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Os astecas eram uma cultura mesoamericana que floresceu no centro do México no período pós-clássico, de 1300 a 1521. Os povos astecas incluíam diferentes grupos étnicos do México central, particularmente aqueles grupos que falavam a língua náuatle e dominaram grandes partes da Mesoamérica entre os séculos XIV ao XVI. A cultura asteca era organizada em cidades-Estados (altepetl), algumas das quais se juntaram para formar alianças, confederações políticas ou impérios. O Império Asteca era uma confederação de três cidades-Estados estabelecida em 1427, Tenochtitlan (cidade-Estado dos mexicas), Texcoco e Tlacopan, anteriormente parte do império dos tepanecas, cujo poder dominante era o Azcapotzalco. Embora o termo astecas seja restrito aos mexicas de Tenochtitlan, também é amplamente usado para se referir a comunidades ou povos náuatles do México central na era pré-hispânica,[1] bem como a era colonial espanhola (1521-1821).[2] A definição dos astecas tem sido o tema da discussão acadêmica, desde que o cientista alemão Alexander von Humboldt estabeleceu seu uso comum no início do século XIX.[3]

A maioria dos grupos étnicos do México central, no período pós-clássico, compartilhava traços culturais básicos da Mesoamérica e muitas das características da cultura asteca não podem ser consideradas exclusivos deste povo. Pela mesma razão, a noção de "civilização asteca" é melhor entendida como um horizonte particular de uma civilização geral da Mesoamérica.[4] A cultura do México central inclui o cultivo de milho, a divisão social entre nobreza (pipiltin) e plebeus (macehualtin), um panteão (caracterizando Tezcatlipoca, Tlaloc e Quetzalcoatl), e o sistema calendárico de um xiuhpohualli de 365 dias intercalado com um tonalpohualli de 260 dias. O deus patrono Huitzilopochtli, construções de pirâmides gêmeas e o artigo cerâmico conhecido como Astecas I a III são particulares dos mexicas de Tenochtitlan.[4]

No século XIII, o Vale do México era o coração de uma população densa e da ascensão das cidades-Estados. Os mexicas chegaram atrasados ​​ao vale e fundaram a cidade de Tenochtitlan em ilhotas pouco promissoras no lago Texcoco, tornando-se depois o poder dominante da Tríplice Aliança Asteca (ou Império Asteca). Era um império tributário que expandiu sua hegemonia política muito além do Vale do México, conquistando outras cidades-Estados da Mesoamérica no final do período pós-clássico. Originou-se em 1427 como uma aliança entre as cidades Tenochtitlan, Texcoco e Tlacopan, que aliaram-se para derrotar o Estado tepaneca de Azcapotzalco, que anteriormente havia dominado a bacia do México. Logo, Texcoco e Tlacopan foram relegadas a uma parceria menor dentro da aliança, com Tenochtitlan se tornando o poder dominante. O império ampliou seu alcance por uma combinação de comércio e conquista militar. Nunca foi um verdadeiro império territorial controlando um território através de grandes guarnições militares em províncias conquistadas, mas dominava suas cidades-Estados clientes principalmente ao implantar governantes amistosos conquistados, construindo alianças matrimoniais entre as dinastias governantes e estendendo uma ideologia imperial às suas cidades,[5] que prestavam homenagem ao imperador asteca, o Huey Tlatoani, em uma estratégia econômica que limitava a comunicação e o comércio entre os sistemas periféricos, tornando-os dependentes do centro imperial para a aquisição de bens de luxo.[6] A influência política do império alcançou o sul, como Chiapas e Guatemala, e abarcou a Mesoamérica, do Pacífico ao Atlântico.

O império atingiu sua extensão máxima em 1519, pouco antes da chegada de um pequeno grupo de conquistadores espanhóis liderados por Hernán Cortés, que aliou-se a cidades-Estados inimigas dos mexicas, particularmente Tlaxcalteca, bem como a outras organizações políticas mexicas, incluindo Texcoco, sua antiga aliada na Tríplice Aliança. Após a queda de Tenochtitlán em 13 de agosto de 1521 e a captura do imperador Cuauhtemoc, os espanhóis fundaram a Cidade do México sobre as ruínas da antiga capital asteca. De lá, eles prosseguiram com o processo de conquista e incorporação dos povos mesoamericanos ao Império Espanhol. Com a destruição da superestrutura do Império Asteca em 1521, os espanhóis utilizaram as cidades-Estado sobre as quais o Império Asteca foi construído para governar as populações indígenas por meio de seus nobres locais. Esses nobres prometeram lealdade à coroa espanhola e converteram-se, ao menos nominalmente, ao cristianismo, em troca de serem reconhecidos como nobres pelos espanhóis. Os nobres atuaram como intermediários para transmitir tributos e mobilizar o trabalho para seus novos senhores, facilitando o estabelecimento do domínio colonial espanhol.[7]

A cultura e a história astecas são conhecidas principalmente por evidências arqueológicas encontradas em escavações como a do renomado Templo Mayor na Cidade do México; de escritos indígenas; relatos de testemunhas oculares de conquistadores espanhóis, como Cortés e Bernal Díaz del Castillo; e especialmente das descrições de cultura e história astecas dos séculos XVI e XVII escritas por clérigos espanhóis e astecas letrados em espanhol ou náuatle, como o famoso, ilustrado e bilingue (espanhol e náuatle) Códice florentino, composto em doze volumes criado pelo frei franciscano Bernardino de Sahagún, em colaboração com informantes indígenas astecas. Importante para o conhecimento dos náuatles após a conquista europeia foi o treinamento de escribas indígenas para criar textos alfabéticos em náhuatl, principalmente para ajudar no processo de domínio colonial espanhol. No seu auge, a cultura asteca teve tradições mitológicas e religiosas ricas e complexas, bem como alcançou notáveis realizações arquitetônicas e artísticas.

Índice

História

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 Ver artigos principais: Mesoamérica e Era pré-colombiana

Origem e consolidação

 
Brasão de armas mexicano mostrando o sinal para a fundação da capital asteca.

O controle político do populoso e fértil vale do México ficou confuso após 1100. Gradualmente, os astecas, uma tribo do norte, assumiram o poder depois de 1200. Os astecas eram um povo indígena da América do Norte, pertencente ao grupo nahua. Os astecas também podem ser chamados de mexicas (daí México). Migraram para o vale do México (ou Anahuác) no princípio do século XIII e assentaram-se, inicialmente, na maior ilha do lago de Texcoco (depois todo drenado pelos espanhóis), seguindo instruções de seus deuses para se fixarem onde vissem uma águia pousada em um cacto, devorando uma cobra.A partir dessa base formaram uma aliança com duas outras cidades – Texcoco e Tlacopán – contra Atzcapotzalco, derrotaram-no e continuaram a conquistar outras cidades do vale durante o século XV, quando controlavam todo o centro do México como um Império ou Confederação Asteca, cuja base econômico-política era o modo de produção tributário. No princípio do século XVI, seus domínios se estendiam de costa a costa, tendo ao norte os desertos e ao sul o território maia.

Os astecas, que atingiram alto grau de sofisticação tecnológica e cultural, eram governados por uma monarquia eletiva, e organizavam-se em diversas classes sociais, tais como nobres, sacerdotes, guerreiros, comerciantes e escravos, além de possuírem uma escrita pictográfica e dois calendários (astronômico e litúrgico).

Ao estudar a cultura asteca, deve-se prestar especial atenção a três aspectos: a religião, que demandava sacrifícios humanos em larga escala, particularmente ao deus da guerra, Huitzilopochtli; a tecnologia avançada, como a utilização eficiente das chinampas (ilhas artificiais construídas no lago, com canais divisórios) e a vasta rede de comércio e sistema de administração tributária.

Expansão e império

O império asteca era formado por uma organização complexa que os sobrepôs militarmente a diversos povos e comunidades na Meso-América. Os astecas possuíam uma superioridade cultural e isso justificaria seu controle político sobre as inúmeras comunidades nestas regiões, o que era argumentado por eles mesmos.

No período anterior à sua expansão, os astecas estavam no mesmo estágio cultural de seus vizinhos de outras etnias. Por um processo muito específico, numa expansão rápida, passaram a subjugar, dominar e tributar os povos das redondezas, outrora seus iguais. É importante lembrar estes aspectos pelo fato de terem se tornado dominantes por uma expansão militar, e não por uma suposta sofisticação cultural própria e autônoma.

Apesar de sacrifícios humanos serem uma prática constante e muito antiga na Mesoamérica, os astecas se destacaram por fazer deles um pilar de sua sociedade e religião. Segundo mitos astecas, sangue humano era necessário ao sol, como alimento, para que o astro pudesse nascer a cada dia. Sacrifícios humanos eram realizados em grande escala; algumas centenas em um dia só não era incomum. Os corações eram arrancados de vítimas vivas, e levantados ao céu em honra aos deuses. Os sacrifícios eram conduzidos do alto de pirâmides para estar perto dos deuses e o sangue escorria pelos degraus. A economia asteca estava baseada primordialmente no milho, e as pessoas acreditavam que as colheitas dependiam de provisão regular de sangue por meio dos sacrifícios.

 
Em 1521, soldados espanhóis liderados por Hernán Cortés invadiram o Império Asteca e ocuparam e saquearam sua capital, Tenochtitlán (atual Cidade do México).

Durante os tempos de paz, "guerras" eram realizadas como campeonatos de coragem e de habilidades de guerreiros, e com o intuito de capturar mais vítimas. Eles lutavam com clavas de madeira para mutilar e atordoar, e não matar. Quando lutavam para matar, colocava-se nas clavas uma lâmina de obsidiana.

Dominação espanhola

 Ver artigo principal: Conquista do Império Asteca

Sua civilização teve um fim abrupto com a chegada dos espanhóis no começo do século XVI. Tornaram-se aliados de Cortés em 1519. O governante asteca Moctezuma II considerou o conquistador espanhol a personificação do deus Quetzalcóatl, e não soube avaliar o perigo que seu reino corria.

Ele recebeu Cortés amigavelmente, mas posteriormente o tlatoani foi tomado como refém. Em 1520 houve uma revolta asteca e Moctezuma II foi assassinado. Seu sucessor, Cuauhtémoc (filho do irmão de Montezuma), o último governante asteca, resistiu aos invasores, mas em 1521 Cortés sitiou Tenochtitlán e subjugou o império. Muitos povos não-astecas, submetidos à Confederação, se uniram aos conquistadores contra os astecas.

Em 1545, uma grande [[epidemia[[, identificada como ‘cocoliztli’, levou ao desaparecimento 80% da população asteca. Um estudo recente provou que foi causado por a bactéria Salmonella Paratyphi que pode ter viajado para o México com animais domésticos trazidos da Espanha.[8]

Organização social e política

Nobres e plebeus

 
Fólio do Codex Mendoza mostrando um plebeu subindo posições ao levar prisoneiros em guerra. Cada traje podia ser alcançado com o recolhimento de um certo número de cativos.

A classe mais alta eram os pīpiltin[nb 1] ou a nobreza. A condição de pilli era hereditária e atribuía certos privilégios ao seu titular, como o direito de usar roupas particularmente finas e consumir bens de luxo, bem como possuir terras e direcionar o trabalho dos servos para os plebeus. Os nobres mais poderosos eram chamados senhores (teuctin, em náuatle) e possuíam e controlavam propriedades ou casas nobres, além de poderem servir nos mais altos cargos do governo ou como líderes militares. Nobres constituíam cerca de 5 por cento da população.[9]

A segunda classe eram os mācehualtin, originalmente camponeses, mas depois ampliados às classes trabalhadoras mais baixas em geral. Eduardo Noguera 1974, p. 56 estimou que, nas últimas fases, apenas 20 por cento da população era dedicada à agricultura e à produção de alimentos. Os outros 80 por cento da sociedade eram guerreiros, artesãos e comerciantes. Eventualmente, a maioria dos mācehuallis foram dedicados às artes e ofícios. Suas obras eram uma importante fonte de renda para a cidade.[10] Um macehualtin poderia tornar-se escravo (tlacotin), por exemplo, se tivesse que se vender a serviço de um nobre devido a dívidas ou pobreza, mas a escravização não era um status herdado entre os astecas. Alguns macehualtin eram sem terra e trabalhavam diretamente para um senhor (mayehqueh), enquanto que a maioria dos plebeus estava organizada em calpolis, o que lhes dava acesso a terras e propriedades.[11]

Os plebeus conseguiam obter privilégios semelhantes aos dos nobres demonstrando destreza na guerra. Quando um guerreiro levava um cativo, ele acumulava o direito de usar certos emblemas, armas ou roupas, e à medida que pegava mais cativos, sua posição e prestígio aumentavam.[12]

Família e gênero

 
Fólio do Codex Mendoza mostrando a criação e educação de meninos e meninas astecas, como eles foram instruídos em diferentes tipos de trabalho, e como foram punidos por mau comportamento.

O padrão da família asteca era bilateral, contando parentes do lado dos pais e mães da mesma família, e a herança também era passada tanto aos filhos quanto às filhas. Isso significava que as mulheres podiam possuir propriedades, assim como os homens, e que as mulheres, portanto, tinham uma boa dose de liberdade econômica de seus cônjuges. No entanto, a sociedade asteca era altamente marcada pelo gênero, com papéis separados para homens e mulheres. Esperava-se que os homens trabalhassem fora de casa, como fazendeiros, comerciantes, artesãos e guerreiros, enquanto se esperava que as mulheres assumissem as responsabilidades da esfera doméstica. As mulheres podiam, no entanto, trabalhar fora de casa como pequenas comerciantes, médicas, sacerdotes e parteiras. A guerra era altamente valorizada e uma fonte de alto prestígio, mas o trabalho das mulheres era concebido metaforicamente como equivalente à guerra e igualmente importante para manter o equilíbrio do mundo e agradar os deuses. Essa situação levou alguns estudiosos a descrever a ideologia de gênero asteca como uma ideologia não de uma hierarquia de gênero, mas de complementaridade de gênero, com os papéis de gênero sendo separados, mas iguais.[13]

Entre os nobres, as alianças matrimoniais eram frequentemente usadas como uma estratégia política, com nobres menos importantes casando-se com filhas de linhagens mais prestigiosas, cujo status era herdado por seus filhos. Nobres eram também poligâmicos, com senhores com muitas esposas. A poligamia não era muito comum entre os plebeus e algumas fontes a descrevem como sendo proibida.[14]

Altépetl e calpolli

A principal unidade da organização política asteca era a cidade-estado, em náuatle chamada de altépetl, que significa "montanha de água". Cada altépetl era liderada por um governante, um tlatoani, com autoridade sobre um grupo de nobres e uma população de plebeus. Uma altépetl incluía uma capital que servia como centro religioso, o centro de distribuição e organização de uma população local que frequentemente vivia espalhada em pequenos assentamentos ao redor da capital. Uma altépetl era também a principal fonte de identidade étnica para os habitantes, embora fosse frequentemente composta por grupos que falavam diferentes línguas. Cada altépetl via-se como estando em um contraste político a outras altépetl, e a guerra foi travada entre estados altépetl. Na bacia do México, uma altépetl era composta de subdivisões chamadas calpolli, que serviam como principal unidade organizacional para os plebeus. Em Tlaxcala e no vale de Puebla, uma altépetl foi organizada em unidades teccalli encabeçadas por um senhor (tecutli), que controlaria um território e distribuiria os direitos de terra entre os plebeus. Uma calpolli era ao mesmo tempo uma unidade territorial onde os plebeus organizavam o trabalho e o uso da terra, já que a terra não era propriedade privada, e frequentemente uma unidade de parentesco como uma rede de famílias que eram ligadas através de casamentos. Os líderes da calpolli podiam ser ou se tornar membros da nobreza, e nesse caso eles podiam representar seus interesses no governo altepício.[15][16]

No vale de Morelos, o arqueólogo Michael E. Smith estimou que uma altépetl típica tinha entre 10 e 15 mil habitantes e cobria uma área entre 70 e 100 quilômetros quadrados. No vale de Morelos, os tamanhos das altépetl eram um pouco menores. Smith argumentou que a altépetl era principalmente uma unidade política, composta por uma população leal a um senhor, e não como uma unidade territorial. Smith fez essa distinção pois, em algumas áreas, pequenos assentamentos com diferentes alianças altépetis foram intercaladas.[17]

Tríplice Aliança e Império Asteca

 
Mapa indicando a extensão máxima atingida pelo Império Asteca.

O Império Asteca foi governado por meios indiretos. Como a maioria dos impérios europeus, era etnicamente muito diversificado, mas diferente da maioria dos impérios europeus, era mais um sistema de tributos do que um sistema único de governo. O etno-historiador Ross Hassig argumentou que o império asteca é mais bem entendido como um império informal ou hegemônico porque não exerceu autoridade suprema sobre as terras conquistadas; apenas esperava que os tributos fossem pagos e exercia força somente na medida em que era necessário para garantir o pagamento de tributos.[18][19] Foi também um império descontínuo pois nem todos os territórios dominados estavam conectados; por exemplo, as zonas periféricas do sul de Xoconochco não estavam em contato direto com o centro. A natureza hegemônica do império asteca pode ser vista no fato de que os governantes locais geralmente foram restituídos em seus cargos uma vez que sua cidade-estado foi conquistada, e os astecas geralmente não interferiam nos assuntos locais, desde que os pagamentos de tributos fossem feitos e as elites locais participavam voluntariamente. Essa conformidade foi assegurada pelo estabelecimento e manutenção de uma rede de elites, relacionadas por meio de casamentos mistos e diferentes formas de trocas.[20]

No entanto, a expansão do império foi realizada através do controle militar das zonas fronteiriças, em províncias estratégicas, onde foi adotada uma abordagem muito mais direta à conquista e ao controle. Essas províncias estratégicas estavam frequentemente isentas de exigências tributárias. Os astecas até investiram nessas áreas, mantendo uma presença militar permanente, instalando governantes fantoches ou até mesmo deslocando populações inteiras do centro para manter uma base de apoio leal.[21] Desta forma, o sistema asteca de governo distinguia entre diferentes estratégias de controle nas regiões externas do império, longe do centro do vale do México. Algumas províncias foram tratadas como províncias tributárias, que forneceram a base para a estabilidade econômica do império e províncias estratégicas, que serviram de base para uma maior expansão.[22]

Embora a forma de governo seja muitas vezes referida como um império, na verdade a maioria das áreas dentro do império foram organizadas como cidades-estados, conhecidas como altépetl em náuatle. Estas eram pequenas sociedades governadas por um líder hereditário (tlatoani) de uma legítima dinastia nobre. O período asteca inicial foi uma época de crescimento e competição entre as altépetl. Mesmo depois que a confederação da Tríplice Aliança foi formada em 1427 e começou sua expansão através das conquistas, a altépetl continuou sendo a forma dominante de organização no nível local. O papel eficiente da altépetl como unidade política regional foi amplamente responsável pelo sucesso da forma hegemônica de controle do império.[23]

Economia

Agricultura e subsistência

 
Ilustração do Florentine Codex mostrando o cultivo de milho, o principal alimento, com o uso de ferramentas simples.

Como todos os povos mesoamericanos, a sociedade asteca foi organizada em torno da agricultura do milho. O ambiente úmido no vale do México, com seus muitos lagos e pântanos, permitiu a agricultura intensiva. As principais plantações, além do milho, eram feijões, abóboras, pimentões e amaranto. Particularmente importante para a produção agrícola no vale foi a construção de chinampas nos lagos, ilhas artificiais que permitiram a conversão das águas rasas em jardins altamente férteis que poderiam ser cultivados durante todo o ano. As chinampas são extensões de terras agrícolas feitas pelo homem, criadas a partir de camadas alternadas de lama do fundo dos lagos, além de matéria vegetal e outra vegetação. Esses canteiros foram separados por canais estreitos, o que permitiu que os agricultores se movessem entre eles de canoa. As chinampas eram terras extremamente férteis e produziam, em média, sete safras anuais. Com base nos rendimentos atuais das chinampas, estima-se que um hectare de chinampa alimentaria 20 indivíduos e 9.000 hectares de chinampas poderiam alimentar 180.000.[24]

Os astecas intensificaram ainda mais a produção agrícola através da construção de sistemas de irrigação artificial. Enquanto a maior parte da agricultura ocorreu fora das áreas densamente povoadas, dentro das cidades havia outro método de agricultura (de pequena escala). Cada família tinha a sua própria horta, onde plantavam milho, frutas, ervas, remédios e outras plantas importantes. Quando a cidade de Tenochtitlán se tornou um grande centro urbano, a água era fornecida à cidade por meio de aquedutos de nascentes nas margens do lago e eles organizaram um sistema que coletava lixo humano para ser usado como fertilizante. Através da agricultura intensiva, os astecas conseguiram sustentar uma grande população urbanizada. O lago também era uma rica fonte de proteínas na forma de animais aquáticos, como peixes, anfíbios, camarões, insetos e ovos de insetos, e aves aquáticas. A presença de tais fontes variadas de proteína significava que havia pouco uso da carne de animais domésticos (somente perus e cães eram mantidos), e os estudiosos calcularam que não havia escassez de proteína entre os habitantes do vale do México.[25]

Artesanato e ofícios

 
Uma típica louça cerâmica asteca pintada de preto e laranja.

O excesso de oferta de produtos alimentícios permitiu que uma parcela significativa da população asteca se dedicasse a outras atividades além da produção de alimentos. Além de cuidar da produção de alimentos, as mulheres teciam têxteis a partir de fibras de agave e algodão. Os homens também se dedicavam a especializações artesanais, como a produção de cerâmica e de ferramentas de obsidiana e pederneira, bem como artigos de luxo como bordado de pérolas, trabalhos com penas e elaboração de ferramentas e instrumentos musicais. Ocasionalmente uma calpollis inteira era especialista em um único ofício e, em alguns sítios arqueológicos, grandes proporções foram encontradas onde, aparentemente, uma única especialidade artesanal era produzida.[26][27]

Os astecas não produziam muito trabalho de metal, mas conheciam a tecnologia básica de fundição de ouro e combinavam ouro com pedras preciosas, como jade e turquesa. Os produtos de cobre eram geralmente importados dos Tarascans de Michoacán.[28]

Comércio e distribuição

 
Modelo diorama do mercado asteca em Tlatelolco.

Os produtos foram distribuídos através de uma rede de mercados; alguns mercados eram especializados em uma única mercadoria (por exemplo, o mercado de cães de Acolman) e outros mercados em geral com presença de muitos produtos diferentes. Os mercados eram altamente organizados com um sistema de supervisores que cuidavam de que apenas os comerciantes autorizados pudessem vender seus produtos e puniam aqueles que enganavam seus clientes ou vendiam mercadorias precárias ou falsificadas. Uma típica cidade teria um mercado semanal (a cada cinco dias), enquanto cidades maiores mantinham mercados todos os dias. Cortés indicou que o mercado central de Tlatelolco, cidade irmã de Tenochtitlan, era visitado por 60.000 pessoas diariamente. Alguns vendedores nos mercados eram pequenos vendedores; os fazendeiros podiam vender alguns de seus produtos, os oleiros vendiam suas vasilhas e assim por diante. Outros fornecedores eram comerciantes profissionais que viajavam de mercado para mercado buscando lucros.[29]

Os pochtecas eram comerciantes especializados organizados em guildas exclusivas. Eles faziam longas expedições para todas as partes da Mesoamérica, trazendo de volta bens de luxo exóticos, e serviam como juízes e supervisores do mercado de Tlatelolco. Embora a economia do México asteca fosse comercializada (em seu uso de dinheiro, mercados e comerciantes), a terra e a mão de obra não eram geralmente mercadorias à venda, embora alguns tipos de terra pudessem ser vendidos entre nobres.[30] No setor comercial da economia, vários tipos de dinheiro estavam em uso regular.[31] Pequenas compras foram feitas com grãos de cacau, que tiveram que ser importados de regiões de planície. Nos mercados astecas, um pequeno coelho valia 30 feijões, um ovo de peru custava 3 feijões e um tamal custava um único feijão. Para compras maiores, comprimentos padronizados de tecido de algodão chamados de quachtli foram usados. Havia diferentes graus de quachtli, variando em valores de 65 a 300 grãos de cacau. Cerca de 20 quachtli poderia sustentar um plebeu por um ano em Tenochtitlan.[32]

Tributo

 
Um fólio do Codex Mendoza mostrando o tributo pago a Tenochtitlan em mercadorias comerciais exóticas pelo altepetl de Xoconochco na costa do Pacífico.

Outra forma de distribuição de bens foi feita através do pagamento de tributo. Quando um altépetl era conquistado, o vencedor impunha um tributo anual, geralmente pago na forma de qualquer produto local que fosse mais valioso ou precioso. Várias páginas do Codex Mendoza listavam cidades tributárias juntamente com os bens que forneciam, que incluíam não apenas luxos como penas, roupas adornadas e miçangas de pedras verdes, mas também produtos mais úteis, como tecidos, lenha e comida. O tributo era geralmente pago duas vezes ou quatro vezes por ano em épocas diferentes.[33]

Escavações arqueológicas nas províncias governadas por astecas mostraram que a incorporação ao império teve custos e benefícios para os povos provinciais. Do lado positivo, o império promoveu o comércio e os produtos exóticos, da obsidiana ao bronze, conseguiram chegar às casas dos plebeus e dos nobres. Parceiros comerciais também incluíram o povo inimigo conhecido como Purépechas (também denominados de Tarascans), que serviram como uma fonte de utensílios de bronze e jóias. Do lado negativo, o tributo imperial impôs um ônus aos lares mais comuns, que tiveram que aumentar seu trabalho para pagar sua parcela de tributo. Os nobres, por outro lado, muitas vezes se deram bem sob o domínio imperial por causa da natureza indireta da organização imperial. O império teve que confiar nos reis e nobres locais e ofereceu-lhes privilégios para ajudar na manutenção da ordem e do tributo.[34]

Urbanismo

A sociedade asteca combinava uma tradição agrária rural relativamente simples com o desenvolvimento de uma sociedade verdadeiramente urbanizada, com um sistema complexo de instituições, especializações e hierarquias. A tradição urbana na Mesoamérica foi desenvolvida durante o período clássico com grandes centros urbanos como Tenochtitlán, com uma população bem acima de 100.000 habitantes, e na ascensão dos astecas a tradição urbana estava enraizada na sociedade mesoamericana, com os centros urbanos servindo como espaço para o desenvolvimento das principais funções religiosas, políticas e econômicas para toda a população.[35]

Tenochtitlán

 Ver artigo principal: Tenochtitlán
 
Mapa da cidade insular de Tenochtitlán.

A capital do império asteca era Tenochtitlan, agora o local da moderna Cidade do México. Construída em uma série de ilhotas no Lago de Texcoco, o plano da cidade foi baseado em um layout simétrico que a dividiu em quatro seções chamadas campan. Tenochtitlan foi construída de acordo com um plano fixo e centrada em uma área ritualística, onde a Grande Pirâmide de Tenochtitlan foi erguida a 50 m (164 04 pé) acima da cidade. Casas eram feitas de madeira e argila, os telhados eram feitos de caniço, embora pirâmides, templos e palácios fossem geralmente feitos de pedra. A cidade estava entrelaçada com canais, que eram úteis para o transporte. O antropólogo Eduardo Noguera estimou a população em 200.000 com base na contagem de casas e na incorporação da população de Tlatelolco (inicialmente uma cidade independente, mas que depois se tornou um subúrbio de Tenochtitlan).[24] Se as ilhotas e margens ao redor do Lago de Texcoco são incluídas, as estimativas variam de 300.000 a 700.000 habitantes. Michael E. Smith deu um número um pouco menor de 212.500 habitantes para Tenochtitlan, situada em uma área de 1.350 hectares e uma densidade populacional de 157. A segunda maior cidade do vale do México no período asteca foi Texcoco, com cerca de 25.000 habitantes espalhados por mais de 450 hectares.[36]

O centro de Tenochtitlán era um espaço sagrado, uma área quadrada murada que abrigava o Grande Templo, templos para outras divindades, o campo de golfe, o calmecac (uma escola para os nobres), e uma caveira cremalheira, em que eram "exibidos os crânios de vítimas sacrificadas, um palácio penitencial do tlatoani e um palácio de mercadores. Ao redor do recinto sagrado estavam os palácios reais dos governantes."[37]

O Grande Templo

 
Uma maquete em escala do Grande Templo no Museo Templo Mayor, na cidade do México.

O ponto central de Tenochtitlan era o Templo Mayor, o Grande Templo, uma grande pirâmide escalonada com uma escada dupla que levava até dois santuários geminados – um dedicado a Tlaloc, e o outro a Huitzilopochtli. Este foi o lugar onde a maioria dos sacrifícios humanos foram realizados durante os festivais rituais e os corpos das vítimas sacrificadas jogados para baixo das escadas. O templo foi ampliado em várias plataformas, e a maioria dos governantes astecas fez questão de acrescentar mais uma plataforma, cada uma com uma nova dedicação e inauguração. O templo foi escavado no centro da Cidade do México e as ricas ofertas dedicatórias estão expostas no Museu do Templo Mayor.[38]

O arqueólogo Eduardo Matos Moctezuma, em seu ensaio "Simbolismo do Templo Mayor", supõem que a orientação do templo é indicativa da totalidade da visão que os mexicas tinham do universo (cosmovisão). Matos Moctezuma afirmou que o "centro principal, ou umbigo, onde os planos horizontal e vertical se cruzam, isto é, o ponto a partir do qual o plano celeste ou superior e o plano do submundo começam e as quatro direções do universo se originam, é o Templo Mayor de Tenochtitlan." Ele apoia sua suposição alegando que o templo age como uma personificação de um mito vivo onde "todo poder sagrado é concentrado e onde todos os níveis se cruzam."[39][40]

Outras grandes cidades-estados

Outras grandes cidades astecas foram algumas das antigas cidades-estados centradas em torno do lago, incluindo Tenayuca, Azcapotzalco, Texcoco, Colhuacan, Tlacopan, Chapultepec, Coyoacán, Xochimilco e Chalco. No vale de Puebla, Cholula era a maior cidade com o maior templo pirâmide da Mesoamérica, enquanto a confederação de Tlaxcala consistia em quatro cidades menores. Em Morelos, Cuahnahuac era uma das principais cidades da tribo tlahuica falante de náuatle, e Tollocan, no vale de Toluca, era a capital da tribo Matlatzinca, que incluía falantes de náuatle, otomi e a língua hoje chamada de Matlatzinca. A maioria das cidades astecas tinha um layout semelhante, com uma praça central com uma pirâmide principal com duas escadarias e um templo duplo direcionado para o oeste.[35]

Religião

A religião asteca era organizada em torno da prática de rituais de calendário dedicados a um panteão de diferentes divindades. Semelhante a outros sistemas religiosos mesoamericanos, tem sido geralmente entendida como uma religião politeísta agrícola com elementos de animismo. Central na prática religiosa era a oferta de sacrifícios às divindades, como forma de agradecer ou pagar pela continuação do ciclo da vida.[41]

Divindades

 
A divindade Tezcatlipoca retratada no Codex Borgia, um dos poucos códices pré-hispânicos existentes.

As principais divindades adoradas pelos astecas eram Tlaloc, uma divindade da chuva e tempestade; Huitzilopochtli, uma divindade solar e tutelar da tribo dos mexicas; Quetzalcoatl, uma divindade do vento, céu e estrela e herói cultural; e Tezcatlipoca, uma divindade do noite, magia, profecia e destino. O Grande Templo em Tenochtitlan tinha dois santuários em seu topo, um dedicado a Tlaloc e o outro a Huitzilopochtli. Quetzalcoatl e Tezcatlipoca tinham templos separados dentro do recinto religioso próximo ao Grande Templo e os sumos sacerdotes do Grande Templo eram chamados de “Quetzalcoatl Tlamacazqueh”. Outras divindades principais eram Tlaltecutli ou Coatlicue, uma deidade terrena feminina; o casal de divindades Tonacatecuhtli e Tonacacihuatl eram associados com vida e sustento; Mictlantecutli e Mictlancihuatl, um par masculino/feminino de divindades do submundo e da morte; Chalchiutlicue, uma divindade feminina de lagos e nascentes; Xipe Totec, uma divindade da fertilidade e do ciclo natural; Huehueteotl ou Xiuhtecuhtli, um deus do fogo; Tlazolteotl, uma divindade feminina ligada ao parto e à sexualidade e Xochipilli e Xochiquetzal, deuses da música, dança e jogos. Em algumas regiões, particularmente Tlaxcala, Mixcoatl ou Camaxtli era a principal divindade tribal. Algumas fontes mencionam uma divindade Ometeotl, que pode ter sido um deus da dualidade entre a vida e a morte, masculino e feminino, e que pode ter incorporado Tonacatecuhtli e Tonacacihuatl.[42] Além das divindades principais, havia dúzias de divindades menores, cada uma associada a um elemento ou conceito e, à medida que o império asteca cresceu, seu panteão também cresceu, porque eles adotaram e incorporaram as divindades locais de povos conquistados. Além disso, os principais deuses tinham muitas manifestações ou aspectos alternativos, criando pequenas famílias de deuses com aspectos relacionados.[43]

Mitologia e cosmovisão

 Ver artigo principal: Mitologia asteca
 
Desenho cosmológico asteca com o deus Xiuhtecuhtli, o senhor do fogo, no centro e os quatro cantos do cosmos marcados por quatro árvores com pássaros associados, ditames e nomes de calendário, sendo que cada direção era marcada por um membro desmembrado do deus Tezcatlipoca.[44] Do códice Fejérváry-Mayer.

A mitologia asteca é conhecida a partir de várias fontes escritas no período colonial. Um conjunto de mitos, chamado Lenda dos Sóis, descreve a criação de quatro sóis sucessivos, ou períodos, cada um governado por uma divindade diferente e habitado por um grupo diferente de seres. Cada período termina em uma destruição cataclísmica que prepara o cenário para o próximo período a começar. Nesse processo, as divindades Tezcatlipoca e Quetzalcoatl aparecem como adversários, cada um destruindo as criações do outro. O Sol atual, o quinto, foi criado quando uma divindade menor se sacrificou em uma fogueira e se transformou na estrela, mas o Sol só começa a se mover uma vez que as outras divindades se sacrificam e lhe oferecem sua força vital.[45]

Em outro mito sobre como a Terra foi criada, Tezcatlipoca e Quetzalcoatl aparecem como aliados, derrotando um gigante crocodilo Cipactli e exigindo que ela se torne a Terra, permitindo que os seres humanos entrem em sua carne e plantem suas sementes, sob a condição de que em troca eles ofereçam sangue para ela. E na história da criação da humanidade, Quetzalcoatl viaja com seu gêmeo Xolotl para o submundo e traz de volta ossos que são então moídos como milho em um metate pela deusa Cihuacoatl. A massa resultante recebe forma humana e ganha vida quando Quetzalcoatl imbui com seu próprio sangue.[46]

Huitzilopochtli é a divindade ligada à tribo dos mexicas e ele figura na história da origem e das migrações deste povo. Em sua jornada, Huitzilopochtli, na forma de um conjunto de divindades carregado pelo sacerdote mexica, incita continuamente a tribo, empurrando-a em conflito com seus vizinhos sempre que eles estão instalados em um lugar. Em outro mito, Huitzilopochtli derrota e desmembra a sua irmã, a divindade lunar Coyolxauhqui e seus quatrocentos irmãos na colina de Coatepetl. O lado sul do Grande Templo, também chamado de Coatepetl, era uma representação desse mito e, nas escadas, havia um grande monólito de pedra esculpido com uma representação da deusa desmembrada.[47]

Calendário

 Ver artigo principal: Calendário asteca
 
A "pedra do calendário asteca" ou "Pedra do Sol", um grande monólito de pedra desenterrado em 1790 na Cidade do México, representando as cinco eras da história mítica asteca, com imagens calendáricas.

A vida religiosa asteca era organizada em torno dos calendários. Como a maioria dos povos mesoamericanos, os astecas usavam dois calendários simultaneamente: um calendário ritual de 260 dias chamado tonalpohualli e um calendário solar de 365 dias chamado xiuhpohualli. Cada dia tinha um nome e um número em ambos os calendários e a combinação de duas datas era única dentro de um período de 52 anos. O tonalpohualli era usado principalmente para propósitos divinatórios e consistia em sinais de 20 dias e coeficientes numéricos de 1–13 que rodavam em uma ordem fixa. O xiuhpohualli era composto de 18 "meses" de 20 dias, com um restante de 5 dias "vazios" no final de um ciclo antes do novo ciclo começar. Cada mês de 20 dias era nomeado em homenagem ao festival ritual específico que começou o mês, muitos dos quais continham uma relação com o ciclo agrícola. Se e como o calendário asteca era corrigido por ano bissexto ainda é uma questão em discussão entre especialistas. Os rituais mensais envolviam toda a população, pois eles eram realizados em cada casa, nos templos de calpolli e no recinto sagrado principal. Muitos festivais envolveviam diferentes formas de dança, bem como o reencenamento de narrativas míticas por imitadores de divindades e a oferta de sacrifício, na forma de comida, animais e vítimas humanas.[48]

A cada 52 anos, os dois calendários chegavam ao seu ponto de partida compartilhado e começavam um novo ciclo. Este evento era celebrado com um ritual conhecido como Xiuhmolpilli ou a Cerimônia do Fogo Novo. Nesta cerimônia, a velha cerâmica era quebrada em todas as casas e todos os incêndios no reino asteca eram apagados. Então um novo fogo era perfurado sobre o peito de uma vítima sacrifical e os corredores traziam o novo fogo para as diferentes comunidades de calpolli, onde ele era redistribuído para cada lar. A noite sem fogo estava associada ao medo de que demônios estelares, tsitsimim, pudessem descer e devorar a Terra, pondo fim ao período do quinto Sol.[49]

Sacrifício humano e canibalismo

Para os astecas, a morte era fundamental para a perpetuação da criação e tanto os deuses quanto os humanos tinham a responsabilidade de se sacrificar para permitir que a vida continuasse. Como descrito no mito da criação acima, os seres humanos eram entendidos como responsáveis ​​pelo contínuo reavivamento do Sol, bem como pelo pagamento à Terra por sua contínua fertilidade. Sacrifício de sangue de várias formas eram realizados. Seres humanos e animais eram sacrificados, dependendo do deus ser aplacado e da cerimônia a ser conduzida, e os sacerdotes de alguns deuses eram às vezes obrigados a fornecer seu próprio sangue através da auto-mutilação. Sabe-se que alguns rituais incluíam atos de canibalismo, sendo que o sequestrador e sua família consumiam parte da carne de seus cativos sacrificados, mas não se sabe o quão difundida era essa prática.[50][51]

Apesar do sacrifício humano ter sido praticado em toda a Mesoamérica, os astecas, se suas próprias crenças forem levadas a sério, moveram esta prática a um nível sem precedentes. Por exemplo, para a reconsagração do Grande Templo de Tenochtitlán em 1487, os astecas relataram que sacrificaram 80.400 prisioneiros ao longo de quatro dias, segundo Ahuitzotl, o Grande Orador. Esse número, no entanto, não é universalmente aceito e pode ter sido exagerado.[52]

A escala do sacrifício humano asteca provocou muitos estudiosos a considerar o que pode ter sido o fator determinante por trás desse aspecto da religião asteca. Na década de 1970, Michael Harner e Marvin Harris argumentaram que a motivação por trás do sacrifício humano entre os astecas era na verdade a canibalização das vítimas do sacrifício, descrita, por exemplo, no códice magliabechiano. Harner afirmou que a pressão populacional muito alta e uma ênfase na agricultura de milho, sem herbívoros domesticados, levaram a uma deficiência de aminoácidos essenciais entre os astecas.[53] Embora haja um acordo universal de que os astecas praticavam o sacrifício, há uma falta de consenso acadêmico sobre se o canibalismo era generalizado. Harris, autor de Cannibals and Kings (1977), propagou a alegação, originalmente proposta por Harner, de que a carne das vítimas fazia parte de uma dieta aristocrática como recompensa, visto que a dieta asteca estava carente de proteínas. Estas alegações foram refutadas por Bernard Ortíz Montellano, que, em seus estudos sobre saúde, dieta e medicina astecas, demonstra que, embora a dieta asteca fosse baixa em proteínas animais, era rica em proteínas vegetais. Ortiz também aponta para a preponderância do sacrifício humano durante os períodos de abundância alimentar após as colheitas em comparação com períodos de escassez de alimentos, a quantidade insignificante de proteína humana disponível nos sacrifícios e o fato de que os aristocratas já tinham acesso fácil à proteína animal.[54][52] Hoje, muitos estudiosos apontam para explicações ideológicas da prática, observando como o espetáculo público de sacrificar guerreiros de Estados conquistados era uma grande demonstração de poder político, apoiando a reivindicação das classes dominantes à autoridade divina.[55] Eles também serviam como um importante impedimento contra a rebelião de políticas subjugadas contra o Estado asteca, sendo que tais impedimentos foram cruciais para que o império, que era frouxamente organizado, se associasse.[56]

Medicina

 
Imagem de Xipe Totec no calendário Tonalamatl de 260 dias.
 
Uma página do Libellus de Medicinalibus Indorum Herbis, um herbário asteca composta em 1552 por Martín de la Cruz e traduzido para o latim por Juan Badianus.[57]

A antropologia médica situa o conhecimento mítico-religioso como forma de racionalidade médica se este se constitui como um sistema lógico e teoricamente estruturado, que preencha como condições necessárias e suficientes os seguintes elementos:

Pelo menos parcialmente, o sistema asteca preenche tais requisitos. Apresenta-se como teoricamente estruturado, com formação específica (o aprendizado das diversas funções da classe sacerdotal), o relativo conhecimento de anatomia (comparado com sistemas etnomédicos de índios dos desertos americanos ou florestas tropicais) em função, talvez, da prática de sacrifícios humanos mas não necessariamente dependente dessa condição. Há evidências que soldavam fraturas e punham talas em ossos quebrados.

A dinâmica vital da relação tonal (tonalli) – nagual (naualli) ou explicações do efeito de plantas medicinais são pouco conhecidos, contudo o sistema de intervenções terapêuticas através de plantas medicinais, dietas e ritos são evidentes. A doutrina médica tradicional por sua vez, também não é bem conhecida.

No sistema diagnóstico encontramos quatro causas básicas: Introdução de corpo estranho por feitiçaria; Agressões sofridas ao duplo (nagual); Agressões ou perda do tonal; e influências nefastas de espíritos (ares).

Em relação a esse conjunto de patologias, os deuses representavam simultaneamente uma categoria de análise de causa e possibilidade de intervenção por sua intercessão. Tlaloc estava associado aos ares e doenças do frio e da pele (úlceras e lepra) e hidropsia; Ciuapipiltin às convulsões e paralisia; Tlazolteotl às doenças do amor que inclusive causavam a morte (tlazolmiquiztli ); Ixtlilton curava as crianças; Lume, ajudava as parturientes; Xipe Totec era o responsável pelas oftalmias.

Plantas e técnicas

O tabaco e o incenso vegetal (copalli) estava presente em suas práticas. Seus ticitl (médicos feiticeiros) em nome dos deuses realizavam ritos de cura com plantas que contém substâncias enteógenas ( Lophophora williamsii ou peiote; Psylocybe mexicana, Stropharia cubensis - cogumelos com psilocibina; Ipomoea violacea e Rivea corymbosa - ololiuhqui) que ensinam a causa das doenças, mostram a presença de tonal (tonalli), e agressões infligidas ao duplo animal ou nagual (naualli) os casos de enfeitiçamento ou castigo dos deuses.

Entre os remédios mais conhecidos estava a alimentação dos doentes com dietas a base de milho e ervas tais como: passiflora (quanenepilli), o bálsamo-do-peru (Myroxylon peruiferum L. f.), a raiz de jalapa, a salsaparrilha (iztacpatli / psoralea) a valeriana o cihuapahtli ou zoapatle (Montanoa tomentosa), empregado como auxiliar do trabalho de parto com seu princípio ativo análogo à ocitocina associado à purhépecha (Manzanilla - Matricaria recutita L.) ou equivalente, com suas propriedades sedativas, entre centenas de outras registradas em códices escritos dos quais nos sobraram fragmentos.

Ver também

Referências

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  2. Gibson 1964
  3. López Austin 2001, p. 68
  4. a b Smith 1997, pp. 4–7
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  6. Smith 1997, pp. 176–82
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  8. 500 anos depois cientistas descobrem porque morreram os Aztecas, Observador, 16/1/2018
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Bibliográficas

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  • Soustelle, Jacques. A civilização asteca. RJ, Zahar, 1970
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  • Moctezuma, Eduardo Matos. Tenochtitlán. Mexico. Fondo de Cultura Econômica, 2006 Google Livros Jul. 2011
  • Cruz, Martín de la; Gates,William. An Aztec herbal: the classic codex of 1552. NY, Dover, 2000. Google Books Jul. 2011

Ligações externas

 
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