Abrir menu principal

Estação Ferroviária de Porto-Alfândega

estação ferroviária em Portugal
Porto-Alfândega
Inauguração 8 de Novembro de 1888
Encerramento Junho de 1989
Linha(s) Ramal da Alfândega (PK 3,896)
Coordenadas 41° 08′ 31,25″ N, 8° 37′ 12,57″ O
Concelho Porto
Serviços Ferroviários Desactivada
Horários em tempo real

A Estação Ferroviária de Porto-Alfândega, igualmente conhecida por Alfândega do Porto ou Porto-A, foi uma interface ferroviária de mercadorias do Ramal da Alfândega, que servia a Alfândega e as suas docas, na Cidade do Porto, em Portugal.

Índice

Estação nos primeiros anos do Século XX, com o edifício da Alfândega à esquerda.

HistóriaEditar

Planeamento, construção e inauguraçãoEditar

No Século XIX, a Alfândega do Porto concentrava um elevado movimento comercial por via marítima, justificando a sua ligação à rede ferroviária portuguesa.[1] Assim, em 23 de Junho de 1880 foi decretada a construção do Ramal da Alfândega e da correspondente estação terminal.[2]

Em 9 de Outubro de 1880, foi aprovado o projecto para o Ramal da Alfândega, elaborado pelo engenheiro Justino Teixeira, com base num trabalho de Mendes Guerreio; a construção iniciou-se a 17 de Julho do ano seguinte[1], tendo a inauguração tido lugar a 8 de Novembro de 1888.[3]

 
O rei D. Manuel II na estação da Alfândega em 1909, a inspeccionar os estragos provocados por uma cheia do Rio Douro.

Ampliação da estaçãoEditar

Nos finais do Século XIX, a associação Centro Comercial do Porto fez uma reclamação ao Ministério das Obras Públicas, onde denunciou as instalações da estação da Alfândega como insuficientes para as necessidades do serviço.[4] Com efeito, os serviços de mercadorias de pequena velocidade no Porto eram feitos só nas estações de Campanhã e Alfândega, o que provocava graves problemas em ambas as interfaces.[5] Por exemplo, em 1897, Porto Alfândega expediu quase 60 mil toneladas, e recebeu mais de 30 mil, movimento que era excessivo para a acanhada estação, que tinha uma grande falta de espaço nos seus armazéns e más condições para a atracação dos barcos.[5] Esperava-se que parte do movimento de pequena velocidade fosse desviado para a Gare de Porto-São Bento, que então ainda estava em obras, aliviando dessa forma o serviço em ambas as estações.[5] Em resposta aos protestos, em Abril de 1899 já se tinha projectado a construção da cobertura de um cais na estação, de forma a proteger as mercadorias, e estava-se em negociações para as obras de alargamento da estação.[6] No entanto, em Julho de 1902 os planos de ampliação ainda não tinham avançado, estando a ser revistos pelo Conselho Superior de Obras Públicas, uma vez que existiam dúvidas sobre os alicerces do muro do cais, que iria ser alteado e carregado com aterro.[5] Entretanto, foram feitas pequenas intervenções, como a construção de uma cobertura em cima de um cais, a modificação das vias férreas, foi contratada uma empresa de dragagem para aquela zona do rio, e estava quase concluído o projecto para mais um guindaste a vapor.[5] Estas eram todas as alterações que se podiam fazer até que o governo iniciasse o grande projecto de modificação da estação, integrado nos planos para as obras gerais do Rio Douro.[5] De forma a reduzir a congestão na estação da Alfândega, foi assinado um contrato com a Companhia Carris de Ferro do Porto, para um serviço combinado até Leixões.[5]

A Gazeta dos Caminhos de Ferro de 1 de Março de 1903 noticiou que já tinha sido entregue ao conselho de administração dos Caminhos de Ferro do Estado um novo projecto de ampliação para a estação da Alfândega do Porto, que já tinha sido enviado ao Conselho Superior de Obras Públicas.[7] O projecto foi elaborado pelo engenheiro-chefe de Via e Obras do Minho e Douro, Basílio Alberto de Sousa Pinto, e aprovado por uma portaria de 9 de Maio desse ano.[8] As obras foram orçadas em 30:200$000 réis, e consistiram na instalação de caranguejos e placas, cobertura parcial dos dois cais existentes e construção de um terceiro descoberto, com 590 m².[9] Também deveria ser aproveitada a rampa ocidental, que não estava a ser utilizada, para outro cais descoberto, com um comprimento de 700 m²[7], que só deveria ficar submerso caso ocorressem cheias iguais ou superiores às de 1860.[7] Desta forma, não seria comprometida a estabilidade do muro do cais.[7] O projecto também contemplou o prolongamento do muro de suporte da estação, em substituição do revestimento provisório que lá se encontrava[9], e a instalação de placas para os serviços de cargas e descargas para o Rio Douro.[9] Deveria ser igualmente instalada uma ponte metálica avançada, com um guindaste a vapor[9], sobre o patamar da rampa de acesso ao rio.[7] As vias férreas também deveria ser modificadas, de forma a facilitar as manobras.[8] Ponderou-se igualmente a instalação de iluminação nocturna e a permanência de uma locomotiva para manobras, de forma a melhorar o funcionamento da estação.[8]

Estas obras inseriram-se no âmbito de um plano de melhoramentos introduzidos pelo Conselho de Administração dos Caminhos de Ferro do Estado.[10]

Em 7 de Julho de 1905, a Direcção do Minho e Douro dos Caminhos de Ferro do Estado anunciou a abertura de um novo concurso para obras na estação da Alfândega, que ficou marcado para para 23 de Agosto desse ano.[11] Este concurso contemplava a construção de um muro acostável e do suporte para a estação, rampas de acesso e os correspondentes patamares desde a margem do rio à Rua da Nova Alfândega, uma escada de ligação à Rua de Cima do Muro, e de um aterro para a plataforma da estação sobre terrenos conquistados ao rio.[11] Foi aceite a única proposta, que tinha sido feita pelo empreiteiro Léon Reynaud com um valor de 220:000$000 réis e um prazo máximo de 2 anos.[12]

Em 1933, a Comissão Administrativa do Fundo Especial de Caminhos de Ferro incluiu, no seu programa de melhoramentos, a construção de canalização de esgotos na placa instalada na linha n.º 2 desta estação.[13] No ano seguinte, a designação desta estação foi alterada de Alfandega para Alfândega-Rio[14], e foi autorizada a instalação de 3 pára-choques.[15]

 
Mapa da Linha de Leixões nos primeiros tempos, mostrando igualmente os dois projectos abandonados para continuar o Ramal da Alfândega até Leixões.

Ligação projectada a LeixõesEditar

Desde os primeiros anos que se pensou em prolongar o Ramal da Alfândega até ao Porto de Leixões[10], tendo este projecto sido oficialmente lançado por uma Carta de Lei de 29 de Agosto de 1889[16], que ordenou a criação da Companhia das Docas e Caminhos de Ferros Peninsulares, empresa que deveria ser responsável pelo prolongamento do ramal até Leixões, e da Linha do Douro até Salamanca.[10] O ramal até Leixões foi orçado em 942 mil réis, tendo este valor sido reduzido para 642 mil réis por uma variante introduzida em 1897.[10] Ainda assim, continuavam a ser valores demasiado elevados para a época, especialmente após a crise financeira de 1891, pelo que o Conselho Superior de Obras Públicas começou a estudar uma solução alternativa para a ligação ferroviária a Leixões, mas partindo da Linha do Minho.[10] Desta forma, a Linha de Circunvalação do Porto (futura Linha de Leixões) foi classificada por um Decreto de 15 de Fevereiro de 1900, ligando Contumil a Leixões.[10]

Apesar disso, ainda continuou o projecto para continuar o ramal da Alfândega até Leixões, tendo uma portaria de 1903 ordenado a revisão do orçamento de 1897 para este troço, e a elaboração de um novo traçado.[10] Em 1904, uma representação de comerciantes e industriais do Porto opôs-se à continuação do Ramal, argumentando que a ligação através de Contumil em vez da Alfândega seria mais vantajosa para as regiões do Minho e Douro, e que o ramal não possuía condições para suportar um aumento de tráfego.[16] Com efeito, um dos objectivos da futura Linha de Leixões foi retirar movimento à estação de Alfândega, que não possuía condições para acolher todo o tráfego que recebia.[5] Em 7 de Maio de 1906, um despacho ministerial ordenou a continuação do Ramal da Alfândega até Leixões.[17]

 
Antigo edifício da Alfândega do Porto. Ao fundo à direita, situava-se o terminal ferroviário.

Declínio e encerramento ao serviçoEditar

Após a inauguração do Porto de Leixões, a Alfândega do Porto perdeu importância como terminal de mercadorias, o que começou a colocar em causa a sua ligação ferroviária.[1] A redução no tráfego, aliada à dificuldade do traçado, bem como a reduzida importância no sistema ferroviário nacional[1] e o facto da Alfândega ter sido extinta a 1 de Janeiro de 1986[18], levou ao encerramento do Ramal em Junho de 1989.[19]

Uma associação de entusiastas, denominada GARRA - Grupo de Acção para a Reabilitação do Ramal da Alfândega,[20] sugeriu a reabilitação do ramal, de forma a futuramente ser utilizado num serviço entre Porto-Alfândega e Leixões, passando por Porto Campanhã, Contumil e São Gemil.[21]

Ver tambémEditar

Referências

  1. a b c d Silva, J.R. e Ribeiro, M. (2009). Os comboios de Portugal - Volume II. 2ª Edição.Terramar.Lisboa
  2. TORRES, Carlos Manitto (16 de Fevereiro de 1958). «A evolução das linhas portuguesas e o seu significado ferroviário» (PDF). Gazeta dos Caminhos de Ferro. 70 (1684). Gazeta dos Caminhos de Ferro. p. 91-95. Consultado em 11 de Março de 2015 
  3. «Troços de linhas férreas portuguesas abertas à exploração desde 1856, e sua extensão» (PDF). Gazeta dos Caminhos de Ferro. 69 (1652). 16 de Outubro de 1956. p. 528-530. Consultado em 7 de Outubro de 2014 
  4. «Há Quarenta Anos» (PDF). Gazeta dos Caminhos de Ferro. 48 (1171). 1 de Outubro de 1936. p. 478. Consultado em 7 de Maio de 2013 
  5. a b c d e f g h SOUSA, José Fernando de (16 de Julho de 1902). «As estações do Minho e Douro no Porto» (PDF). Gazeta dos Caminhos de Ferro. 15 (350). p. 209-211. Consultado em 15 de Outubro de 2018 
  6. «Há Quarenta Anos» (PDF). Gazeta dos Caminhos de Ferro. 51 (1231). 1 de Abril de 1939. p. 198-199. Consultado em 7 de Outubro de 2014 
  7. a b c d e «Linhas Portuguezas» (PDF). Gazeta dos Caminhos de Ferro. 16 (365). 1 de Março de 1903. p. 75. Consultado em 6 de Março de 2012 
  8. a b c «Ampliação da Estação da Alfândega do Porto» (PDF). Gazeta dos Caminhos de Ferro. 16 (370). 16 de Maio de 1903. p. 169. Consultado em 24 de Fevereiro de 2012 
  9. a b c d «Linhas Portuguezas» (PDF). Gazeta dos Caminhos de Ferro. 16 (371). 1 de Junho de 1903. p. 196. Consultado em 7 de Outubro de 2014 
  10. a b c d e f g SOUSA, José Fernando de (1 de Outubro de 1938). «Linha de Circunvalação do Porto» (PDF). Gazeta dos Caminhos de Ferro. 50 (1219). p. 439-442. Consultado em 14 de Novembro de 2013 
  11. a b «Arrematações» (PDF). Gazeta dos Caminhos de Ferro. 18 (423). 1 de Agosto de 1905. p. 237. Consultado em 24 de Fevereiro de 2012 
  12. «Linhas Portuguezas» (PDF). Gazeta dos Caminhos de Ferro. 18 (425). 1 de Setembro de 1905. p. 266. Consultado em 28 de Junho de 2013 
  13. «Direcção Geral de Caminhos de Ferro: Melhoramentos nas Linhas do Estado» (PDF). Gazeta dos Caminhos de Ferro. 46 (1089). 1 de Maio de 1933. p. 277. Consultado em 24 de Fevereiro de 2012 
  14. «Direcção Geral de Caminhos de Ferro» (PDF). Gazeta dos Caminhos de Ferro. 46 (1111). 1 de Abril de 1934. p. 187. Consultado em 24 de Fevereiro de 2012 
  15. «Direcção Geral de Caminhos de Ferro: Aprovação de Projectos e Adjudicação de Obras» (PDF). Gazeta dos Caminhos de Ferro. 46 (1117). 1 de Julho de 1934. p. 335. Consultado em 24 de Fevereiro de 2012 
  16. a b «Linha de Circumvallação do Porto» (PDF). Gazeta dos Caminhos de Ferro. 18 (424). 16 de Agosto de 1905. p. 243. Consultado em 24 de Fevereiro de 2012 
  17. NONO, Carlos (1 de Maio de 1948). «Efemérides ferroviárias» (PDF). Gazeta dos Caminhos de Ferro. 70 (1449). p. 293-294. Consultado em 7 de Outubro de 2014 
  18. Garra. «Ramal da Alfândega - Datas». Consultado em 2 de Julho de 2010 [ligação inativa] [ligação inativa]
  19. MAYER, Jorge (21 de Fevereiro de 2005). «Ramal da Alfândega-Campanhã (existente desde 1888)». Consultado em 24 de Fevereiro de 2012 
  20. «GARRA - Grupo de Acção para a Reabilitação do Ramal da Alfândega». Consultado em 24 de Fevereiro de 2012 
  21. «Ramal da Alfândega - Propostas». Garrra. Consultado em 24 de Fevereiro de 2012 [ligação inativa] [ligação inativa]
 
O Commons possui uma categoria contendo imagens e outros ficheiros sobre a Estação de Porto-Alfândega

Ligações externasEditar