma fama nunca antes experimentada.[177] Também é digno de nota os contos publicados neste periódico: em fevereiro de 1976 publicou O Mujique Marei,[178] em novembro de 1876 publicou Uma Criatura Gentil,[179] e em abril de 1877 publicou O Sonho de um Homem Ridículo.[180] O último número de Diário de um Escritor foi publicado em dezembro de 1877.[181]

Obra prima e morteEditar

 
Dostoiévski em seu leito de morte
Por I. N. Kramskoy

Em fevereiro de 1878 Dostoiévski foi convidado, em nome do czar (na época Alexamdre II) para ser tutor, em uma conversa, dos seu filhos mais novos (Sergei e Paulo),convite que ele aceitou.[183] Em 16 maio de 1878 morreu seu filho Aleksei (Aliosha).[184]

Os primeiros rascunhos de Os Irmãos Karamazov foram escritos em abril de 1878[185] e a publicação de sua primeira parcela (suas duas primeiras partes) ocorreu no dia 1 de fevereiro de 1879 pela revista "O mensageiro russo"[186] e foram um sucesso imediato.[187] Poucos meses depois, em abril, ocorrereu o atentado contra o czar por Alexander Soloviev.[188] Entre 5 e 9 de junho de 1880[189] participou da inauguração do monumento a Alexandre Pushkin em Moscou, onde proferiu um discurso memorável sobre o destino da Rússia no mundo.[190] Em 7 de novembro, terminou a última parte de Os Irmãos Karamazov e enviou para o editor.[191] Em 9 de dezembro do mesmo ano, foi publicada a versão em dois volumes de Os Irmãos Karamazov, cuja venda nos primeiros dias foi da metade das 3000 cópias impresas.[192]

Ainda antes de terminar os Irmãos Karamazov, em agosto de 1880, Dostoiévski havia reativado o seu Diário de Escritor[190] publicação que durou até a morte do autor, seu último volume fou publicado em janeiro de 1881.[193]

Após três dias de cama, porém sem dor, morreu em 28 de janeiro de 1881[4] de uma hemorragia pulmonar associada com enfisema.[194] Uma processão fúnebre foi organizada com representantes de diversos grupos sociais, estava presente uma grande multidão (aproximadamente 30 000) seguiu o corpo,[195] o qual foi velado na Igreja do Espírito Santo.[196]

ObraEditar

Infuências e controvérsiasEditar

TemasEditar

Joseph Frank considera que o tema mais característico e marcante das obras de Dostoiévski é a descrição das consequencias psicológicas da assunção de determinadas ideias (ideologias), como é o caso, entre vários outros, do homem doente, o Homem do Subsolo (Notas do Subterrâneo) ao assumir a ideologia determinista.[209]

Neste sentido ainda, no período pós-siberiano, o tema recorrente de Dostoiévski foi aquele por ele mesmo chamado de "conflito entre ideias e coração"[210] ou entre razão e fé cristã.[211] Este tema foi nomeado por Joseph Frank de "crítica da ideologia" e explicado como a contraposição entre as ideias europeias da época, principalmente o socialismo, e a moral cristã ortodoxa viseral do povo russo, servos principalmente.[212] Trata-se, portanto, de tematizar sua própria conversão (v. A conversão de Dostoiévski neste mesmo artigo). Este tema também pode ser descrito como a defesa da liberdade enquanto o bem humano supremo,[213] i.e., a contraposição entre as leis de Cristo e as leis do ego.[214] Outro modo de denominar o mesmo tema, um modo mais sintético, é afirmar que no período pós-sibéria, mais especificamente a partir de Notas do Subterrâneo, o tema central de Dostoiévski é a superação do niilismo.[215]

Dostoiévski tinha por tema, diferentemente dos outros escritores que descreviam o círculo da família moldados na tradição e nas "belas formas", o caos familiar, a humilhação, o sadomasoquismo, a ganância, a doença, etc.[6] Essencialmente um escritor de mitos (e às vezes comparado por isso a Herman Melville), criou um trabalho com uma enorme vitalidade e de um poder quase hipnótico, caracterizado por cenas febris e dramáticas, onde os personagens apresentam comportamento escandaloso, e atmosferas explosivas, envolvidas em diálogos socráticos apaixonados, a busca de Deus, do mal e do sofrimento dos inocentes.[6]

Reinhold Niebuhr atribui a Dostoiévski um "universalimo ético" pelo qual o escritor defenderia e pregaria o destino da Rússia como o lugar de onde partiria o reino do bem e da justiça na terra.[216]

Estilo e estéticaEditar

Ao contrário do estilo utilizado na prosa da época, Dostoiévski não se fixava muito em uma descrição fotográfica dos personagens e do âmbiente em que estavam, concentrando-se mais no enredo. Este fato teria contribuído, segundo Joseph Frank, para a má recepção por parte da crítica da época de muitos textos de Dostoiévsi.[217] Este estilo - grande atenção para os elementos do enredo em prol da descrição fotográfica - utilizou Dostoiévski em todos os seus grandes romances, fato que trouxe uma certa homogeneidade estilística a estas obras. Os elementos comuns foram enumeradas por Joseph Frank da seguinte maneira: a) um enredo de ação extremamente rápido e condensado - muitos elementos ocorrendo em um breve espaço de tempo -; b) viradas inesperdas e abruptas; c) personagens que são caracterizados mais pelos seus diálogos que pelas suas descrições fotográficas; e d) clímax ocorrendo entre diversas cenas tumultuosas.[218]

Estudiosos como Mikhail Bakhtin têm caracterizado o trabalho de Dostoiévski como diferente de outros romancistas, ele parece não aspirar por uma visão única e vai além da descrição sob diferentes ângulos, caracterizando-o como romance polifônico. Dostoiévski engenhou romances cheios de força dramática em que os personagens e os opostos pontos de vista são realizados livremente, em violenta dinâmica.[219]

Em relação ao narrador, segundo Joseph Frank, a partir de Crime e Castigo Dostoiévski acentua uma tradição provinda de Jane Austen de aproximar o ponto de vista do narrador ao ponto de vista do personagem principal, inclusive com técnicas de mudanças de tempo, retratação de memórias do personagem, entre outras.[220] Este estilo seria continuado por Henry James, Joseph Conrad, Virginia Woolf e James Joyce, estes dois últimos inaugurando a técnica do fluxo de consciência.[220]

O própio Dostoiévski chama seu estilo de realismo fantástico (não confundir com o movimento literário sul americano), indicando que suas obras dramatizam aspectos da realidade, afim de, no presente, retratar o passado e as possibilidades futuras. É o caso do Homem do Subsolo: fantástico porque improvável do exato modo como descrito, real porque possível, e, sobretudo real-fantástico porque consequência do processo histórico de ocidentalização da Rússia e projeção no futuro na medida em que profetiza um tipo existencial. Estas explicações de Dostoiévski são fornecidas, sobretudo, quando de sua análise da pintura Rebocadores do Volga. [221]

Personagens tipoEditar

  • Tipo Dom Quixote (Cristãos humildes e modestos) - Príncipe Michkin, Sonia Marmeládova, Aliocha Karamazov, Aliocha Valkovski, Coronel Rostanev (Aldeia de Stiepantchikov e Seus Habitantes), Aleksei Valkovski (Humilhados e Ofendidos);[223][224]

O tipo Dom Quixote terá sua melhor, mais ampla e detalhada construção no Príncipe Michkin de O Idiota.[199] O tipo Dom Quixoteé para Dotoiévski o mais perfeito exemplo moral de cristão.[225] Uma tal comparação entre Dom Quixote e Cristo, entretanto, não ocorre pela primeira vez com Dostoiévski: também Kierkegaard, Turgueniev e Charles Dickens com seu Sr. Pickwick estabeleceram tais paralelos.[225][226] Diferentemente do que ocorre com Dom Quixote e Sr. Pickwick, entretanto, Dostoiévski não utiliza a comédia para conseguir a simpatia do leitor com seu personagem, ele utiliza a inocência, Príncipe Michkin é um inocente.[226]

  • Tipo Cleópatra (Cínicos e libertinos) - Cleópatra (Notas do Subterrâneo), Svidrigáilov (Crime e Castigo), Fiódor Karamazov (Irmãos Karamazov), Stavroguin (Os Demônios), Príncipe Valkorski(Humilhados e Ofendidos);[227][228]

O tipo Cleópatra ilustra o sadismo amoroso e erótico.[229]

O tipo Homem do subsolo caracteriza o sofredor em busca de ser amado, busca que se transforma em perversão (sadismo), por causa do egoísmo e da impossibilidade de amar. [230]

Posição políticaEditar

NiilismoEditar

No final de 1962 a posição de Dostoiévski, e de sua revista Tempo, por conta dos constantes ataques aos radicais niilistas, já fora entendida por um colaborador, Pomyalovsky, como reacionária. A esta "acusação" que teria respondido Dostoiévski, segundo tradução de Joseph Frank: -"O nosso jornal é reacionário? Não, nem mesmo aos olhos de nossos inimigos." Frank afirma, entretanto, que a posição de Dostoiévski não pode ser entendida como reacionária, na medida em que continuava confrontando o governo.[232] Na mesma época, 1962-1963 a revista literária O Contemporâneo afirmava que Tempo padecia por não escolher posição.[233] No entanto,mesmo nesta época a opinião geral não podia deixar de reconhecer que Dostoiévski era progressista, principalmente quando se olhava obras como Recordações da Casa dos Mortos.[234]

Segundo Joseph Frank, pode-se dizer que a matriz teórica dos niilistas russos era uma mistura de: utilitarismo inglês, socialismo utópico frances, ateísmo feuerbachniano, materialismo mecânicista e determinismo.[92] A esse movimento se contrapôs Dostoiévski desde seu retorno da Sibéria até seu último romance, Os Irmãos Karamazov: a estratégia artística usada por Dostoiévski em Notas do Subterrâneo, Crime e Castigo e Os Demônios para combater o niilismo foi a apresentação de como absurda era a vida de personagens que defendiam as teses niilistas do ponto de visa moral e psicológico.[235] (v. Frank[236])

Relação entre Intelligentsia e povoEditar

Em Notas de Inverno sobre Impressões de Verão Dostoiévski afirma que os burgueses franceses não precisavam temer nem a classe trabalhadora, nem os comunistas e nem os socialistas, pois nenhum grupo ocidental era de fato contrário ao espírito burguês.[237] Para Dostoiévski, o convencimento racional almejado pelo socialismo ocidental nunca poderia mitigar a vontade que o homem possui de liberdade, portanto, uma comunhão constrangida nunca seria possível, só seria possível uma em que o indivíduo livremente resolve-se pela fraternidade. Em outros termos, apenas uma ética cristã poderia chegar ao socialismo e não uma ética utilitarista.[238]

Nacionalismo e imperialismoEditar

Apesar de sua posição mediadora entre ocidentalismo e eslavofilia Dostoiévski acreditava no povo russo, era nacionalista, uma vez que, para ele, a palavra nova adviria da Rússia para o mundo.[240] Neste sentido, era contra os defensores da independência cultural da Ucrânia), em outras palavras, era imperialista[241] e apoiava o czar (apesar de sempre ter sido a favor da liberação dos servos, v. seção acima Detenção, julgamento e falsa execução).[242]

Seu nacionalismo não o torna apenas contrário à causa ucraniana, mas, também, contrário a qualquer causa que, em sua perspectiva, possa ser contra a nação imperial russa, como é o caso da causa judaica.[243] Sua posição em relação aos judeus não foi sempre contrária: a revista Tempo, da qual era editor, defendeu mais de uma vez a causa judaica em nome do amor cristão.[244] Esta dicotomia volta a se repetir em um artigo publicado em Diários de um Escritor no mês demarço de 1877, uma vez que, Dostoiévski, ao mesmo tempo que considerava os judeus como "um estado dentro do estado" e, portanto, prejudicial à nação russa,[245] defendia a extensção total ds direitos civis para eles.[246]

Sua alternativa à estruturação racional da sociedade, ao niilismo, é a sociedade construída a partir do amor entre os seres humanos, o amor cristão (o cristianismo que estaria enraizado no povo russo, i.e. o ortodoxo).[247] Ou ainda, como resumiria Josef Bohatec: Dostoiévski defendia um imperialismo do amor, que era, em todo caso, um imperialismo.[248]

ConservadorismoEditar

O local de melhor apreensão da posição política de Dostoiévski é o mito O Grande Inquisidor (parte da obra Os Irmãos Karamazov), onde o escritor se coloca, ao mesmo tempo, contra as ideias socialistas, mais especificamente contra o socialismo científico (posição que o fez ser visto como conservador)[249], e contra a Igreja Católica, entendendo que ambos são frutos do niilismo i.e., do iluminismo europeu (v. também ocidentalismo).[250] Dostoiévski representa o niilismo socialista e católico através da imágem da terceira Tentação de Cristo, uma vez que ambos estariam atrás deo poder mundano em troca do pão diário.[251] O que não significa, em hipótese alguma, que Dostoiévski era contra a igualdade social, lembrando que ele foi inclusive preso por defendê-la (v. neste artigo a seção Exílio na Sibéria): ele era contra uma igualdade social construída a partir do racionalismo europeu: para ele, a fonte moral da igualdade já se encontrava na Rússia antes mesmo do iluminismo, i.e. no cristianismo ortodoxo.[252] Dostoiévski parece mesmo nunca ter largado o sonho dos socialistas utópicos ao qual se identificou quando jóvem, como é possível conferir em O Sonho de um Homem Ridículo.[253]

InfluênciaEditar

 
Monumentos a Dostoiévski em Moscou
 
Monumentos a Dostoiévski em Homburg

LiteraturaEditar

Geral

O crítico literário Mikhail Bakhtin fundamentou sua teoria do romance em Dostoiévski. Bakhtin argumentou que a criação de múltiplas vozes (polifonia) por parte de Dostoiévski foi um avanço fundamental no desenvolvimento do romance como gênero.[255]

Influência na literatura brasileira

FilosofiaEditar

Existencialismo Francês
Ver também: Existencialismo

Jean-Paul Sartre classifica Dostoiévski como o ponto de partida do movimento filosófico conhecido como existencialismo, pelos questionamentos apresentados no livro Os Irmãos Karamazov: "Dostoievski escreveu: — 'Se Deus não existe, tudo é permitido'. Eis o ponto de partida do existencialismo."[256] Tanto Sartre como Albert Camus têm as Notas do Subterrâneo e personagens como Raskolnikov (Crime e Castigo) e Kirillov (Os Demônios) como referência,[257] lugar onde Dostoiévski defende a liberdade como uma necessidade psicologico-moral de todo indivíduo.[258]

Nietzsche
Ver também: Friedrich Nietzsche

Friedrich Nietzsche referiu-se a Dostoiévski como "o único psicólogo, diga-se de passagem, do qual tive algo a aprender: ele está entre os mais belos golpes de sorte de minha vida, mais até do que Stendhal."[259]

Para Walter Kaufmann, entretanto, Dostoiévski foi o principal precursor do existencialismo devido principalmente ao seu livro Notas do Subterrâneo,[260] uma vez que para Dostoiévski, a guerra é a revolta do povo contra a ideia de que a razão orienta tudo.[260]

PsicanáliseEditar

Ver também: Psicanálise

Dostoiévski também foi uma grande influência no trabalho de Sigmund Freud, que considerava Os Irmãos Karamazov como o melhor romance da história.[261] Tal influência, inclusive, é fortemente ressaltada por Ernest Jones, psicanalista biógrafo oficial de Freud.[262]

OutrosEditar

Albert Einstein escreveu: "Dostoiévski oferece-me mais do que qualquer cientista, mais do que Gauss" ("o mais influente dos matemáticos"), descrevendo também o russo como "grande escritor religioso" que explora "o mistério da existência espiritual".[264]


Lista de obrasEditar

RomancesEditar

Novelas e contosEditar

Não ficçãoEditar

Notas

  1. em russo: Фёдор Миха́йлович Достое́вский, Fyodor Mikháylovich Dostoyévsky; AFI[ˈfʲodər mʲɪˈxajləvʲɪtɕ dəstɐˈjɛfskʲɪj]. A falta de critérios mais definidos para a transliteração do alfabeto cirílico para o latino no idioma português faz com que diversas variantes da grafia do nome possam ser utilizadas; além de Fiodor Dostoiévski, pode-se encontrar comumente a versão anglicizada Fyodor Dostoievsky, e híbridos como Dostoiévsky. Ver também Romanização do russo.
  2. Todas as datas deste artigo referem-se ao Calendário juliano.
  3. Segundo a britannica (https://www.britannica.com/biography/Fyodor-Dostoyevsky), a qual oferece ambas as datas, uma outra notação seria: (11 de novembro de 1821 — 09 de fevereiro de 1881) (Morson, 2017)
  4. O nome Sofia é antiga forma familiar do nome Sônia, segundo Paulo Bezerra em sua tradução de Crime e Castigo (pag.35)

Referências

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BibliografiaEditar

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* (Ф. М. Достоевский. Полное собрание сочинений в 30 томах (комплект из 33 книг). Институтом русской литературы (Пушкинским домом) Академии наук СССР).
** (F.M. Dostoevsky, Obras Completas em 30 volumes (um conjunto de 33 livros) pelo Instituto de Literatura Russa (Casa Pushkin) da Academia de Ciências da URSS).

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Traduções
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  • DOSTOIÉVSKI, Fiódor M. Niétotchka Niezvânova. Trad. Doris Schnaiderman. Editora 34, 2002a. ISBN 978-85-7326-252-0.
  • DOSTOIÉVSKI, Fiódor M. Obras completas e ilustradas, V. I-X. Rio de Janeiro, José Olympio.
  • DOSTOIÉVSKI, Fiodor M. O Idiota. Trad. Paulo Bezerra. Editora 34, 2002b. ISBN 978-85-7326-255-1.
  • Dostoiévski, Fiódor (1993). The Grand Inquisitor. Indianapolis: Hackett 
Fontes secundárias
  • Nietzsche, Friedrich (2006). Crepúsculo dos Ídolos. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras. ISBN 9788535907704 
  • Sartre, Jean-Paul (1946). L'existentialisme est un Humanisme. Paris: Éditions Nagel (1996 ed., Gallimard). ISBN 2-07-032913-5 
Estudos em língua portuguesa
  • Drucker, Claudia (2006). A palavra nova: o diálogo entre Nelson Rodrigues e Dostoiévski. Brasília: Editora UNB. ISBN 978-85-230-1243-4 
  • Pondé, Luiz Felipe (2013). Crítica e Profecia: A Filosofia da Religião Em Dostoiévski. [S.l.]: LeYa. ISBN 978-8580448603 
Estudos em línguas estrangeiras (originais ou traduções)
  • Bakhtin, Joseph (1997). Problemas da poética de Dostoiévski. São Paulo: Editora Forense Universitária. ISBN 978-8521804529 
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  • Frank, Joseph (1983). Dostoevsky v.II: The Years of Ordeal, 1850-1859. Princeton: Princeton University Press. ISBN 0-691-06576-4 
  • Frank, Joseph (1986). Dostoevsky v.III: The Stir of Liberation, 1860-1865. Princeton: Princeton University Press. ISBN 978-0-691-01452-4 
  • Frank, Joseph (1995). Dostoevsky v.IV: The Miraculous Years, 1865-1871. Princeton: Princeton University Press. ISBN 978-0-691-04364-7 
  • Frank, Joseph (2003). Dostoevsky v.V: The Mantle of the Prophet, 1871-1881. Princeton: Princeton University Press. ISBN 0-691-11569-9 
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Ligações externasEditar